O contrato de R$ 9 mil que devolvi em Caldas Novas para proteger Juliana

Eu vi a mão da Juliana tremer antes de ela ver o carro da mãe entrando no estacionamento da pousada. Isso foi antes de qualquer discussão, antes de eu abrir a pasta que estava guardada havia três dias na mala. O corpo dela sempre sabia antes da cabeça. Isso eu aprendi convivendo com ela esses dois anos.

Meu nome é Rafael Correia, tenho trinta e dois anos, dou aula de funcional numa academia em Goiânia, no bairro Setor Bueno. Juliana Matoso é minha companheira, grávida de vinte e nove semanas, e foi participante de um reality de confinamento há seis anos — dessas que a Record filma trancadas num sítio com câmeras em todo canto. Quem lembra dela ainda manda mensagem. É pouca gente, mas é gente que grita no comentário quando ela posta qualquer coisa que soe triste demais pra quem "deveria estar radiante".

Ela nunca escondeu de mim que odiava estar grávida. Não o bebê — a gravidez. São coisas diferentes, e ela repetia isso pra mim quase todo dia, enquanto vomitava de manhã ou ficava sem conseguir dormir de lado às três da madrugada. "Eu amo esse ser, Rafa. Eu só queria que ele chegasse sem eu precisar passar por isso." Eu segurava o cabelo dela no banheiro e não tinha resposta boa pra dar, só ficava ali.

O que pouca gente de fora sabia — e isso é uma coisa que só eu vi de perto, porque eu morava dentro daquela casa — era o acordo que a mãe dela, Dona Marlene, tinha fechado com um site de celebridades, a Revista Close, pra documentar a gravidez semana a semana. Quinze mil reais no total, pago em parcelas, com nove mil já adiantados. Dona Marlene administrava as redes da Juliana desde o reality e tinha uma procuração assinada anos atrás pra negociar publicidade em nome dela. Era assim que funcionava a boutique de enxoval da própria Marlene também, a Nina Baby, lá no Setor Oeste: a fama antiga da filha puxava cliente pra loja da mãe.

O combinado era simples, no papel: um post por semana, foto de barriga, legenda emocionada, tudo de bom gosto. Na prática, depois que a Juliana escreveu um desabafo dizendo que achava a gestação "vil" e "horrível" — palavras dela mesmo, ela escolheu assim de propósito —, a revista reclamou. Queriam conteúdo "mais leve". Dona Marlene ligava quase todo dia cobrando isso.

Na vigésima sétima semana a Juliana sangrou. Foi pouco, mas foi de noite, e corremos pro Hospital das Clínicas em Goiânia, e o obstetra falou em risco de pré-eclâmpsia, falou em repouso absoluto, falou em nada de estresse. Eu lembro do cheiro de álcool em gel da sala de espera e do som de um carrinho de remédio arrastando no corredor enquanto eu segurava a mão dela esperando o resultado da pressão.

Dona Marlene chegou no hospital com o celular já na mão. "Filha, quando você se sentir melhor a gente grava um vídeo falando que foi um susto bobo, que já passou, positivo. O pessoal lá da revista tá impaciente."

Eu não falei nada ali. Devia ter falado.

Foi por isso que, quando o médico liberou alguns dias de descanso antes da consulta de reavaliação, eu fiz a reserva numa pousada em Caldas Novas, cento e setenta quilômetros de Goiânia, com piscina de água termal que sai da terra a trinta e oito graus e cheiro de enxofre que, confesso, demora pra acostumar. Avisei pouca gente. Desliguei a localização do meu celular, coisa que nunca fiz na vida.

Juliana deitou na espreguiçadeira com um maiô azul e branco que já não fechava direito atrás, e pela primeira vez em semanas ela bebeu um suco de caju sem pressa, olhando a água fumegando. Um cachorro vira-lata que vivia solto no pátio da pousada veio deitar do lado dela sem pedir licença, e ela riu, de verdade, baixinho, fazendo cafuné na cabeça do bicho. Foi a primeira risada inteira que eu ouvi dela em dez dias.

A gente ficou ali três dias trocando pouca coisa com o mundo. Ela comia manga com as mãos sentada na beira da piscina, eu fazia a barba só de três em três dias, coisa que normalmente não deixo passar de um. Tinha um rádio no bar da pousada tocando sertanejo baixinho o dia inteiro, e no quarto dia, de manhã, quando eu já estava guardando as coisas pra voltar pra casa — porque a consulta médica era na sexta —, o carro da Dona Marlene entrou no estacionamento de terra.

Ela tinha dirigido cento e setenta quilômetros com o notebook no banco de trás e um roteiro impresso de perguntas pra uma "live de reconciliação com o público". Dez dias sem postar, segundo ela, já tinham derrubado o engajamento e colocado em risco a parcela final do contrato.

Juliana ficou parada na beira da piscina, a toalha apertada contra a barriga, sem conseguir falar. Foi aí que eu fui buscar a pasta.

Três dias antes, sem contar pra ninguém, eu tinha levado o contrato original pra uma advogada amiga minha, a Fernanda, que atende no Setor Marista. Ela olhou a procuração que a Marlene tinha, viu que dava pra revogar a qualquer momento por decisão unilateral da própria Juliana, independente de qualquer cláusula de fidelidade com a revista. Fernanda redigiu uma carta de rescisão simples, com a devolução integral dos nove mil reais já recebidos — dinheiro que a gente ainda tinha guardado, intacto, porque a Juliana nunca quis gastar aquilo justamente por desconfiar de como vinha.

Eu entreguei a pasta na mão dela na beira daquela piscina, na frente da mãe.

"Mãe", a Juliana leu, devagar, segurando o papel com as duas mãos porque elas ainda tremiam um pouco, "isso aqui encerra o contrato com a Revista Close. E revoga a procuração que eu te dei em 2019. A senhora não assina mais nada em meu nome a partir de hoje."

Dona Marlene pegou o papel, leu duas vezes. "Você tá cancelando tudo por causa de um texto triste que você postou? Isso aqui é renda, Juliana. É o enxoval, é o berço, é—"

"É nove mil reais que a gente vai devolver essa semana", eu cortei. "E é a última vez que alguém manda ela sorrir pra câmera com sangramento."

Ela ficou um instante sem reação, só olhando pro envelope. Chamou a filha de ingrata, disse que ia contar pra todo mundo que a Nina Baby não tinha mais relação com ela, pegou o notebook e saiu andando com o salto afundando na terra do estacionamento. O carro saiu cantando pneu, o que, numa pousada com cachorro solto e crianças correndo, quase derrub

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O contrato de R$ 9 mil que devolvi em Caldas Novas para proteger Juliana