Helena Nogueira tem cinquenta e três anos e mora na Água Verde, no quarto andar de um prédio sem elevador, onde no inverno o aquecedor a óleo bate que nem relógio e no verão entra pela janela o cheiro de pastel da barraca lá embaixo. O filho saiu de casa há oito anos, a filha ainda antes. Os dois já têm chave própria, conta de luz própria, problemas próprios dos quais só contam metade à mãe.
Mas não é isso que importa aqui, a distância. O que importa é aquela hora entre as duas e as três da madrugada, quando Helena acorda sem motivo nenhum — não por barulho, não por dor, os olhos simplesmente se abrem sozinhos — e ela sabe que não vai pegar no sono de novo naquela noite enquanto não rezar o terço pelos filhos, que já são adultos, têm apartamento próprio e celular, e mesmo assim dormem sem saber que a mãe está ajoelhada ao lado da cama com as contas do terço enroladas nos dedos.
Começou muito tempo atrás, antes mesmo de Marcos terminar o colégio. Helena trabalhava numa lavanderia a seco na Rua Marechal Deodoro, voltava depois das dez da noite, e o menino ficava sozinho na cozinha com o caderno de matemática e um prato de arroz com feijão já frio. Não tinha tempo para conversas longas — tinha tempo só para ajoelhar antes de dormir e dizer a Deus o que não conseguira dizer ao filho.
A vizinha do térreo, dona Cristina, uma vez perguntou direto por que a luz da janela dela ficava acesa até tão tarde. Helena respondeu curto: porque tenho quem cuidar, mesmo que eles nem saibam disso.
Aquela noite comum — treze de setembro, um sábado, com a chuva batendo na janela — foi diferente. Às duas e meia o telefone tocou. Não era o filho. Era Bruno, amigo dele, com a voz embargada: Marcos tinha sofrido um acidente na BR-277, sentido Campo Largo, o carro capotara na pista molhada. Helena ainda segurava o terço na mão quando ouviu aquilo, e alguma coisa dentro dela — não medo, algo mais duro — fez com que ela não soltasse as contas, e sim apertasse ainda mais forte.
Foi de táxi até o Hospital Cajuru, atravessando uma Curitiba vazia e molhada, com o celular colado no ouvido, mesmo que ninguém mais dissesse nada do outro lado. Ficou na sala de espera por quatro horas. Não chorou alto. Movia os lábios, como fazia nas madrugadas em que ninguém via.
Às seis da manhã o médico saiu. Disse que era fratura na clavícula, concussão, mas estava vivo — e que se o cinto de segurança tivesse cedido meio segundo depois, estariam conversando sobre outra coisa bem diferente.
Marcos, com o braço na tipoia e gesso na clavícula, perguntou a ela depois, no corredor do hospital cheirando a álcool, como ela sabia que algo ia acontecer — porque ela tinha ligado pra ele no dia anterior, sem motivo nenhum, só para perguntar se ele tinha almoçado. Helena não tinha resposta que coubesse numa conversa ao lado da máquina de café. Disse apenas que mãe às vezes sente mais do que consegue explicar.
Uma semana depois, quando Marcos já tinha voltado para o apartamento dele no Bigorrilho, Helena fez uma coisa que nunca tinha feito antes — foi a um cartório na Praça Tiradentes e passou para o nome dele metade do terreno em Mandirituba, aquele que tinha comprado com o marido trinta e dois anos atrás e sobre o qual Marcos sempre dizia que um dia construiria uma casa para os próprios filhos. Não fez isso com medo de morrer no dia seguinte. Fez porque, depois daquela noite, entendeu que não queria mais esperar nenhuma ocasião ideal — queria que o filho tivesse na mão algo concreto, um papel com carimbo, e não só uma promessa para o futuro.
Levou a pasta com a escritura, colocou em cima da mesa da cozinha dele, perto da chaleira, e disse: isso é seu, desde hoje, para você saber que não precisa esperar eu faltar para ter certeza de que alguém pensou em você todas as noites, mesmo quando você estava dormindo.
Marcos olhou para a pasta um bom tempo antes de abrir. Não disse nada bonito, não fez discurso de gratidão. Só perguntou se ela ia ficar para o almoço, porque tinha feito canja de galinha, do jeitinho que ela tinha ensinado.
Helena voltou para casa na Água Verde naquela noite, fez um chá, sentou perto da janela e, pela primeira vez desde treze de setembro, pegou no sono antes da meia-noite. Deixou o terço em cima do criado-mudo, não embaixo do travesseiro — porque naquela noite, excepcionalmente, não tinha mais nada para pedir, só algo para agradecer.
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