Dona Idalina e o Teste do Hotel Jacarandá

Vanessa Marques bateu o olho na senhora parada perto da recepção e já sabia o que fazer.

O saguão do Hotel Jacarandá, em Búzios, brilhava naquela manhã de dezembro. Piso de granito polido, lustres enormes, um cheirinho de café importado misturado com perfume caro. Hóspedes circulando com malas de grife, taxistas de terno levando bagagem, tudo no seu lugar.

Menos ela.

Uma mulher de uns setenta e tantos anos, casaco puído, chinelo de dedo gasto nos pés, uma bolsa de pano surrada apertada contra o peito. Parada ali, olhando pro teto alto, pras luzes, pro movimento, como quem nunca tinha visto nada igual.

Vanessa, gerente de hospedagem há quatro anos, cruzou o saguão em passos firmes. Vinte e nove anos, salto alto, blazer impecável — ela tinha construído a própria imagem ali dentro, tijolo por tijolo, e não ia deixar uma mendiga estragar o visual do lobby na véspera de alta temporada.

— A senhora está perdida? — a voz saiu seca, sem sombra de pergunta de verdade.

A velha não respondeu na hora. Só ajeitou a bolsa no colo.

— Isso aqui não é abrigo — Vanessa continuou, mais alto agora, porque já tinha reparado que o casal de hóspedes paulistas na recepção tinha virado a cabeça. — A senhora precisa se retirar.

— Eu só queria sentar um pouco — a velha disse, baixinho.

— Não pode. — Vanessa apontou pra porta giratória, o braço estendido, o dedo quase encostando no ar entre elas. — Vai, pode ir andando. Isso aqui é um hotel cinco estrelas, não é lugar pra moradora de rua ficar pedindo esmola.

Ninguém mais fingia estar ocupado com outra coisa. O casal paulista parou de falar. Um mensageiro, parado junto ao carrinho de malas, segurou a respiração.

A senhora não discutiu. Não chorou. Não pediu desculpa. Ajeitou o casaco puído nos ombros com as duas mãos, um gesto meio automático, e levantou o rosto pra Vanessa.

— Eu vim vestida assim de propósito. — A voz saiu rouca, de quem fumou ou gritou demais na vida. — Queria ver como minha equipe trata quem chega sem aparência de dinheiro.

Vanessa riu, sem jeito, um riso curto que não convencia ninguém.

— Sua equipe? A senhora trabalha aqui?

— Trabalho, não. — A velha abaixou a bolsa de pano no chão de granito, tirou um lenço do bolso do casaco e assoou o nariz antes de continuar, sem pressa nenhuma, como se tivesse todo o tempo do mundo. — Esse hotel é meu. Idalina Prestes Guimarães. Tá no nome da escritura, no alvará, numa placa de bronze lá atrás da recepção que ninguém nunca lê porque fica atrás do vaso de orquídea.

O burburinho explodiu entre os hóspedes num segundo. Alguém sussurrou "é ela mesmo, é a dona", um funcionário da bagagem empalideceu na hora.

Vanessa sentiu as pernas tremerem. A cor fugiu do rosto tão rápido que ela teve que se apoiar no balcão da recepção.

— Isso… isso não é possível. A senhora… dona Idalina mora em São Paulo, nunca vem…

— Nunca venho sem avisar. Essa é a graça. — Dona Idalina pegou de volta a bolsa do chão, segurando-a de novo contra o peito. — Faz três meses que uma hóspede me liga reclamando de como esse hotel trata quem não usa roupa de marca. Pensei "deve ser exagero". Vim ver com meus próprios olhos, com minhas próprias pernas.

O gerente geral, Haroldo Siqueira, apareceu correndo da sala dos fundos, gravata torta, celular ainda na mão.

— Dona Idalina! Eu não sabia que a senhora vinha hoje, me desculpe, eu…

— Você não tem nada que se desculpar, Haroldo. Você não tava aqui. — Ela nem olhou pra ele. Os olhos continuavam fixos em Vanessa. — Quem tava aqui foi ela.

Vanessa abriu a boca pra se justificar, fechou de novo. As palavras não saíam.

— Trabalhei de garçonete numa lanchonete de beira de estrada, lá pros lados de Resende, dezoito anos — dona Idalina falou, olhando agora pra algum ponto atrás de Vanessa, como quem mira o passado mais do que a pessoa na frente. — Teve um dia que um caixeiro-viajante derrubou café na calça da filha do proprietário. Eu não tinha feito nada, nem chegado perto da mesa, mas o dono olhou pra mim e disse "você já tá com a cara errada pra esse salão, Idalina, vai pra cozinha". Fiquei dois anos lavando prato sem nunca mais voltar pro salão. Nunca esqueci o nome dele. Nem o gosto de arroz frio que eu comia escondida atrás do fogão, porque não tinha hora certa pra comer.

Ela deu dois passos até a poltrona de couro mais próxima, mas não sentou ainda — ficou de pé, a mão apoiada no encosto, como quem precisa descansar o braço mais do que o corpo.

— Chama a Marisa. Do RH. Agora.

Em vinte minutos, Marisa Teles estava no saguão com uma pasta embaixo do braço. Dona Idalina não gritou, não fez cena maior do que a que já tinha acontecido. Falou baixo, mas claro, pra quem estava perto ouvir.

— Vanessa, você vai ser desligada hoje, por justa causa. Marisa já sabe o procedimento.

— A senhora não pode fazer isso assim, sem nem… — a voz de Vanessa já quebrava.

— Posso. — Dona Idalina abriu a bolsa de pano, tirou de dentro um crachá plastificado e uma folha dobrada em quatro, amarelada nas bordas de tanto ser guardada e tirada da bolsa. Entregou os dois pra Marisa sem olhar pra eles, como quem já sabe de memória o que tem escrito. — Toma. É o que precisa.

Haroldo tentou argumentar que Vanessa era boa gerente, que batia metas, que talvez bastasse uma advertência. Dona Idalina ouviu até o fim sem interromper, mexendo o lenço entre os dedos, e respondeu só uma frase:

— Meta eu recupero em um mês, Haroldo. Hóspede que passou vergonha no meu saguão, isso eu não recupero nem rezando.

Vanessa pegou a bolsa no armário dos funcionários e atravessou o saguão com a caixa de pertences apertada contra o corpo, do mesmo jeito que dona Idalina tinha apertado a bolsa de pano uma hora antes. Na porta giratória, parou um segundo. Olhou pra trás, não pra dona Idalina, mas pro casal paulista que continuava sentado na recepção — como se procurasse ali algum sinal de que aquilo tinha sido injusto demais, rápido demais. Ninguém disse nada. Ela empurrou a porta e saiu.

Dona Idalina ficou mais um tempo no hotel. Sentou, afinal, na poltrona de couro — a mesma, segundo um mensageiro cochichou pra Marisa, que Vanessa tinha proibido um casal de nordestinos de usar na semana anterior, "porque incomodava a vista dos outros hóspedes". Tirou os chinelos de dedo, ficou só de meia no granito frio, e aceitou o café que Haroldo trouxe em pessoa, numa xícara da louça boa do hotel.

Bebeu em silêncio, olhando o movimento do saguão recomeçar devagar: o mensageiro voltando a empurrar o carrinho, o casal paulista voltando a conversar baixinho, a vida do lobby se remontando ao redor do buraco que tinha ficado onde Vanessa estava.

Quando terminou o café, levantou, calçou os chinelos de volta e dobrou a folha amarelada outra vez, guardando-a no fundo da bolsa de pano, junto com o crachá. Atravessou o saguão descalça de salto, só de chinelo gasto, o som da sandália batendo baixinho contra o granito polido a cada passo, até sair pela mesma porta giratória.

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Dona Idalina e o Teste do Hotel Jacarandá