Eu trabalho há onze anos no abrigo de animais que fica na estrada de terra depois do trapiche, em Ribeirão da Ilha, na parte sul de Florianópolis. Sou técnica veterinária, ganho pouco, divido plantão com mais duas pessoas e um estagiário que só aparece às quartas. Conto isso porque, quando essa história aconteceu, eu estava no meio dela por acaso — não era parente de ninguém, não ia herdar nada, só estava ali porque alguém precisava trocar o curativo de um vira-lata chamado Café antes das sete da manhã.
Foi assim que conheci Dona Lígia Andrade Bastos.
Ela chegava às quartas-feiras, sempre de Kombi emprestada, com uma caixa de isopor cheia de ração que ela mesma comprava no atacadão da BR-101. Tinha oitenta e um anos, usava uma camisa do Grêmio Náutico por baixo do avental do abrigo e falava com os cachorros em voz baixa, como quem resolve um problema de contabilidade. Ninguém no bairro sabia que ela era mãe do Dr. Felipe Bastos, o cardiologista que apresentava aquele quadro de saúde na RBS TV aos domingos. Para nós, ela era só a senhora que pagava a castração dos animais de rua do próprio bolso, sem recibo, sem cobrar satisfação.
A nora dela, Carolina, aparecia de vez em quando para buscá-la — de Jeep Compass, vidro fechado, sem descer do carro. Uma vez, num domingo de chuva fina, ouvi Carolina dizer pela janela:
— A senhora vai ficar cheirando a cachorro molhado até quando, dona Lígia? O Felipe tem reunião com o conselho do hospital daqui a pouco, a senhora não pode chegar assim em casa.
Dona Lígia só fechou a caixa de isopor vazia e entrou no carro. Não respondeu. Isso eu vi com meus próprios olhos, porque estava ali no portão segurando o Café pela coleira, tentando fazer ele não pular na Kombi que tinha ido embora cinco minutos antes.
O que eu soube depois, aos pedaços — um pouco pela auxiliar administrativa do abrigo, um pouco pelo próprio Felipe, que começou a aparecer mais — é que Carolina vinha pressionando havia tempo para internar a sogra numa casa de repouso em Santo Amaro da Imperatriz. Dizia que era pela saúde dela. Mas o que mais se falava, baixinho, na cozinha do abrigo, era outra coisa: a família tinha um sítio de dois mil e quatrocentos metros quadrados em Ribeirão da Ilha, herdado do marido de Dona Lígia, avaliado em algo perto de quatrocentos e setenta mil reais na época. Carolina já tinha arquiteto contratado para erguer ali uma casa de veraneio, com deck de madeira voltado para a Baía Sul. Só faltava a sogra sair do caminho — de preferência para um lugar onde não pudesse assinar nada.
Em novembro, Dona Lígia foi diagnosticada com câncer no pâncreas. Os médicos deram seis meses. Ela continuou indo ao abrigo até onde o corpo deixou. Nas últimas semanas, já não trazia mais a caixa de isopor: vinha sentar num banquinho de plástico perto da baia dos filhotes, enrolada num cobertor, só para ver os animais comendo.
Uma tarde de maio, uns três meses depois do diagnóstico, ela me chamou de lado e perguntou se o novo pavilhão — a gente estava construindo um galpão maior, com verba de doação de uma clínica veterinária de Palhoça — ficaria pronto até o fim do mês. Eu disse que talvez, se o material chegasse. Ela só assentiu e disse baixo: "Eu quero ver aberto."
Conseguimos inaugurar no dia 15 de maio. Ela veio de cadeira de rodas, emprestada pelo posto de saúde do bairro, com um cateter escondido debaixo do cobertor. Cortou a fitinha vermelha com uma tesoura de cozinha porque ninguém achou tesoura de verdade. Dois dias depois, no dia 17, ela morreu em casa, de madrugada, com Felipe do lado.
O velório foi na funerária da Beira-Mar Norte. Muita gente do hospital, muita gente da TV, uns três vereadores. Ninguém do abrigo foi convidado oficialmente, mas quatro de nós fomos assim mesmo, de uniforme mesmo, porque era o que tínhamos. Carolina olhou torto quando entramos. Não disse nada na hora.
A parte que eu de fato presenciei, e que por isso posso contar com segurança, foi três semanas depois, num sábado de manhã, no próprio abrigo.
Chegou uma carta registrada do cartório da Lagoa da Conceição. A funcionária administrativa, a Rosimar, assinou o recebimento e me chamou para ler junto, porque as mãos dela tremiam. Era a confirmação de uma escritura de doação, lavrada em fevereiro — três meses antes da morte, quando Dona Lígia ainda tinha forças para ir ao cartório sozinha, sem avisar ninguém da família. Os dois mil e quatrocentos metros quadrados do sítio de Ribeirão da Ilha tinham sido doados em vida ao Instituto que cuidava do abrigo. Estava tudo registrado, com firma reconhecida, assinado por ela e por duas testemunhas — uma delas era a própria Rosimar, a outra, um veterinário aposentado que ajudava nos finais de semana.
Na segunda-feira seguinte, o Jeep Compass da Carolina parou na frente do portão de ferro do sítio, que já tinha placa nova pendurada: "Instituto Lígia Bastos — Lar para Animais Resgatados". Ela desceu do carro com uma pasta debaixo do braço, dessas de plástico com elástico, cheia de papéis que ela certamente achava que valiam alguma coisa. Veio direto na minha direção, porque eu estava perto do portão trocando a água dos bebedouros.
— Isso aqui é um erro de cartório. Vocês vão ter que devolver.
Eu disse que não trabalhava com documentos, que era melhor ela falar com o advogado do Instituto, cujo telefone estava afixado na própria placa. Ela ficou parada ali, com a pasta na mão, olhando o terreno que já tinha dois galpões, uma enfermaria com telhado novo e doze cães deitados na sombra do flamboyant que Dona Lígia tinha plantado dez anos antes.
Felipe chegou vinte minutos depois, sozinho, sem a esposa saber, acho eu. Conversou com o advogado do Instituto pelo telefone, ali mesmo, do lado de fora do portão. Eu não ouvi tudo, só o final, quando ele desligou e falou baixo para ninguém em particular: "Ela já tinha decidido isso em fevereiro. Desde fevereiro." Ficou mais um tempo olhando os cães, depois foi embora sem entrar.
Carolina nunca mais apareceu lá. O sítio virou de fato sede definitiva do Instituto, com escritura registrada, sem brecha para contestação — segundo o próprio advogado explicou numa reunião que fizemos com os funcionários, porque doação em vida, com testemunhas e lucidez comprovada, não se desfaz com birra de família.
Hoje o galpão novo tem capacidade para quarenta animais. O Café, o vira-lata do curativo, está lá até hoje, velho, gordo, dormindo na varanda da enfermaria, debaixo da placa com o nome dela. Às vezes, quando chove de leve igual naquele domingo em que vi Carolina gritar da janela do carro, eu fico pensando se ela ainda passa de carro por ali, pela estrada de terra depois do trapiche, só para ver de longe o que não é mais dela.
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