Dezoito segundos na praia da Concha, em Itacaré

O sol da Bahia batia direto na areia branca da praia da Concha, em Itacaré, e o cheiro de peixe grelhado vinha do quiosque de seu Edmilson, misturado com protetor solar e fumaça de churrasco. Era sábado de fevereiro, véspera de Carnaval, e a areia estava cheia: famílias com cadeiras de praia, vendedores de água de coco gritando preço, um grupo tocando forró numa caixa de som a uns trinta metros dali.

Camila, trinta e um anos, estava sentada debaixo de um guarda-sol listrado, de olho no filho. Théo, dois anos, brincava com um balde furado perto dela, enchendo e esvaziando areia sem parar. Rafael, o marido, trinta e quatro anos, tinha ido até a barraca comprar duas águas de coco e voltava filmando o menino com o celular, rindo de alguma coisa que Théo tinha acabado de fazer.

— Esse menino não para quieto — disse Rafael, se aproximando.

— Também, com esse calor — respondeu Camila, abanando o rosto com a mão.

Foi nesse instante que Théo largou o balde.

Ninguém percebeu de imediato. O menino deu três passos na direção do mar, depois mais três, com aquele jeito desengonçado de criança pequena correndo na areia molhada. A bandeira hasteada no posto de salvamento era amarela — mar de ressaca moderada, próprio para nadar com cuidado, não para brincar sem supervisão a uns vinte metros da água.

— Théo! — Camila gritou primeiro, a voz saindo mais aguda do que ela pretendia.

Rafael largou as duas águas de coco na areia e saiu correndo atrás do filho.

— Théo, para! Vem cá!

O menino não parou. Continuou na direção da arrebentação, os pezinhos descalços deixando marcas rasas que a água já ia apagando.

Rafael corria forte, mas a areia molhada perto da linha d'água cede diferente da areia seca — ele sabia disso, surfava desde adolescente, mas o corpo não respeitou o que a cabeça sabia. No décimo passo, o pé direito afundou num buraco de caranguejo e torceu.

— Ahh! — ele gritou, caindo de lado, a dor subindo pelo tornozelo feito um choque.

Ficou ali, caído, tentando se levantar com as duas mãos na areia.

— Meu pé… não consigo…

Camila já tinha largado a cadeira e corria também, mas o grito de Rafael a fez parar um segundo, dividida entre o marido caído e o filho que já estava quase na espuma das ondas.

— Rafael, levanta! Ele tá entrando na água!

— Eu sei, eu sei, vai! — Rafael gritou, tentando se arrastar pela areia com o tornozelo latejando.

Théo chegou na água e encostou a mãozinha numa onda pequena, achando graça, como se fosse brincadeira.

Foi nesse momento que o apito do posto de salvamento cortou o barulho da praia inteira.

— Afasta todo mundo! — gritou um dos salva-vidas.

Diego Nascimento, vinte e seis anos, já estava correndo com a prancha de resgate debaixo do braço, a sunga amarela do corpo de bombeiros contrastando com a areia. Largou a prancha e entrou na água correndo, cortando as ondas com braçadas rápidas.

Camila chegou perto de Rafael, se ajoelhando, a voz quebrando.

— Meu filho, meu filho…

— Eu vi, Diego já tá entrando — respondeu uma mulher que vendia biscoitos na praia, parando ao lado deles.

Théo já estava com a água na altura da cintura quando uma onda maior passou por ele, derrubando o menino de lado. Foi menos de um segundo de susto, mas foi o suficiente para Diego alcançar a distância que faltava.

— Peguei ele! — gritou Diego, erguendo Théo pelos braços, tirando o rosto do menino da água.

Théo tossiu, assustado, e começou a chorar, mais pelo susto do que por dor.

— Calma, pequeno, já passou, tô com você — disse Diego, segurando o menino encostado no peito enquanto voltava andando pela água rasa.

Rafael, ainda caído na areia, viu a cena de longe e fechou os punhos, apertando os dentes — de dor e de alívio ao mesmo tempo.

Camila correu os últimos metros e pegou o filho dos braços de Diego assim que ele pisou na areia seca.

— Ele tá bem? Ele engoliu água?

— Engoliu um pouco, mas tá respirando normal, tá tossindo — respondeu Diego. — Melhor levar pra enfermaria do posto pra avaliar, só por precaução.

Rafael foi carregado pelos outros dois salva-vidas até o mesmo posto, mancando, apoiado no ombro de um deles. Na enfermaria improvisada, atrás de uma cortina de lona, um socorrista examinou o tornozelo dele.

— Entorse, não tem fratura — disse o rapaz, apertando o tornozelo em pontos diferentes. — Vai inchar bastante, precisa de gelo e de uma bota ortopédica por uns dez dias. Melhor passar num pronto-socorro hoje mesmo pra confirmar com raio-x.

Rafael balançou a cabeça, concordando, os olhos ainda fixos no filho, que já estava sentado no colo de Camila, enrolado numa toalha, bebendo água de coco de novo como se nada tivesse acontecido.

— Eu não consegui chegar nele — disse Rafael, baixinho, mais pra si mesmo.

Camila se aproximou, segurando o braço dele.

— Você correu. Caiu correndo atrás dele. Isso conta.

— Conta pra quê, Camila? Se não fosse o Diego…

— Mas foi o Diego. E ele tava lá. É pra isso que existe posto de salvamento, Rafael. Você fez sua parte.

Naquela mesma noite, no pronto-socorro de Itacaré, o raio-x confirmou: entorse grau dois, sem fratura. Custou duzentos e oitenta reais a consulta particular, porque o plano de saúde deles só tinha cobertura em Salvador. Rafael saiu de lá com a bota ortopédica e dois comprimidos de anti-inflamatório, mancando até o carro.

No dia seguinte, ainda com o pé elevado numa cadeira na varanda da pousada, Rafael pegou o celular e fez duas coisas.

A primeira: procurou no Google "escolinha de natação infantil Itacaré" e ligou para a única que tinha aulas para crianças a partir de dois anos — cento e oitenta reais por mês, duas vezes por semana, numa piscina de um clube a quinze minutos da pousada. Marcou a matrícula de Théo pro mês seguinte, assim que voltassem pra Salvador, onde moravam.

A segunda: entrou no site de uma loja de artigos esportivos e comprou um colete salva-vidas infantil, tamanho P, por noventa reais, com entrega marcada direto pra casa deles em Salvador.

— Pra que isso agora? — perguntou Camila, sentando ao lado dele na varanda, vendo a tela do celular.

— Pra ele nunca mais entrar na água sem saber nadar. E sem colete, até aprender direito.

— Rafael, ele tem dois anos.

— Por isso mesmo. — Ele guardou o celular no bolso e olhou pro mar, que de longe parecia o mesmo mar de sempre, calmo, com crianças brincando na beira. — Eu não vou conseguir correr mais rápido que uma onda. Mas posso fazer com que ele não precise que eu corra.

Théo passou correndo pela varanda atrás de um cachorro vira-lata da pousada, gritando de alegria, o tornozelo do pai esquecido, o susto do dia anterior já apagado da cabeça dele como areia levada pela maré. Camila ficou olhando o filho correr, e depois olhou pro marido, de bota ortopédica, com o celular ainda morno na mão, a matrícula da escolinha já confirmada por mensagem.

— Dezoito segundos — disse ela, baixinho.

— Como?

— Foi o tempo. Eu contei depois, reconstruindo na cabeça. Do momento que ele largou o balde até o Diego pegar ele. Dezoito segundos.

Rafael não respondeu nada. Só esticou a mão e segurou a dela, os dois olhando o filho correr atrás do cachorro, o mar logo ali, do outro lado da rua de terra batida, esperando a próxima visita — dessa vez, com colete e aula marcada.

Rate article
Dezoito segundos na praia da Concha, em Itacaré