Foi Patrícia quem insistiu no vestido vermelho — não, foi o maiô. Lúcia, setenta e quatro anos, viúva havia três do dono da floricultura da Rua Felipe Schmidt, no Centro de Florianópolis, vestia-se desde então como quem só pega ônibus: cinza, bege, nada que chamasse atenção. Naquele dia, em Canasvieiras, a filha Patrícia tinha enfiado um pacote nas mãos dela, na varanda do camping.
— Toma, mãe. Experimenta antes de dizer não.
Um maiô inteiro, azul-pavão, com estampa de flores amarelas. Lúcia riu, protestou, e mesmo assim vestiu no trocador de madeira que cheirava a sal e protetor solar. Na praia, um turista alemão montado atrás de um tripé pediu licença para fotografá-la — a luz das sete da noite, disse ele, caía sobre ela "como numa pintura". O resultado era bonito, e não só bonito: Lúcia aparecia rindo, a cabeça jogada para trás, os pés na espuma, e pela primeira vez em muito tempo ela se reconheceu no próprio retrato.
Postou a foto naquela mesma noite, sentada no banco do camping, com uma legenda simples: "Quarenta e sete anos com o mesmo homem e ele ainda me faz rir como aos vinte."
No dia seguinte, tomando café debaixo da lona do toldo, abriu o Facebook e encontrou o comentário da nora, Fernanda, postado com o nome verdadeiro, visível para todos os amigos em comum: "Sinceramente constrangedor na sua idade. Ninguém precisa ver esse corpo exposto na internet." Lúcia releu a frase três vezes, como se ela fosse mudar de sentido na próxima leitura. Fernanda apagou o comentário uma hora depois — tarde demais, Lúcia já tinha tirado um print, por reflexo, sem saber bem por quê.
A ligação veio ao meio-dia. Fernanda, com a voz seca, cortante como salto batendo em piso de cerâmica: "Você não vai mais ver o Lucas e a Mariana enquanto continuar publicando esse tipo de coisa. Não é uma questão de discussão." Desligou sem dar tempo de resposta.
Lúcia não chorou — pelo menos não na frente de ninguém. Guardou o maiô na gaveta, fechou o notebook, e na manhã seguinte passou batom, enfiou o print impresso na bolsa de couro marrom, a que guardava para casamentos, e pegou o ônibus até a casa do filho, Rodrigo, em São José.
Rodrigo trabalhava naquele dia — técnico da Celesc, terça-feira ele sempre saía tarde — mas voltou por volta das sete da noite, cansado, a camisa ainda marcada de suor. A mãe o esperava na cozinha, uma folha impressa sobre a mesa ao lado da cafeteira que apitava baixinho. Ele leu. Releu. Depois pousou a folha, passou a mão pelo rosto, e não encontrou nada para dizer além de: "Mãe, me desculpa. De verdade." Não defendeu a esposa. Isso Lúcia nunca esqueceu.
Podia ter exigido desculpas públicas, um post apagado substituído por outro, uma cena. Pediu outra coisa: um almoço de domingo, na casa dela, com toda a família, Fernanda incluída. Não um julgamento. Uma refeição.
No domingo, Lucas — onze anos — e Mariana — oito — encontraram no armário da sala a velha lata de biscoitos que servia de caixa de fotos desde sempre, aquela com um gato pintado e a tampa meio amassada. Esvaziaram tudo sobre a mesa rindo, puxando as fotos amareladas: o avô de camiseta listrada numa bicicleta, os pais no casamento com cortes de cabelo improváveis, Lúcia jovem numa bicicleta dupla em Laguna. Ninguém tinha reparado que ela havia deslizado, entre duas fotos antigas, a cópia do maiô azul-pavão — aquele mesmo. Mariana deu de cara com ela por acaso.
— Essa é minha preferida — disse alto, sem pensar muito. Olha como o vovô olha pra você. Parece que ele ainda te ama como no começo.
Caiu um silêncio sobre a mesa, diferente dos outros silêncios do dia — não constrangido, só cheio. Fernanda pegou a foto entre dois dedos, ficou observando por um tempo, e a cor do rosto mudou. Lembrou, souberam depois, do comentário que tinha feito duas semanas antes para Mariana, na frente do espelho do banheiro — "você devia prestar atenção no que come, filha" — uma frase dita sem muito peso na hora, e que de repente ganhava outro tamanho.
Não disse nada naquele domingo. Foi embora cedo, com a desculpa de que Mariana tinha natação no dia seguinte.
Uma semana depois, numa terça à noite, voltou sozinha, sem avisar, com um álbum de fotos novo debaixo do braço — capa de couro sintético bordô, ainda com a etiqueta da papelaria Betel, em São José, colada embaixo. Lúcia abriu a porta de avental, um cheiro de gratinado de abobrinha saindo atrás dela. Fernanda não falou muito. Pousou o álbum na mesa, abriu na primeira página: a foto do maiô azul, ampliada, e embaixo, escrito à mão, meio trêmulo: "Uma família se olha com amor, nunca com julgamento. Me perdoa, dona Lúcia."
Lúcia fechou o álbum, apertou contra o peito por um segundo, depois abriu de novo sobre a mesa da cozinha.
— Ainda tem quarenta e oito páginas vazias — disse. — Vamos preencher juntas, se você quiser.
Fernanda fez que sim com a cabeça, sentou-se, e pegou o celular para procurar outras fotos para imprimir.
Seis meses depois, arrumando o sótão antes do inverno, Rodrigo encontrou o rascunho manuscrito do comentário que Fernanda tinha digitado naquela manhã — ela tinha escrito primeiro à mão num caderno velho, como quem treina, antes de copiar para o Facebook. No verso da folha, outra frase, nunca enviada, nunca dita em voz alta: "Tenho medo de acabar assim, invisível." Rodrigo nunca contou isso à mãe. Só guardou a folha dentro do álbum bordô, entre duas páginas ainda em branco.
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