Doze anos levando Rogério à escola: na matrícula da URCA foi ele quem me levou pelo braço

Eu tinha sessenta e oito anos e as mãos cheias de calo de pilão quando entendi que ia virar mãe de novo, sem ter pedido e sem reclamar. Foi assim: Marcos e Vera, meu filho e minha nora, arrumaram as malas numa sexta-feira de agosto e foram pra Lisboa trabalhar na construção e num asilo, porque aqui em Juazeiro do Norte a obra tinha parado e o salário de professora de Vera não pagava nem o aluguel. Rogério tinha seis anos. Disseram que era por "uns meses". Virou um ano. Depois mais um. E ninguém nunca chamou aquilo pelo nome certo, mas eu sabia: eu tinha virado a mãe dele de novo, trinta anos depois de ter criado o pai.

Eu que acordava ele. Eu que fazia o café com leite e passava manteiga na broa antes da escola. Eu que esperava na calçada, de chinelo, quando ele saía às onze e meia da manhã. Eu que lavava o uniforme à noite e pendurava atrás do fogão a lenha pra secar até de manhã, porque chuva em dezembro não respeita ninguém.

No primeiro dia dele na escola, ele chorou o caminho inteiro.

— Vó, eu não quero.

— Por quê, meu filho?

— Eu não conheço ninguém lá.

Segurei a mão dele até o portão. E assim foi, setembro depois de setembro: eu vestia a roupa boa, aquela blusa vinho que eu guardava pra casamento e aniversário de santo, e levava o menino até a entrada. Quando pequeno, ele não largava minha mão. Depois de adolescente, começou a andar três passos na minha frente.

— Vó, eu já sei ir sozinho.

— Eu sei, meu filho.

Mas eu ia do mesmo jeito. Não porque ele precisasse. Porque aquilo era a minha alegria: ver ele entrar pelo portão.

Rogério não foi o primeiro da turma em matemática nem aquele que os professores apontavam dizendo "esse vai longe". Mas era aplicado. Quando não entendia a lição, eu dizia sempre a mesma frase, que aprendi com minha própria mãe:

— Tenta de novo, meu bem. Quem não sabe não perde nada. Quem perde é quem desiste de tentar.

Eu só tinha o primário completo. Às vezes nem conseguia explicar a conta pra ele. Mas ficava do lado.

— Essa matemática de vocês hoje em dia eu não entendo nada, mas fico aqui até você terminar.

E ficava. Com o ventilador ligado, os mosquitos zunindo, e eu cochilando na cadeira de palha enquanto ele riscava o caderno.

No último ano do ensino médio, quando ele me disse que ia prestar vestibular pra Engenharia Civil na URCA, eu fiquei um tempo calada.

— Que foi, vó?

— Nada não.

— Fala.

Limpei o canto do olho com a ponta do avental.

— Eu tava pensando que eu nunca tive essa sorte de estudar. E agora você vai virar universitário.

No dia que saiu o resultado e ele viu o nome dele na lista de aprovados, o primeiro grito dele não foi pra mãe nem pra pai, que tavam a quatro mil quilômetros de distância numa ligação de vídeo que travava toda hora.

— VÓ!

Eu saí correndo da cozinha, achando que tinha acontecido alguma desgraça.

— Que foi, meu filho?

— A senhora criou um universitário!

Eu chorei feito boba. Ele me abraçou.

— Você que estudou, Rogério.

— Eu estudei. Mas foi a senhora que fez eu poder estudar.

Chegou a manhã da matrícula. Eu vesti a saia preta, o cardigã vinho de sempre e amarrei o lenço bom debaixo do queixo. Quando saí do quarto, Rogério já tava de camisa branca, esperando, com a mochila do lado da porta.

— Que homem você virou, menino.

Ele estendeu o braço.

— Vamos?

— Rogério, eu vou mesmo com você?

— Vou.

— Mas lá só vai ter gente jovem.

— E daí?

— Alguém pode rir, dizer que você levou a vovó.

Ele parou. Olhou pra mim uns segundos.

— Vó, se alguém rir porque eu levei a mulher que me criou, o problema não é meu.

Baixei a cabeça.

— Vai, que você me faz chorar e estraga o lenço.

Pegamos o ônibus da Guanabara até o centro, aquele que custa quatro reais e cinquenta e sempre tá lotado de gente indo pra feira. Descemos perto do mercado, com cheiro de rapadura e café passado na hora, e subimos a pé até a URCA. O pátio da universidade tava cheio. Estudante tirando foto com os pais, colega apresentando colega, um rapaz de boné gritando o nome de alguém do outro lado do estacionamento.

Fiquei devagar nos últimos degraus.

— Pronto, meu filho. Pode ir. Eu espero aqui.

Ele segurou meu braço mais firme.

— Não.

— Como não?

— Na primeira série você me levou até o portão. Hoje a gente entra junto.

Subimos devagar. Um colega dele se aproximou perto da secretaria.

— E aí, Rogério! Quem é a senhora?

Ele nem hesitou.

— Minha avó. — E sorriu. — Ela é o motivo de eu tá aqui.

Baixei os olhos, tentando esconder que já tava chorando de novo.

Na fila da secretaria, veio a parte que eu tinha guardado pra mim, sem contar pra ninguém, nem pra ele. Fazia dois anos que eu vendia tapioca e beiju na feira de sábado, dois reais a unidade, pra juntar o dinheiro da primeira mensalidade da faculdade particular, caso ele não conseguisse vaga na gratuita. Guardava tudo numa lata de leite Ninho velha, escrito a caneta na tampa: "Faculdade de Rogério". Juntei cento e oitenta reais por mês, durante vinte e quatro meses. Quando ele passou na URCA, que é federal e não cobra mensalidade, pensei em usar aquele dinheiro pra outra coisa. Mas não. Levei a lata do mesmo jeito, dentro da bolsa, enrolada num pano de prato.

Na hora de assinar os papéis da matrícula, a moça da secretaria falou do material de desenho técnico que ele ia precisar comprar, prancheta, régua T, esquadro, umas trezentas e sessenta reais. Abri a bolsa ali mesmo, na frente dele, e tirei a lata.

— Vó, o que é isso?

— O que eu juntei pra você, meu filho. Pode usar.

Ele ficou olhando a lata, os quatro mil e trezentos e vinte reais enrolados em elástico, as moedas que ainda tavam dentro fazendo barulho.

— Vó, eu não vou pegar isso.

— Vai sim. Esse dinheiro nunca foi meu. Foi feito pra você desde o primeiro dia que eu comecei a vender tapioca.

Ele não discutiu mais. Guardou a lata na mochila, do lado dos cadernos novos.

Antes de entrar na sala de aula, tiramos uma foto na escadaria da URCA. Ele de camisa branca, mochila nas costas. Eu, pequena do lado dele, de lenço amarrado e a mão presa no braço do neto que eu tinha criado.

Rogério guarda essa foto até hoje, num porta-retrato de plástico em cima da escrivaninha, do lado dos livros de cálculo. Porque naquela foto não tava só o primeiro dia de faculdade dele. Tavam as madrugadas em que eu acordava pra fazer o café. O lanche embrulhado em saco de pão. A roupa secando atrás do fogão. As moedas contadas devagar pra sobrar pro caderno. As noites em que eu não entendia a lição, mas ficava do lado até ele terminar. E todos aqueles setembros em que uma mão de velha segurou firme a mão dele até o portão da escola.

Naquele dia os papéis se inverteram. Eu não levei mais o neto pela mão. Foi ele que me levou pelo braço, pra eu ver com os próprios olhos até onde tinha chegado o menino que eu criei.

Hoje a lata de Ninho tá vazia, guardada numa prateleira da cozinha, do lado do pote de açúcar. De vez em quando eu pego ela, balanço, escuto o barulho oco, e lembro do peso que ela tinha quando ainda guardava as moedas de dois reais da tapioca.

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Doze anos levando Rogério à escola: na matrícula da URCA foi ele quem me levou pelo braço