Moro no mesmo prédio dela há vinte anos, lá no bairro Floresta, em Belo Horizonte. Edifício Girassol, sem elevador, três andares de escada que em dia de chuva vira um tobogã. Me chamo Osvaldo Pereira, sou aposentado dos Correios, e todo santo dia, às sete da manhã, desço com a Bolinha, minha vira-lata caramelo, para o giro de sempre: até a padaria da esquina, meia dúzia de pães, volta. Conto isso porque foi nesse horário que comecei a reparar nela.
Dona Neuza mora no terceiro andar. Sessenta e quatro anos, bengala há uns três, fila do SUS para cirurgia de quadril que não anda – ela mesma reclamou isso pra mim um dia, na escada, enquanto eu segurava a porta. O filho dela, Rogério, mora em Savassi, três paradas de ônibus dali, com a esposa Juliana e um gato preto e branco chamado Café.
Num sábado de julho vi Dona Neuza descer com a bengala numa mão e uma sacola de ração na outra. Perguntei se precisava de ajuda. Ela disse que não, que ia só até a parada do 5901, visitar o gato dos filhos, que eles tinham viajado para Jericoacoara. Catorze dias, ela falou, contando nos dedos como quem reza um terço.
No dia seguinte vi de novo. E no outro. Toda manhã, lá ia ela, bengala, sacola, o relógio da padaria marcando sete e dez quando ela já estava na calçada esperando o ônibus. Reparei que no quinto dia ela estava mais pálida que o normal – e olha que eu não sou de reparar muito na vida dos outros, tenho a minha própria agenda de aposentado, que também é cheia: feira na terça, bingo na quinta, Bolinha sempre primeiro.
Um dia ela voltou mancando mais do que de costume e sentou na escada do prédio, no primeiro degrau, com a sacola de ração ainda no colo. Fiquei parado com a Bolinha puxando a guia, querendo entrar, e perguntei se estava tudo bem. Ela disse que sim, que era só o joelho, que ia passar. Fiquei ali mais um minuto, sem saber se perguntava mais alguma coisa ou se seguia pro elevador – digo, pra escada, porque elevador esse prédio nunca teve.
No décimo quarto dia os dois voltaram bronzeados. Vi Rogério descendo do táxi com as malas, rindo, a Juliana de chinelo novo tirando foto da fachada do prédio. Dona Neuza estava na calçada, tinha ido receber eles – não sei se por vontade ou por hábito. Rogério tirou da mochila um imã de geladeira, branco, com uma jangada azul pintada e a palavra "Jericoacoara" em letra dourada, e entregou pra ela ali mesmo, na rua, igualzinho quem dá biscoito pro cachorro depois do passeio.
Ela agradeceu, guardou na bolsa junto com os remédios. Ninguém perguntou como tinham sido aqueles catorze dias pra ela. Eu estava ali do lado, com a Bolinha cheirando o poste, e não falei nada – não é da minha conta, pensei. Mas aquilo ficou na cabeça.
Semanas depois, numa tarde de domingo, ela me chamou pra um café lá em casa – dela, quer dizer, no apartamento 302. Foi aí que soube de mais detalhes: da lista escrita pela nora, com letrinhas redondas e bolinha em vez de pingo no "i"; das orquídeas que precisavam de água a cada dois dias; da caixa de areia do gato que tinha que limpar todo dia. Ela contou rindo, meio sem graça, como se tivesse vergonha de ter achado tudo aquilo pesado. Falou do imã pendurado na geladeira, do lado de um de Zakopane que já nem lembro de onde ela tinha dito que era, e de outro, de Cabo Frio, do marido que já morreu.
Não falei muita coisa. Só tomei o café, que estava bom, com um bolo de fubá que ela mesma tinha feito.
O que me chamou atenção mesmo foi o que aconteceu três meses depois.
Era outubro, uma quinta-feira, eu tinha acabado de voltar da padaria quando vi Rogério chegando no prédio com uma mochila nas costas e um papel na mão. Reconheci o jeito – era igual ao da outra vez. Fiquei parado no hall fingindo procurar a chave da caixa de correio, porque confesso que fiquei curioso.
– Mãe, a gente vai pra Jeri de novo, semana que vem. Trouxe a listinha, igual da última vez – disse ele, estendendo o papel.
Dona Neuza não pegou. Ficou com a bengala apoiada no corrimão e tirou o celular do bolso do casaco.
– Rogério, eu já contratei uma pessoa. Chama-se Patinhas Felizes, é um serviço de pet sitter aqui do bairro. A moça vem todo dia, cuida do Café, rega as plantas, tudo. Oitocentos reais pelos quinze dias que vocês vão ficar fora.
Ele ficou com o papel na mão, meio parado.
– Mas, mãe, você sempre fez isso, não precisa gastar…
– Eu sei que sempre fiz. Por isso mesmo. Agora quem vai e volta de ônibus com bengala três vezes por semana é a Camila, que tem vinte e dois anos e trabalha com isso. Vocês combinam o pagamento direto com ela, pelo aplicativo.
Ele ainda tentou argumentar mais um pouco, falou qualquer coisa sobre "não precisava", mas ela já estava guardando o celular na bolsa, que fechou com aquele barulho seco de zíper que ecoou no hall vazio. Entrou no elevador – ih, desculpa, de novo não tem elevador, entrou na escada e subiu devagar, sem pressa, enquanto o filho ficava ali embaixo com a listinha da Juliana ainda na mão, sem saber bem o que fazer com o papel.
Na semana seguinte, no dia em que eles viajaram, vi uma moça de moletom chegar no prédio com uma mochila de tecido e um molho de chaves novo, feito na chaveiro da esquina. Toquei o interfone dela sem querer, por engano, quando ia visitar a Dona Neuza, e ela se apresentou pelo nome: Camila, do Patinhas Felizes, vinha alimentar o gato do terceiro… quer dizer, do apartamento em Savassi.
Dona Neuza, quando a encontrei na escada naquele mesmo dia, não falou nada sobre o assunto. Só comentou que o quadril estava doendo menos, que tinha finalmente saído a data da cirurgia pelo SUS, pro mês seguinte. E que ia fazer uma torta de limão pro aniversário do Rogério, que caía bem no meio da viagem – ia deixar congelada, pronta pra quando eles voltassem.
Não perguntei sobre o imã novo que com certeza iam trazer. Não precisava. Já sabia que ia entrar pela porta, ia ser pendurado na geladeira do lado dos outros, e que dessa vez ninguém ia ficar devendo nada a ninguém – porque, pelo que entendi, dessa vez quem pagou a conta não foi o joelho dela.
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