A neblina desce cedo em Itaipava, por volta das cinco da tarde, e cobre a Pousada Vale do Imbuí feito um lençol frio. Dona Marlene Vasconcelos, 64 anos, sempre gostou desse horário. Era quando ela sentava na varanda com uma caneca de chá-mate, ouvia os sabiás na mangueira e deixava Tobias — um vira-lata caramelo, magro, que ela recolheu na beira da Estrada União e Indústria há três anos — se enroscar nos seus pés.
Foi exatamente nesse horário, numa terça de junho, que ela viu o genro saindo do canil com uma caixa de transporte vazia nas mãos.
— Rogério. Cadê o Tobias?
— Chamei um sujeito da proteção animal, dona Marlene. Ele vai levar pra um abrigo em Petrópolis. Tem gente que acha ótimo, animal de rua adotado por outro lar.
Ela ficou parada segurando a caneca. O vapor do mate subia e se desfazia no ar úmido da serra.
— Ninguém me perguntou nada.
— A senhora ia dizer não. E a reforma não espera. A rede de hotéis que vai avaliar a pousada mês que vem não aceita bicho solto no pátio. Eu só tô protegendo o nosso investimento.
Nosso. Essa palavra tinha oito anos de uso torto.
Marlene havia enviuvado aos 58, quando o marido, Nestor, morreu de um infarto consertando a calha do telhado da pousada que os dois construíram com as próprias mãos, quarto por quarto, durante vinte e dois anos. Foi um período em que ela mal conseguia abrir os olhos de manhã sem sentir o peso de administrar sozinha seis quartos, duas diárias de café da manhã e um financiamento ainda em aberto. Foi quando Patrícia, a filha, trouxe o marido Rogério como solução: ele entendia de "gestão", tinha curso de administração, ia cuidar da parte financeira enquanto ela cuidava da hospitalidade.
Em 2021, um advogado indicado por Rogério redigiu um contrato social. Marlene assinou sem ler linha por linha — estava exausta, vendendo compota de goiaba no fim de semana pra fechar o caixa do mês. Trinta e cinco por cento da pousada passaram pro nome do genro. "É só formalidade, pra facilitar empréstimo no banco", ele disse. A pousada, hoje avaliada em 460 mil reais pelo próprio corretor que Rogério trouxe, virou, aos poucos, menos dela.
Primeiro foram os cardápios do café da manhã, que ele "enxugou" porque pão de queijo artesanal "não compensa o custo". Depois foi a reforma dos banheiros, decidida sem consultá-la. Depois vieram as hóspedes que reclamavam — "muito cão pra ficar circulando" — e Rogério sempre concordava com elas antes de perguntar a opinião da sogra.
Ela engoliu cada coisa. Até aquela terça.
— Me dá esse telefone — ela falou, e a voz saiu mais firme do que ela esperava.
— Que telefone?
— Do homem que vai levar o Tobias.
Rogério hesitou, procurou no celular, passou o número meio sem jeito. Marlene ligou ali mesmo, parada na varanda com a neblina já subindo pelas pernas das mesas de ferro. O rapaz disse que ainda estava chegando, vinha de moto desde o bairro Pedro do Rio. Ela pediu pra ele não vir. Desligou. Levou Tobias de volta pra dentro de casa, deixou ele deitado no tapete xadrez da sala, perto do rádio ligado numa rádio de Petrópolis que tocava modão baixinho.
Naquela noite ela não dormiu. Ficou na cadeira de balanço repassando, um a um, os últimos oito anos: o dia em que vendeu o Fusca azul do Nestor porque Rogério disse que o dinheiro "rendia mais" investido na reforma da piscina — reforma que nunca ficou pronta. O dia em que ela pediu pra colocar uma faixa de desconto pra idosos aposentados e ele cortou a ideia dizendo que "margem é tudo". O dia, mais recente, em que ele comentou, rindo, que ela "já tinha idade pra sossegar e deixar a parte pesada" com ele.
Às seis da manhã ela tomou a decisão que vinha adiando desde o enterro do marido.
Pegou o ônibus 302 pra Petrópolis, sentou do lado da janela embaçada, Tobias deitado no colo dela apesar do motorista reclamar. Foi direto pro escritório do doutor Amaro Teles, advogado que cuidou do inventário de Nestor e que ela nunca mais tinha procurado, com vergonha de incomodar.
— Dona Marlene, a senhora tem dois caminhos. Ou aciona judicialmente alegando administração danosa, o que demora, ou negocia a saída dele por acordo, devolvendo o capital que ele de fato investiu, que pelos registros foi pouco mais de 40 mil reais. A pousada vale muito mais que isso hoje.
— Quero que ele saia até sexta.
Na sexta, Rogério chegou na pousada pras onze da manhã, sem avisar, do jeito que sempre fazia, como se o lugar fosse só uma extensão da sala dele. Encontrou Marlene na recepção, com uma pasta azul aberta em cima do balcão de madeira de peroba, ao lado do livro de hóspedes. Tobias estava deitado embaixo da mesa, com a corrente da coleira batendo de leve no piso toda vez que balançava o rabo.
— Que pasta é essa?
— Distrato social. O doutor Amaro já protocolou na Junta Comercial a alteração contratual. Devolvo os 40 mil que você e a Patrícia colocaram em 2021, com correção. A partir de hoje a pousada volta a ser 100% minha, como era antes.
— A senhora não pode fazer isso sem conversar comigo.
— Pude, sim. Assinei na quarta.
— E o acordo com a rede de hotéis? Eu que tava negociando.
— Cancelei. Não quero vender nada. Quero continuar fazendo pão de queijo de manhã e deixar o Tobias dormir na sala.
Ele ficou olhando pro cachorro, depois pra ela, a boca entreaberta buscando algum argumento que não chegava. Patrícia, que tinha ficado esperando no carro, desceu e entrou pela porta de vidro justo nessa hora, viu o marido parado sem jeito segurando a caixa de transporte vazia que ainda estava no porta-malas do carro deles, e não disse nada — só pegou a pasta da mão da mãe e leu em diagonal, devagar, até encontrar a assinatura dela própria, Patrícia, concordando com a devolução.
— Você tinha dito que ia só ajudar, Rogério. — foi tudo que ela falou, baixinho, sem olhar pro marido.
Rogério saiu sem se despedir, carregando a caixa vazia, o carro deles derrapando um pouco na saibro molhado da entrada.
Marlene ficou ali, atrás do balcão, com a mão apoiada na pasta azul. Lá fora a neblina já estava baixando de novo, mais cedo que de costume por causa da chuva fina que caía sobre os pinheiros do jardim. Ela abriu a gaveta do balcão, tirou um caderninho de capa dura — o mesmo onde ela e Nestor anotavam reservas há mais de vinte anos — e escreveu, com a letra redonda de sempre: "Hoje reabri a pousada. Café da manhã volta a ter pão de queijo. Tobias dorme dentro de casa."
Fechou o caderno, serviu mais um dedo de chá-mate, e ficou ali, na varanda, enquanto Tobias lambia a água da chuva que escorria pelo corrimão de madeira.
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