O Noivo Sabia de Tudo

Dona Neusa só queria dar uma última olhada na noiva. Um gesto bobo, sentimental, daqueles que a gente faz antes de uma cerimônia importante. Ajeitar a grinalda, dar um abraço, desejar sorte. Bobagem de sogra coruja.

A fazenda estava um brinco. Trezentas cadeiras forradas de linho cru, flores do campo em jarros de barro, um altar montado debaixo da jabuticabeira centenária. O sol de Minas Gerais caía dourado sobre tudo, aquele sol de fim de tarde que deixa qualquer coisa com cara de filme.

Ela atravessou o jardim, contornou a piscina coberta com tábuas de madeira que serviam de pista de dança, e foi até a casa de hóspedes onde Bianca estava se arrumando. A porta dos fundos estava entreaberta.

Uma risada escapou por aquela fresta.

Risada gostosa, íntima. Daquelas que a gente solta quando está completamente à vontade com alguém.

Neusa ia bater, mas a mão parou no ar. Aquela risada… Conhecia. Conhecia bem demais.

Empurrou a porta devagar, só um palmo. O suficiente.

Bianca estava de costas, o vestido azul-claro ainda desabotoado, o cabelo castanho solto sobre os ombros. E na frente dela, com as mãos na cintura da moça como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo…

Seu Armando.

Marido de Neusa. Pai do noivo.

Os dois estavam lá, colados, numa intimidade que não deixava margem pra dúvida nenhuma. Ele sussurrou qualquer coisa no ouvido dela. Bianca riu de novo e deu um tapa de brincadeira no peito dele.

Neusa sentiu o chão fugir. A vista escureceu nas bordas. Levou a mão à boca e um som saiu — um gemido baixo, engasgado, que nem de bicho ferido.

Recuou. As pernas bambas. O coração martelando tão forte que parecia que ia saltar pela garganta.

Não pensou. Só agiu.

Atravessou o jardim tropeçando nos próprios sapatos de salto, esbarrou num garçom que carregava uma bandeja de espumante, derrubou duas taças, nem parou pra pedir desculpas.

Precisava encontrar o filho.

Pedro estava nos fundos do salão principal, sozinho, encostado numa coluna de madeira, vendo o povo chegar. Terno de linho creme, gravata borboleta azul-marinho, uma rosa branca na lapela. Tranquilo. Calmo até demais pra um homem que estava a quarenta minutos de se casar.

Ela agarrou o braço dele.

— Pedro. Pedro, pelo amor de Deus.

— Calma, mãe. Que foi?

A voz de Neusa saiu esganiçada, esbarrando nas paredes do corredor:

— Você tem que parar com isso. Agora. Seu pai… Seu pai está na casa de hóspedes com a Bianca. Os dois… Eu vi. Eu vi com esses olhos.

Jogou as palavras de uma vez, atropeladas, sem filtro nenhum.

Esperou o choque. A raiva. A negação. Qualquer coisa.

Pedro ficou olhando pra ela uns dez segundos. Depois desviou o olhar pros convidados que chegavam, um bando de gente rindo, as mulheres com chapéu, os homens abanando o calor com o convite do casamento.

E aí ele disse.

Muito baixo. Muito calmo.

— Eu já sei.

Neusa piscou.

— O quê?

— Eu sei, mãe. Sei de tudo.

Ela soltou o braço dele como se tivesse levado um choque. Aquele corredor de repente ficou gelado, apesar do calor de janeiro.

— Você… Sabe?

Pedro virou o rosto. Tinha uma expressão que Neusa nunca tinha visto na vida. Não era tristeza. Não era raiva. Era uma satisfação quieta, calculada, que dava medo.

— Sei — repetiu ele.

— Então acaba com isso. Desmancha essa cerimônia agora.

— Não posso.

— Como assim não pode? Pedro, aquele homem, seu próprio pai…

— Mãe — ele cortou, e a voz dele saiu dura como Neusa nunca tinha ouvido. — A senhora não tá entendendo.

Ela ficou muda. Porque quem estava na frente dela não era o menino que ela criou. Era outra pessoa. Alguém que estava esperando aquele momento. Alguém que tinha planejado cada segundo.

Pedro ajeitou a rosa na lapela. Passou a mão no cabelo. Olhou pra mãe com uma calma que gelava a espinha.

— Esse casamento nunca foi pra terminar nos votos.

Neusa sentiu um arrepio subir pela nuca.

— O que você vai fazer, Pedro?

Mas ele já estava andando. Passos firmes. Em direção ao altar.

Os convidados já estavam sentados. A música começou — um quarteto de cordas que a própria Neusa tinha escolhido. Ela foi arrastada por uma tia de Bianca até a primeira fileira, do lado da família do noivo. Seu Armando já estava lá, ajeitado, sorridente, como se não tivesse acabado de sair dos braços da futura nora.

Neusa sentou ao lado dele. Ele passou a mão no joelho dela. Ela travou inteira.

A cerimônia começou.

Bianca entrou. Linda, radiante, o vestido azul-claro agora abotoado, o buquê de margaridas nas mãos. O pai dela conduzindo pelo braço. Os convidados suspirando. Neusa sentindo o estômago revirar.

A noiva chegou ao altar. Pedro estendeu a mão. Eles se posicionaram na frente do juiz de paz.

E então, antes que o homem pudesse abrir a boca, Pedro ergueu a mão pedindo silêncio.

— Um momento, por favor.

A música parou. Os convidados se entreolharam. Bianca franziu a testa.

Pedro virou-se para os convidados.

— Antes de seguir, eu gostaria de esclarecer uma coisa. Uma situação que me foi apresentada há seis meses e que eu demorei pra ter certeza de que era verdade.

Bianca empalideceu.

— Pedro, do que você tá falando?

— Estou falando de você e do meu pai.

Um homem de terno escuro se levantou da última fileira. Carlos, o investigador particular que Pedro tinha contratado. Ele caminhou até o altar e entregou uma pasta a Pedro.

— Tenho registros, extratos, testemunhas e datas — disse Carlos, em voz alta o bastante para que todos ouvissem. — Seis meses de provas documentadas.

Pedro abriu a pasta e mostrou algumas folhas, sem exibir detalhes.

— Não preciso de slideshow — disse, contido. — Quem quiser conferir, está aqui. O resumo é que meu pai e minha noiva tinham um plano. Se casar comigo, esperar um ano, pedir divórcio e levar metade do que conseguissem. Só que eles erraram em duas coisas.

Respirou.

— A primeira: o regime não seria o de comunhão parcial de bens. Meu pai convenceu a Bianca de que eu aceitaria comunhão universal — pra uma suposta “prova de amor”. E segunda: a fazenda já não estava mais no nome dele. Ele tinha perdido a posse meses atrás por conta de dívidas antigas e uma procuração que eu e minha mãe conseguimos reaver judicialmente. O advogado cuidou disso. Meu pai armou um golpe achando que o patrimônio ainda era dele. Mas vocês estavam dando um golpe no vento.

Seu Armando levantou de um salto.

— Mentira! Essa fazenda é minha!

— Era — disse Pedro. — Até você assinar os papéis que permitiram a transferência pro meu nome, quando achou que estava abrindo uma conta conjunta. O seu investigador não era tão bom quanto o meu.

Armando ficou lívido. Bianca começou a chorar.

— Ele me prometeu que eu ia sair dessa com dinheiro — soluçou ela, revelando a motivação pela primeira vez. — Eu tava atolada em dívidas, Pedro. Eu realmente… eu nem queria…

— Agora eu sei — disse Pedro.

O pai de Bianca levantou-se, o rosto vermelho, e levou a filha dali. Ela foi tropeçando, o vestido arrastando na grama, o choro engolido pelo silêncio pesado que tomou conta da cerimônia.

Pedro fez um sinal discreto. Dois seguranças apareceram e conduziram Armando para fora da propriedade. Ele esperneou, gritou, mas ninguém interferiu.

Os convidados foram saindo. Uns com vergonha, outros indignados, outros com aquele brilho no olhar de quem acabou de ver a fofoca do século.

Quando o jardim esvaziou, Pedro se sentou num dos bancos da cerimônia. Afrouxou a gravata. Suspirou.

Neusa sentou ao lado dele.

— Filho… você fez tudo isso sozinho?

Ele não respondeu na hora. Ficou olhando pro gramado vazio, pras cadeiras abandonadas, pros jarros de flores que ninguém ia levar.

— Quando eu descobri, mãe, eu não acreditei. Fiquei três dias trancado no quarto. Depois passou. Virou outra coisa.

— O quê?

— Raiva. Fria. Silenciosa. Aí eu contratei o Carlos. E comecei a planejar.

— Mas por que não contou pra mim?

Pedro virou o rosto. Os olhos dele estavam vermelhos. Pela primeira vez naquela noite, Neusa viu dor ali. Dor de verdade.

— Porque eu precisava que a senhora reagisse de verdade. Se a senhora não ficasse em choque, se não fosse autêntico… ele ia desconfiar. A Bianca também. Eles tinham que acreditar que o plano tava dando certo até o último segundo. A senhora foi… essencial.

Neusa ficou em silêncio. Por um lado, sentia orgulho. Por outro, um frio na espinha.

— E se eu não tivesse ido na casa de hóspedes?

Pedro sorriu. Mas era um sorriso sem alegria.

— Eu tinha um plano B. E um C. E um D.

Ele levantou. Estendeu a mão pra mãe.

— A senhora deve tá morrendo de fome. Tem um jantar montado lá dentro. Pro pessoal que ficar. Mas acho que ninguém ficou.

Neusa segurou a mão dele. Levantou.

— E agora?

— Agora a gente come. Amanhã a gente resolve o resto.

Ela apertou os dedos dele.

— Eu não sei se conheço mais você, Pedro.

Ele olhou pra ela. Não respondeu.

Só deu as costas e começou a andar em direção à casa principal, os sapatos afundando na grama molhada do orvalho da noite.

Neusa ficou parada mais um minuto. Olhou pro altar vazio. Pros vestígios de uma cerimônia que nunca devia ter acontecido. Sentiu o cheiro de terra molhada e flores se misturando.

Lá dentro, na cozinha da fazenda, o filho acendeu a luz. Uma luz amarela, morna, solitária.

Ela respirou fundo e foi atrás dele.

No dia seguinte, Seu Armando mandou uma mensagem. Longa, cheia de acusações, ameaças de processo, insultos. Pedro leu na frente do café. Deletou sem responder.

Bianca ligou três vezes. Na quarta, Pedro atendeu.

Só disse uma frase:

— Não me procura mais.

E desligou.

Neusa e Pedro passaram aquela semana na fazenda. Sozinhos. Sem empregados. Sem parentes. Sem ninguém. Ela cozinhava. Ele carpia o mato do pomar. Às vezes conversavam. Às vezes não.

Numa noite, sentados na varanda, vendo o sol cair atrás da serra, Neusa perguntou:

— Você sente falta de alguma coisa?

Pedro demorou pra responder. Bebeu um gole de café. Passou a mão na nuca, num gesto que lembrou Neusa de um tique do avô, que ele nunca conheceu.

— Sinto falta de um tempo que não vai voltar.

Ela não disse nada. Puxou a xícara para perto de si. O café esfriava. O céu foi escurecendo, e as primeiras estrelas apareceram. Um cachorro latiu longe.

A luz amarela da cozinha ficou acesa por muito tempo depois que os dois entraram.

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