Sorte pura em Vila Prudente

O Bruno tinha que voltar pro abrigo na segunda-feira. Eu já tinha combinado tudo com o pessoal do resgate de animais, e mesmo agora, escrevendo isso, sinto aquela pontada de vergonha: eu estava mesmo decidida.

Ele era um gigante de cinquenta e um quilos, com alguma coisa de São Bernardo lá no meio da genealogia — pelagem branca feito neve empilhada num muro, patas do tamanho de uma pá, e um olhar em que sempre parecia esconder algo que não queria dividir comigo. Durante três semanas ele transformou minha casa geminada em Vila Prudente numa sucessão de sustos. Não era daqueles cães que destroem chinelo ou uivam a noite inteira. O Bruno não quebrava nada. Não latia à toa. Ele fazia outra coisa.

Ele fugia.

Um muro de dois metros? Ele achava o ponto onde a terra ficava mais mole depois da chuva e começava a cavar. Antes que eu percebesse, tinha um buraco embaixo da tela, do tamanho exato dos ombros dele. Um portão trancado? Ele aprendeu a empurrar o ferrolho de lado. Sério. Ia até lá, encostava o focinho no metal, puxava, empurrava — e abria como se fizesse aquilo havia anos.

Todo dia que eu ficava trabalhando na prefeitura ele dava um jeito de sair. E todo dia o resgate ligava avisando que tinham pego ele a alguns quarteirões dali: sujo, exausto, às vezes com as patas machucadas, mancando — como se tivesse voltado de uma jornada que ninguém deveria fazer sozinho.

As multas iam se acumulando. Minha aflição também. O pior nem era o dinheiro. O pior era a sensação de que eu estava perdendo o controle.

"Ele não quer ficar aqui," falei uma noite pra minha irmã Karin, sentada na mesa da cozinha, com o rádio baixinho tocando ao fundo e um pedaço de bolo de fubá pela metade entre a gente. "É um daqueles cachorros que sempre dão no pé. Esse cachorro não é meu."

Karin não disse nada. Ficou olhando pro Bruno, deitado no canto — com uma orelha virada pra gente, mas o resto dele em algum lugar bem longe, no mundo dele.

"Talvez," ela falou, com cuidado, "ele só esteja procurando alguma coisa."

Na hora eu dei de ombros pra isso. Quando a gente tá exausto, tudo parece simples: ou o cachorro é seu, ou não é. Ou ele é grato, ou é um problema. Eu estava cansada demais pra pensar direito.

Mas ontem foi sábado. E eu estava em casa.

Dessa vez eu fui atrás dele.

Às dez da manhã o Bruno começou a andar de um lado pro outro no corredor, feito alguém estivesse atrás dele. Parou na porta da frente, ganiu, arranhou a madeira com a pata, virou pra mim e olhou como se quisesse dizer: vem. Agora. Tem que ser.

Eu fiquei parada com uma xícara de café na mão, sentindo tudo se apertar por dentro com aquele mesmo pensamento: daqui a pouco ele dispara e some de novo.

Foi aí que me bateu: já que ia devolver ele mesmo assim, podia pelo menos descobrir, uma vez, pra onde ele insistia tanto em ir.

Abri o portão.

"Tá bom," falei em voz alta. "Mas dessa vez eu vou junto."

O Bruno não correu pra pracinha da esquina. Não saiu atrás de gato nenhum. Baixou o focinho no chão na hora e foi andando — reto pra frente, rápido, com uma concentração que me deu arrepio, porque aquilo não parecia passeio. Parecia missão.

Ele andou bastante. Atravessamos algumas ruas. Depois mais algumas. Eu fui ficando pra trás, porque ele era grande e sabia exatamente o caminho, e eu era alguém que até aquele momento achava que tinha a vida sob controle. Acontece que não tinha nada sob controle.

Chegamos na marginal. Fiquei paralisada, o coração batendo forte: você não vai me levar pra lá, vai?

Levou. Esperou uma brecha no trânsito e atravessou como se aquela pista fosse quintal dele. Eu quase quebrei a perna correndo atrás, com um único pensamento na cabeça: por favor, que ele não seja atropelado.

Atravessamos. Depois ele entrou numa moita fechada de amoreira brava — cheia de espinho, quase impenetrável, tanto que rasguei a jaqueta na hora e arranhei as mãos todas. Xinguei baixinho de dor, mas ele não parou. Ele se enfiava em lugares onde ninguém ia normalmente. Porque ninguém tem motivo pra ir ali "assim, do nada".

E então ele parou de repente.

Na nossa frente tinha um terreno velho de horta comunitária, tomado pelo mato, com um barraco caindo aos pedaços, o telhado afundado. O Bruno encostou a cabeça numa fresta da porta e empurrou. Eu forcei a madeira apodrecida pra abrir mais — e ali, num cobertor velho entre vasos enferrujados, tinha outra cadela. Pequena, magra, com uma bandagem de papel toalha numa pata, que alguém claramente tinha tentado cuidar. Ela levantou a cabeça e ganiu, uma vez só, baixinho.

Eu me ajoelhei e só então reparei: do lado do cobertor tinha uma coleira com o fecho quebrado, e no chão, meio coberta por um saco de estopa velho, uma moldura desbotada com uma foto. Uma menina de uns oito anos, sorrindo, com a mesma cadela — mais nova, mais saudável — no colo.

Depois, na prefeitura, a história toda apareceu. A família que cuidava daquela horta tinha se mudado no início do ano pra Cotia; deixaram as duas cadelas com parentes, mas em menos de uma semana os parentes devolveram uma pro abrigo — o Bruno. A outra, a Mel, tinha fugido e nunca mais aparecido. Durante três semanas o Bruno vinha correndo sempre pro único endereço que ainda conhecia: aquele barraco, onde tinha deixado a irmã e onde continuava procurando por ela, contra qualquer lógica.

Levei a Mel pra casa dentro da minha jaqueta, com o Bruno o caminho todo do meu lado, o ombro dele encostado na minha perna como se tivesse medo de me perder ela também.

Naquela mesma noite liguei de volta pro resgate — não pra pedirem pra buscar o Bruno, mas pra avisar que eu ia ficar com ele. Assinei o termo de adoção que já tava juntando poeira na mesa da cozinha havia três semanas, e paguei a última multa pendente, de duzentos e dez reais, tudo de uma vez, em dinheiro, no balcão.

A Karin apareceu com uma coleira nova pra Mel e ficou olhando os dois cachorros, pela primeira vez sem muro nem ferrolho entre eles, se aconchegando juntos na caminha. Ela não falou nada de "eu não disse". Nem precisava.

Já aumentei o muro em trinta centímetros. Não porque acho que o Bruno ainda quer fugir. Só por garantia.

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