Eu me chamo Rogério, tenho trinta e um anos e trabalho na Secretaria de Obras de Juiz de Fora. Vou contar essa história do jeito que ela aconteceu comigo, porque quem só ouviu falar de mim através da Ivone nunca vai entender por que eu fiz o que fiz.
Conheci a Ivone dois anos depois que o noivo dela, o Thiago, morreu eletrocutado numa obra de linha de transmissão lá no interior de Minas. Eu não sabia nada disso quando a vi pela primeira vez, numa pousada em Domingos Martins, no Espírito Santo, onde eu tinha ido sozinho depois de terminar um namoro de quatro anos. Já fazia três semanas que eu tinha saído do apartamento que dividia com a Camila, e eu não estava ali para conhecer ninguém — só queria andar pela trilha da cachoeira, comer o pão de queijo capixaba que vendiam na padaria da praça e não pensar em nada.
Ela estava sentada sozinha no café da manhã, com um copo de suco de laranja que não tinha tocado, olhando pro jardim. Do lado dela, uma senhora de uns sessenta anos falava sem parar sobre remédio de pressão. Reparei que a moça respondia com a cabeça, sem escutar de verdade. Achei estranho — tanta gente de férias rindo alto, e aquelas duas paradas ali, como se estivessem num velório.
No terceiro dia peguei coragem. Ela tinha ido caminhar sozinha até o mirante, e eu inventei que também estava indo. "Você carrega um jeito muito triste pra alguém tão bonita", falei, e na mesma hora me arrependi — parecia cantada de novela ruim. Mas ela não foi embora. Ficou me encarando um segundo, como se eu tivesse dito alguma coisa que a assustou, e depois riu, meio sem graça.
Conversamos ali por uns vinte minutos. Contou que a senhora era a mãe do namorado que ela perdeu — um acidente numa obra, dois anos antes. Que viajava com ela porque não conseguia negar. Eu falei da Camila, do apartamento que agora tinha só as minhas coisas e um cheiro de mudança recente. Trocamos WhatsApp. Descobri que morávamos na mesma cidade, que eu tinha me formado na mesma faculdade que ela, dois anos antes dela entrar. Trabalhava na Secretaria havia um ano.
O que eu não contei pra ela naquele dia — e acho que é a parte que ninguém mais sabe — é que eu reconheci aquela dor porque tinha visto de perto. Meu pai morreu quando eu tinha dezenove anos, também de acidente de trabalho, numa fábrica de laticínios em Juiz de Fora. Eu sei o que é uma casa que fica anos parada no dia do enterro. Minha mãe demorou seis anos pra tirar as fotos dele da sala. Por isso, quando a Ivone falou da sogra que não largava dela, eu não achei estranho — achei familiar. Perguntei por que a senhora não se afastava, já que normalmente é o contrário, os pais dos noivos seguem a vida. Ela deu de ombros. Não tinha resposta.
No penúltimo dia da viagem dela, esbarrei nela na saída do mercadinho perto da pousada, ela tinha ido comprar protetor solar pra senhora. Chamei pra tomar um café gelado na lanchonete da esquina, aquela com toalha xadrez de plástico e ventilador de teto enferrujado. Foi ali que ela me contou o resto: que dormia mal desde a morte do noivo, que ia junto da sogra pro cemitério quase toda semana, que às vezes sentia que tinha virado peça de reposição na vida daquela família.
Eu não dei conselho. Não falei "larga isso" nem nada parecido — não é meu lugar, mal conhecia a mulher havia quatro dias. Só ouvi, e no fim perguntei se podia ligar quando ela voltasse pra Juiz de Fora. Ela disse que sim.
Voltamos pra cidade em datas diferentes. Liguei três dias depois, tarde, sem certeza se ela ia atender. Atendeu. Começamos a nos ver — café na praça, cinema no shopping Independência, uma vez até fomos juntos até o Parque Halfeld ver a exposição de Natal, já em dezembro daquele ano.
Foi nesse período que ela me contou, meio sem jeito, o que tinha acontecido quando voltou pra casa da viagem: a sogra, dona Marlene, tinha perguntado se ela estava grávida, e diante do "não", soltado que ainda tinha o filho mais novo, o Vinícius, "que também estava sozinho". Ivone chorou contando isso pra mim, pela primeira vez desde que eu a conhecia sem segurar o choro. Falei pouco. Não conhecia a dona Marlene, não tinha o que julgar. Só segurei a mão dela em cima da mesa, do lado do guardanapo que ela tinha rasgado em tiras sem perceber.
Um ano depois eu pedi ela em casamento, num sábado de manhã, na varanda do apartamento novo que eu tinha acabado de financiar perto do Bairro São Mateus. Casamos em março, cerimônia pequena, trinta e dois convidados, buffet de comida mineira que o pai dela ajudou a pagar. A dona Marlene não foi.
Isso não significa que ela sumiu. Um ano e meio depois do casamento, quando o Bernardo, nosso filho, tinha quatro meses, recebi uma ligação da Ivone no trabalho, no meio da tarde. A voz dela estava diferente — dura, sem o tremor de sempre quando falava da antiga sogra.
Cheguei em casa às seis e encontrei em cima da mesa da cozinha um envelope pardo, já aberto, com uma carta escrita à mão. Era da dona Marlene, pedindo que Ivone deixasse ela ver o Bernardo "nos fins de semana, como se fosse avó de verdade", e no fim da carta, uma frase que a Ivone leu em voz alta pra mim, parada, segurando o papel com as duas mãos: "Você me deve isso, depois de tudo que passamos juntas."
Ivone não gritou. Não chorou daquela vez. Foi até o quarto, pegou a pasta com os documentos do Bernardo — certidão de nascimento, cartão de vacina, a caderneta do plano de saúde — e me mostrou que já tinha escrito, no verso de uma folha, os nomes dos avós que constavam no registro: os meus pais e os dela. Nenhum Marlene.
No sábado seguinte, a campainha tocou às dez da manhã. Era ela, dona Marlene, com uma sacola de presente e o Vinícius atrás, meio encabulado, sem saber onde enfiar as mãos. Ivone abriu a porta só até a corrente de segurança, com o Bernardo no colo, e disse que não ia deixar entrar sem avisar antes, e que visita marcada era sempre bem-vinda — mas que não devia nada a ninguém, e que a conta, se é que existia alguma, estava quitada havia muito tempo. Fechou a porta. Trancou.
Do outro lado, ouvi a voz da dona Marlene ainda tentando argumentar, e depois o silêncio de quem desiste. Os passos dela descendo a escada do prédio, devagar.
Fiquei na cozinha, encostado no batente, vendo a Ivone voltar com o Bernardo no colo e sentar na cadeira de balanço perto da janela, o sol da tarde entrando morno pelo vidro. Ela não falou nada sobre o que tinha acabado de fazer. Só ajeitou a manta do bebê e ficou olhando pra rua, esperando que ele pegasse no sono.












