O cachorro de Dona Zuleide e a câmera que ninguém segurou

A primeira vez que Marisa Albuquerque levou o Trovão ao parque da Serra, em Gramado, ela fez o que todo mundo faz: tirou o celular do bolso.

Trovão era um vira-lata caramelo de orelha caída, resgatado da chuva dois anos antes, numa noite em que Marisa voltava do plantão no hospital e viu o bichinho tremendo debaixo de um caminhão estacionado. Ela tinha trinta e quatro anos, trabalhava como técnica de enfermagem, e desde que o marido tinha ido embora — ou melhor, desde que ela tinha pedido para ele ir embora, depois de descobrir as mensagens no WhatsApp — Trovão era a única criatura que esperava ela na porta todo santo dia.

Naquela tarde de sábado, tinha evento no parque: a prefeitura promovia um festival de adoção de animais, com barraquinhas, música, e um espaço kids. Marisa levou Trovão sem compromisso, só para passear, porque ele adorava gente e gente adorava ele.

Foi lá que ela reencontrou Dona Zuleide.

Zuleide Bittencourt tinha sessenta e um anos e morava no apartamento de baixo do prédio de Marisa há oito anos. Viúva, aposentada do comércio, com uma artrose no joelho que a fazia subir escada como se escalasse montanha. As duas quase não se falavam — um "bom dia" no elevador, um "cuidado com a chuva" na porta da garagem. Até o dia em que o filho de Zuleide, o Adalberto, apareceu no prédio com uma proposta que mudou tudo.

Adalberto tinha quarenta e dois anos e administrava, ou melhor, dizia administrar, uma revenda de motos em Caxias do Sul que estava quebrada havia um ano. Ele vivia prometendo "um projeto novo" para a mãe, e aquele projeto novo, descobriu-se depois, era convencer Zuleide a vender o apartamento de dois quartos — avaliado em duzentos e noventa mil reais — para ele quitar as dívidas da revenda e, de quebra, abrir uma pousada em Canela com o dinheiro que sobrasse.

Mas isso Marisa só descobriria semanas depois. No dia do festival, o que ela viu foi só uma senhora sentada num banco, sozinha, com uma sacolinha de ração nas mãos, acompanhando os cachorros com os olhos enquanto eles passavam.

— A senhora quer brincar com ele? — Marisa perguntou, puxando a guia do Trovão para mais perto.

Zuleide hesitou. — Eu tinha um cachorro assim, sabe. Chamava Bolinha. Morreu faz três anos.

— Pode fazer carinho.

E foi aí que aconteceu a cena que, sem Marisa saber, um rapaz do outro lado do parque estava filmando com o celular há uns bons vinte segundos, achando bonito o jeito que a senhora gargalhava enquanto o cachorro lambia a mão dela, esquecendo completamente do joelho, da aposentadoria curta, do filho que ligava só quando precisava de dinheiro.

Trovão deitou a cabeça no colo de Zuleide. Ela fechou os olhos por um segundo, como quem guarda aquilo em algum lugar que nenhuma foto alcança.

Ao redor, famílias inteiras levantavam celulares, procurando o ângulo certo para postar no Instagram com a hashtag do festival. Um casal discutia em voz baixa porque a luz do sol estava "estourando" na foto. Uma mãe gritava para o filho "olha pra câmera, olha pra câmera" enquanto o menino só queria correr atrás de um labrador. Marisa, sentada no banco ao lado, nem lembrou de pegar o telefone. Estava ocupada demais acompanhando a cena de verdade: uma vizinha que ela nunca tinha realmente conhecido, rindo como há tempos não ria.

Dali em diante, Marisa começou a levar Trovão até a porta de Zuleide, de propósito, nos fins de semana. Virou rotina. Café, biscoito de polvilho, o cachorro deitado no tapete da sala. E foi numa dessas tardes, três meses depois, que Zuleide contou, com a voz embargada, que Adalberto tinha marcado uma reunião com o corretor para a semana seguinte.

— Ele disse que é melhor eu ir morar com ele em Caxias. Que esse apartamento é grande demais pra mim sozinha.

— E a senhora quer ir?

Zuleide ficou calada um tempo, acariciando a orelha caída do Trovão.

— Eu quero ficar aqui. Mas ele é meu filho, Marisa. O que eu vou fazer, dizer não?

Marisa já tinha visto esse filme antes — não com a própria família, mas com pacientes do hospital, senhoras que chegavam sozinhas na emergência porque o filho "estava ocupado", e que, descobria-se depois, tinham assinado procurações sem entender bem o que estavam assinando. Ela não ia deixar isso acontecer na porta de baixo da sua casa.

Marisa ligou para uma advogada que conhecia do plantão, a Dra. Fabiana Khury, especialista em direito de família e sucessões, e marcou uma consulta — pagou do próprio bolso, cento e oitenta reais, porque Zuleide "não queria incomodar".

Na reunião, Dra. Fabiana foi direta: o apartamento estava só no nome de Zuleide. Nenhuma procuração tinha sido assinada ainda. Zuleide tinha todo o direito de dizer não.

Mas dizer não a um filho, descobriu Marisa, era mais difícil do que qualquer papel de advogado.

A reunião com o corretor aconteceu mesmo, num sábado de manhã, na sala de Zuleide. Adalberto chegou com uma pasta cheia de papéis e um corretor da imobiliária, de terno, sorrindo demais. Marisa, que tinha ficado de "passar lá com o Trovão", entrou junto — e sentou no sofá, sem avisar, do lado da vizinha.

— A senhora é quem, desculpa? — Adalberto perguntou, incomodado.

— Vizinha. A Dona Zuleide me pediu pra acompanhar.

O corretor abriu a pasta. Adalberto começou a falar rápido, sobre "a oportunidade única", sobre "o mercado que só sobe", sobre como "a mamãe ia ficar mais perto de mim, mais segura". Zuleide ouvia de cabeça baixa, as mãos trêmulas no colo.

Marisa colocou a mão sobre a mão da vizinha.

— Dona Zuleide — disse, calma —, a senhora quer vender esse apartamento?

Ninguém disse nada por um instante. Adalberto encarou Marisa com raiva. O corretor fingiu arrumar os papéis.

— Não — respondeu Zuleide, num fio de voz, mas firme. — Não quero.

— Mãe, a gente já conversou sobre isso —

— Eu não assinei nada, Adalberto. E não vou assinar.

O filho ficou vermelho, bateu a pasta na mesa, disse que "depois não vinha reclamar quando ficasse sozinha e sem ninguém pra cuidar dela". Levantou e saiu, puxando o corretor pelo braço, sem nem se despedir.

A porta bateu. Zuleide ficou com os olhos fixos no chão, o Trovão encostado na perna dela.

No dia seguinte, Marisa levou Zuleide até o cartório em Gramado. Não para vender nada — para o contrário: Zuleide registrou, com ajuda da Dra. Fabiana, uma declaração de vontade e um testamento simples deixando claro que o apartamento de dois quartos, avaliado em duzentos e noventa mil reais, só poderia ser vendido com autorização judicial se um dia ela fosse considerada incapaz, e que, em caso de sua morte, seria dividido entre Adalberto e uma instituição de proteção animal da cidade — a mesma que tinha organizado o festival onde Trovão e Zuleide se conheceram.

Zuleide também trocou a fechadura da porta naquela semana. Não porque tivesse medo do filho entrar escondido — mas porque, depois de anos sentindo aquele apartamento como um lugar de passagem, ela quis fazer disso um gesto, pequeno e concreto: uma chave nova, só para ela e para quem ela escolhesse deixar entrar.

Adalberto ligou três vezes naquela semana. Zuleide atendeu a terceira.

— A senhora vai morrer sozinha nesse apartamento — ele disse.

— Eu não estou sozinha — ela respondeu, com os olhos em Trovão, deitado no tapete, esperando a visita de sábado. — E esse apartamento não sai da minha mão enquanto eu respirar.

Ela desligou o telefone e colocou em cima da mesa, ao lado da pasta com os papéis do cartório. Foi até a janela, abriu a cortina, e ficou ali um tempo, as mãos apoiadas no batente, só acompanhando o movimento da rua, sem pressa de guardar aquilo em foto nenhuma.

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O cachorro de Dona Zuleide e a câmera que ninguém segurou