Marisa Castelhano tinha quarenta e três anos e uma rotina que não deixava espaço pra reclamação: missa de domingo na Paróquia de Santo Antônio, em Petrópolis, visitas à casa de repouso na terça, doação de roupa pra Pastoral da Criança na quinta. Ela cuidava de um salão de cabeleireiro pequeno, na Rua do Imperador, e das clientes que choravam no espelho ela sabia tirar mais que grampo e tesoura — sabia tirar confissão.
Mas tinha uma coisa que Marisa pedia toda noite, de joelho, antes de dormir, há mais de vinte anos: ver Deus. Nem que fosse um minuto. Nem que fosse de relance, lá no fim do corredor.
Numa noite de agosto, depois de fechar o salão mais tarde que o normal porque a Dona Irene não parava de contar os problemas com o genro, Marisa caiu no sono ainda com o avental vestido. E foi nesse sono que aconteceu.
Ela se viu numa rua de terra batida, com um casarão de fachada descascada no final, tipo aquelas vendas de interior que ainda existem nas cidades pequenas de Minas. Uma placa de madeira, torta, dizia só: "Loja da Benedita". Curiosa, ela entrou.
Atrás do balcão, organizando potes de vidro numa estante de pinho, estava um homem de uns setenta anos, cabelo branco, camisa de botão surrada, as mãos grandes e calejadas como as de quem trabalhou a vida toda na roça. Ele levantou os olhos para ela, e naquele gesto simples — o jeito de erguer a cabeça sem pressa, como quem já esperava a visita — Marisa reconheceu, sem nenhuma dúvida, sem precisar de prova, que aquilo era Deus.
— Senhor… é o Senhor mesmo? — ela gaguejou, com a mão no peito.
— Você pediu pra Me ver — ele respondeu, com a voz calma de quem não tem pressa nenhuma. — Pois aqui estou. Trabalhando na minha venda.
Marisa olhou em volta. Prateleiras cheias de potinhos sem rótulo, caixas empilhadas no canto, um balcão de madeira gasto pelo uso.
— O que o Senhor vende aqui?
— Tudo que o coração de verdade precisa — ele disse. — Pode pedir sem medo.
E ela pediu. Pediu felicidade, pediu que o filho parasse de beber, pediu saúde pra mãe que tinha osteoporose, pediu dinheiro pra pagar o aluguel do salão que estava três meses atrasado, pediu um namorado decente depois de dezoito anos sozinha, pediu paz pra cabeça que não parava.
Deus ouviu cada palavra sem interromper. Depois virou de costas, foi até os fundos da venda, e ficou um tempo lá dentro, como quem procura numa despensa.
Voltou com uma caixinha branca de papelão, do tamanho de um maço de cigarro.
Marisa olhou aquilo e sentiu uma pontada de decepção, quase de ofensa.
— Como é que tudo isso que eu pedi cabe numa caixa desse tamanho?
Deus colocou a caixinha nas mãos dela, com cuidado.
— Está tudo aí dentro — ele disse. — Mas na minha venda eu não vendo coisa pronta. Eu vendo semente. O que vai crescer disso depende de você.
Marisa acordou de susto, com o avental ainda amarrado na cintura e a caixinha, é claro, não existindo em lugar nenhum. Ficou sentada na cama, no escuro, com a frase do sonho rodando na cabeça: eu não vendo coisa pronta.
Passou a semana distraída. No salão, cortava cabelo pensando noutra coisa. Foi numa quarta-feira, enquanto varria os fios de cabelo do chão, que ela entendeu uma coisa que a irritou um pouco e depois a acalmou: ela tinha pedido tudo e não tinha plantado nada.
O filho, o Rodrigo, bebia porque ela nunca tinha tido a coragem de sentar na frente dele e dizer, sem rodeio, que aquilo estava matando os dois. Ela sempre escolhia a paz falsa da noite — fingir que não via as garrafas atrás do fogão — em vez da briga necessária.
O aluguel atrasado existia porque ela cobrava preço de salão simples por trabalho de salão fino, com vergonha de pedir o justo. Trinta reais pela escova que valia cinquenta, com desconto pra todo mundo que chorava uma história triste.
Então ela fez uma coisa que nunca tinha feito: numa sexta-feira à noite, depois do expediente, sentou o Rodrigo na mesa da cozinha, pôs um papel na frente dele e falou, sem gritar e sem chorar, que ele tinha até o dia 15 de setembro — vinte e dois dias — pra procurar o Centro de Atenção Psicossocial de Petrópolis, ou ela ia parar de pagar o aluguel do apartamento dele. Não ia mais cobrir. Ponto final. E tirou do bolso o comprovante do aluguel que ela vinha pagando havia três anos, mil e duzentos reais por mês, e colocou em cima da mesa pra ele ver o número escrito, preto no branco.
Rodrigo ficou calado um tempo, olhando o papel. Depois perguntou, com a voz embargada, se ela estava falando sério.
— Tão sério que já liguei pro CAPS hoje de manhã — ela respondeu. — Tem vaga pra avaliação dia 20.
No salão, ela também plantou a semente dela. Pegou a tabela de preço, riscou os descontos de amizade, e colocou o valor certo em cada serviço — a escova por cinquenta, a coloração pelo preço real. Perdeu três clientes na primeira semana. Dona Irene, aquela que sempre chorava pelo genro, saiu enfurecida dizendo que Marisa tinha ficado "fria".
Marisa não correu atrás. Ficou atrás do balcão, igual ao homem do sonho, atendendo quem ficou.
Rodrigo foi no CAPS no dia 20, puxado pelo medo de perder o teto, não pela fé — mas foi. Começou o acompanhamento. Não ficou curado da noite pro dia, ninguém fica, mas na terceira semana ele apareceu no salão às seis da tarde, cheirando a sabão e não a cerveja, pra ajudar a carregar as caixas de produto que tinham chegado.
O aluguel do salão, Marisa conseguiu pagar em dia, com o dinheiro certo que passou a cobrar.
Um mês depois do sonho, chegou uma cliente nova indicada por uma colega da igreja — viúva, dona de uma pousada em Itaipava —, que precisava de cabeleireira de confiança pros eventos do fim de semana. Fechou contrato fixo, duas vezes por semana, pelo valor cheio.
Marisa guardou a caixinha branca do sonho só na cabeça, porque não existia de verdade, mas às vezes, varrendo o salão no fim do dia, ela repetia a frase em voz baixa, mais pra si do que pra Deus:
— Eu não vendo coisa pronta. Eu vendo semente.
E continuava varrendo.










