Vó Lígia e o Último Rio

Faz sete anos que eu não durmo uma noite inteira sem olhar para o relógio.

Sete anos desde que minha neta Isadora saiu de casa com o salva-vidas amarelo que eu mesma comprei numa loja de pesca em Porto Alegre, entrou na caminhonete do meu filho Rogério e nunca mais voltou. E foi um pedaço de plástico — um pingente, uma presilha, uma coisa pequena demais para ter tanto peso — que saiu de dentro daquele colete velho e me fez discar o 190 de novo, depois de tanto tempo, com as mãos tremendo mais do que tremeram no dia em que a polícia bateu na minha porta pela primeira vez.

Isadora tinha onze anos quando o rio do Taquari a levou. Eu a criava desde os quatro, depois que meu filho mais velho e a nora morreram num acidente na BR-116, numa curva que todo mundo da região conhece e todo mundo teme. Desde aquele dia ela foi o centro da minha vida. Aprendi a fazer trança embutida porque era moda na escola dela. Aprendi a cortar a casca do pão porque ela não gostava. Dormia com um ouvido aberto nas noites de febre, contando os minutos até poder dar o próximo paracetamol.

Rogério, meu filho mais novo, ajudou a criar a menina como se fosse dele. Foi ele que tirou as rodinhas da bicicleta, que nunca faltou numa festa da escola, que comprou pra ela um remo vermelho vivo, com o nome ISADORA gravado a fogo no cabo, numa loja de artigos náuticos perto do Guaíba. Pra ela, ele não era só tio. "Ele é como meu irmão mais velho", ela disse uma vez pra professora. E depois, rindo: "Só que bem mais velho."

Rogério não deixou essa piada morrer. Repetiu ela em todo almoço de domingo por meses.

Por isso eu nunca duvidei dele quando prometeu, num sábado de outubro, levar Isadora pra descer o rio de caiaque.

"Você falou que a gente ia hoje!", ela gritou entrando na cozinha com o remo vermelho debaixo do braço.

"Falei que a gente ia se o tempo ajudasse", respondeu Rogério. "E ajudou. Eu já olhei a previsão."

Ele me olhou e riu. "Ela já checou o Climatempo, mãe. Tem onze anos e é mais responsável que eu."

Enquanto Isadora subia pra pegar o tênis de neoprene, o celular de Rogério começou a vibrar em cima da mesa. Uma vez. Depois outra. Na terceira ele olhou pra tela, fechou a cara e saiu pra varanda pra atender. Quando voltou, alguma coisa nele tinha mudado.

"Tá tudo bem?", perguntei.

"Trabalho", ele respondeu rápido demais. Pegou o remo da sobrinha e ficou olhando pro nome já meio desbotado na madeira, como quem carrega um segredo pesado demais pra dizer em voz alta.

Eu não sabia, naquele momento, que aquela ligação viria a ser a primeira peça de um quebra-cabeça que só se completaria sete anos depois, numa tarde de terça-feira comum, quando um perito da Polícia Científica de Porto Alegre me telefonou pedindo que eu fosse até a delegacia "reconhecer um objeto".

Naquele sábado eu só sabia que Rogério estava distraído no caminho até a represa de Capivari. Isadora cantava no banco de trás, batendo o remo de brinquedo contra a janela, animada demais pra notar que o tio mal falava. No ponto de lançamento, perto de um clube náutico que eu conhecia desde garota, Rogério ajudou ela a vestir o colete amarelo — o mesmo colete que, dezoito dias depois, um pescador encontraria encalhado três quilômetros rio abaixo, vazio.

A água estava alta por causa das chuvas da semana anterior. Isso eu soube depois, lendo o laudo. Na hora, vendo os dois se afastarem na canoa de alumínio, eu só pensei que fazia um dia bonito demais para uma tragédia.

Rogério voltou sozinho, duas horas depois, gritando meu nome da estrada de terra, sem voz, sem caiaque, sem a menina.

O que se seguiu foram semanas de buscas com a Defesa Civil, mergulhadores do Corpo de Bombeiros de Lajeado, cartazes colados em postos de gasolina entre Estrela e Encantado. Rogério foi interrogado três vezes. Ele dizia sempre a mesma coisa: a canoa virou numa correnteira que ele não esperava, ele tentou segurá-la pelo braço, a correnteira era mais forte que ele. A polícia nunca encontrou motivo pra duvidar — não havia testemunha, não havia prova contrária, só um homem desesperado e uma criança que o rio não devolveu.

Eu não conseguia olhar pro meu filho sem ver, ao mesmo tempo, o garoto que ensinou minha neta a pedalar e o homem que a trouxe de volta sem ela. Fiquei sete anos nesse meio-termo, sem conseguir condenar nem perdoar, enquanto ele se afastava cada vez mais — mudou-se pra Caxias do Sul, parou de vir nos domingos, mandava mensagem só no aniversário dela, uma data que ele marcava sempre com a mesma frase vazia: "Lembrando dela hoje."

Até a terça-feira em que o telefone tocou.

A perita, uma mulher de voz calma chamada Patrícia, me explicou que um grupo de voluntários tinha achado, enfim, os restos do colete salva-vidas enroscados numa raiz de timbaúva, bem mais abaixo do ponto onde Isadora desapareceu — a correnteza, com o tempo, tinha deslocado quilômetros de sedimento e revelado o que estava enterrado. Dentro do forro rasgado do colete havia um cartão de memória, do tamanho de uma unha, protegido numa capinha plástica que alguém tinha costurado ali, escondida.

Era de uma câmera de ação, tipo GoPro, que Rogério usava pra filmar as descidas de rio. A polícia conseguiu recuperar um trecho de vídeo.

Fui chamada pra assistir junto com o delegado, numa sala pequena da delegacia da Avenida Ipiranga. Patrícia apertou o play e eu vi minha neta rindo, remando, gritando "mais rápido, tio Rogério!" — e então vi o celular de Rogério vibrando dentro do bolso dele, visível no canto do quadro, e ouvi ele atender, de novo, no meio do rio, enquanto Isadora gritava pra ele prestar atenção na correnteira que já estava puxando o caiaque pra um redemoinho.

"Já vou, espera", ele dizia pro telefone. "Não, não posso falar agora, tô com a menina."

E foi aí, naquele instante gravado por acaso, que o caiaque virou. A câmera captou mais oito segundos de água e gritos antes de apagar.

Rogério não tinha mentido sobre a correnteira. Mas tinha mentido sobre estar olhando.

A ligação, descobri depois pelo histórico telefônico que a perícia recuperou da operadora, era da ex-mulher dele, discutindo pensão. Ele atendeu quatro vezes naquela manhã. A quarta foi a que custou tudo.

Não fui à delegacia pra vingança. Fui porque, depois de sete anos sem saber se minha neta tinha me chamado antes de ir pro fundo, eu finalmente tive uma resposta: ela chamou o nome dele, não o meu, pedindo que ele olhasse.

Liguei pro meu advogado, Dr. Edmilson, ainda na calçada da delegacia, com a pasta do laudo debaixo do braço. "Quero reabrir o inventário da Isadora", eu disse. "E quero retirar o Rogério como herdeiro substituto da minha casa."

Porque, nos sete anos de luto, eu tinha deixado meu testamento como estava desde que ela morreu: a casa na Rua Félix da Cunha, comprada com a pensão do meu marido, passaria pra ela e, na falta dela, pro Rogério — por costume, por não querer pensar naquilo, por achar que não fazia diferença.

Fazia diferença agora.

Duas semanas depois, sentada na sala do Dr. Edmilson, assinei a transferência da casa pra uma instituição de resgate fluvial de Lajeado, a mesma que passou dezoito dias mergulhando no Taquari atrás da minha neta sem cobrar um centavo. A escritura ficou pronta num envelope pardo, com o nome da entidade e o valor do imóvel — 480 mil reais — escrito em letras que o cartório confirmou com carimbo e assinatura.

Rogério soube pelo WhatsApp, numa mensagem curta que mandei junto com uma foto do protocolo do cartório: "A casa vai pra quem procurou a Isadora de verdade. Não precisa me ligar."

Ele ligou mesmo assim, catorze vezes num só dia. Eu não atendi nenhuma.

Três dias depois ele apareceu na minha porta, em Porto Alegre, com os olhos vermelhos e a voz quebrada, perguntando se eu tinha visto o vídeo até o fim, se eu entendia que ele não tinha feito de propósito. Eu abri a porta só até onde a corrente de segurança deixava.

"Eu vi, Rogério. Vi você atender o telefone enquanto ela gritava seu nome."

Ele não teve resposta. Fiquei ali, na fresta da porta, com a pasta do inventário ainda em cima da mesa da sala, atrás de mim, e o remo vermelho da Isadora — que eu tinha recuperado da casa dele meses antes, sem avisar — pendurado na parede do corredor, onde fica até hoje.

Rate article
Vó Lígia e o Último Rio