Brincos de Granada
Eu estava parada na frente do caixa eletrônico na Rua Oscar Freire e lia a terceira vez o extrato. Da conta tinham desaparecido exatamente dois mil reais. Os mesmos que eu vinha guardando, duzentos por mês, do meu salário de enfermeira, escondidos numa conta que eu abri sem o Rogério saber. Os mesmos que iam ser a passagem da Soraia para São Paulo.
Na tela aparecia: saldo — cento e vinte e três reais. Encostei na parede fria do banco e fechei os olhos. Diante dos meus olhos estava o Rogério, do jeito que ele tinha revirado minha bolsa na noite anterior, encontrado o cartão escondido no forro e ido até o caixa eletrônico. Ele nem perguntou. Só precisou adivinhar a senha — o aniversário da Soraia, a mesma de sempre.
Dois dias antes, a Soraia tinha chegado correndo da escolinha de balé, agitando um envelope. O rosto dela brilhava como panela de cobre recém-polida.
— Mãe, me chamaram! Audição na Escola de Dança do Theatro Municipal! Daqui a duas semanas!
Ela saltitava pela cozinha, batendo os cotovelos no papel de parede velho. Eu a abracei, sentindo o coração dela bater depressa.
De noite chegou o Rogério. Ele ouviu a notícia sem dizer uma palavra, colocou o envelope na mesa e disse:
— Ela não vai a lugar nenhum. Balé é bobagem. Que ela se prepare pro vestibular de enfermagem, como a mãe. Vira enfermeira, trabalha com algo sério.
— Ela sonha em dançar — tentei falar com calma.
— Sonho não paga conta. Eu não vou dar dinheiro pra essa viagem.
Ele foi dormir, e eu fiquei muito tempo na cozinha, olhando o chá de camomila que tinha esfriado. Ele já tinha pego o dinheiro — entendi isso de manhã, quando vi a notificação do banco no celular esquecido em cima da mesa.
Aqueles dois mil reais não eram só uma quantia. Eram meus plantões noturnos, a recusa de comprar botas novas, eram as lágrimas da Soraia quando, com dez anos, torceu o tornozelo mas não faltou a nenhuma aula. O Rogério não via isso. Ele só via que a filha "ficava pulando como cabra", enquanto o filho do vizinho já tinha entrado na faculdade de engenharia.
Na manhã seguinte peguei licença no trabalho, tirei da gaveta a caixinha da minha avó e peguei os brincos de granada. Estavam sobre o veludo preto, vermelho-escuros como gotas de vinho. Minha avó Rosa tinha chegado em São Paulo ainda menina, no colo da família que veio do Espírito Santo fugindo da seca, e aqueles brincos foram a única coisa de valor que a família trouxe na trouxa de roupa. Nunca pensei que fosse me desfazer deles. Mas a Soraia precisava ir.
Fui até uma compra de ouro na Rua 25 de Março. Movimento de gente, cheiro de pastel de feira, calçada gasta sob os pés. No balcão estava sentado um homem com uma lupa de joalheiro. Ele examinou os brincos por um bom tempo, pesou, cheirou.
— Dois mil reais — disse. — Não dá mais que isso, granada não tem muito valor de revenda.
Concordei. Assinei o papel de venda definitiva e vi ele guardar os brincos numa gaveta com outros tantos. Era exatamente o que o Rogério tinha levado. Como se alguém tivesse devolvido. Mas ainda faltava para a hospedagem em São Paulo. Peguei turnos extras noturnos no hospital. Dormia quatro horas por noite, os olhos vermelhos, mas não reclamava.
Um dia antes da viagem, o Rogério fez um escândalo. Arrancou a bolsa de balé das mãos da Soraia e jogou no chão. As sapatilhas de ponta se espalharam pelo corredor.
— Você não vai a lugar nenhum! — gritava. — Eu proíbo!
A Soraia ficou encostada na parede, com os punhos apertados contra o peito. Os lábios tremiam, mas ela não chorou. Disse:
— Pai, eu vou do mesmo jeito. O senhor pode não dar o dinheiro, mas eu vou.
O Rogério então agarrou o braço dela, empurrou pra dentro do quarto, trancou a porta à chave e colocou a chave no bolso.
— Fica aí sentada, pra pensar — disse.
Eu estava no corredor, com o ferro de passar na mão. Estava passando o vestido dela pra audição. Não gritei. Coloquei o ferro na tábua, peguei o celular e chamei um chaveiro. O Rogério me olhava como se eu estivesse louca.
— O que você está fazendo?
— Abrindo a porta — respondi.
O chaveiro chegou em uma hora. O Rogério ficou esse tempo todo parado perto da porta, de braços cruzados. Tentava me convencer de que eu estava destruindo a família, que a Soraia não ia passar, que ia ser vergonha. Eu não respondia. Quando a fechadura estalou e a porta abriu, a Soraia saiu do quarto com a mala que tinha feito de manhã. Ela não olhou pro pai. Veio até mim e segurou minha mão.
— Vamos, mãe.
Saímos do apartamento. No corredor do prédio, como sempre, a lâmpada estava queimada, e contamos no escuro os dezesseis degraus até a saída. O Rogério gritava atrás de nós que a gente ainda ia voltar, que sem ele a gente não ia se virar. A voz dele se perdeu no barulho do ônibus que passava na rua.
Fomos pra São Paulo no ônibus da madrugada. A Soraia a viagem toda ficou olhando pela janela, e eu fingia que dormia. Na mão eu apertava o envelope com os dois mil reais.
A audição foi na sede da escola, perto do Theatro Municipal. Eu sentei no corredor, com cheiro de suor e resina. As meninas de collant se alongavam, as mães cochichavam. A Soraia saiu da sala depois de quinze minutos. O rosto dela estava branco como cal.
— Acho que eu estraguei tudo — soltou, sem fôlego.
Eu a abracei, sentindo ela tremer.
— Não, filha. Você fez tudo que podia.
Três dias depois nos ligaram. A Soraia tinha sido aceita. Ela saltitou pelo quarto alugado na Vila Madalena, que a gente tinha fechado por mil e duzentos reais por mês. Eu chorei no banheiro, porque não sabia como a gente ia pagar aquilo. Mas sabia que ia dar um jeito.
Passaram três meses. A Soraia conseguiu lugar no corpo de baile de "O Lago dos Cisnes". Ela entrava em cena no segundo ato, de tutu branco. Eu sentei na platéia, apertando na mão um bilhete de oitenta reais, sem conseguir tirar os olhos do palco.
Depois do espetáculo, quando voltamos pra casa, o Rogério estava na porta. Trazia um buquê de rosas e uma caixa de bombom Garoto.
— Eu vim — disse. — Vamos conversar.
Tirei da bolsa a chave — nova, daquela porta. Ainda na primeira semana depois da mudança eu tinha trocado a fechadura. Por precaução. Agora a chave velha, que ficava no bolso do paletó do Rogério, não servia mais.
— É em vão — eu disse. — Troquei a fechadura.
Ele fez cara feia, tirou do bolso a chave dele e tentou mesmo assim encaixar na fenda. A chave não entrava. Ele empurrava, girava, e só arranhava o metal.
— Rosana, transferi cinco mil reais pra sua conta. Pra Soraia. Vamos só…
— Não preciso do seu dinheiro. Já vendi os brincos da minha avó por dois mil. O resto eu ganhei trabalhando.
Ele ficou ali, sem saber o que fazer.
— Entrei com o pedido de divórcio — continuei. — Semana que vem tem audiência. Dezessete anos de casamento — já chega.
— E a filha? — ele apontou pra porta com a cabeça.
— Ela já escolheu. E eu também escolhi.
Abri a porta, entrei, e antes de fechar, disse:
— Adeus, Rogério.
Fechei a porta com a tranca. Fiquei parada um pouco, escutando ele andar de um lado pro outro no patamar. Depois ouvi ele deixar as flores na porta e ir.
De manhã, abri a porta pra buscar o jornal e encontrei o buquê ainda ali, as pétalas já murchando no frio do corredor. Peguei as rosas, uma por uma, e as enfiei na lata de lixo da cozinha, até o talo mais curto desaparecer sob a tampa. A caixa de bombom deixei intacta no corrimão da escada, pra quem quisesse levar.
A Soraia entrou na cozinha ainda de collant, o cabelo preso no coque apertado do ensaio, e me viu fechando o lixo.
— Isso era dele? — perguntou, só olhando a lata.
— Era.
Ela abriu a geladeira, tirou o suco, serviu dois copos, e colocou um na minha frente sem dizer mais nada.










