Uma Cachorra na Sepultura do Alto da Boa Vista

Meu nome é Eliane, tenho cinquenta e dois anos e moro no bairro do Alto da Boa Vista, em Belo Horizonte. Há quatro anos perdi meu filho Thiago, que tinha vinte e um anos, num acidente de moto na Avenida Cristiano Machado. Até hoje, em algumas manhãs, levo alguns segundos para lembrar que ele não vai mais aparecer na cozinha pedindo café.

Todo domingo, sem falta, eu vou ao Cemitério das Paineiras visitar o túmulo dele. Levo uma muda de rosas ou só fico sentada no banquinho de pedra, conversando baixinho. É o único ritual que não consigo abandonar, nem quando chove, nem quando o joelho está ruim.

Nos últimos três meses, comecei a notar algo estranho. Quase sempre que eu chegava, havia uma cadela, uma vira-lata de pelo sujo, cor de terra, sem coleira, deitada encostada na lápide de Thiago. Ficava ali quieta, enrodilhada, até eu ir embora.

No começo achei coincidência. Depois aconteceu de novo. E de novo. Até que perguntei ao Seu Osvaldo, o zelador do cemitério.

— O senhor sabe de quem é essa cachorra?

Ele coçou a cabeça. — Não sei não, dona Eliane. Já tem uns dois meses que ela aparece por aqui.

— Nunca ninguém vem buscar ela?

— Nunca. E não parece interessada em mais nada aqui, só naquele jazigo.

Aquilo não me saiu da cabeça. Por que uma cachorra de rua voltaria, semana após semana, exatamente ao túmulo do meu filho? No domingo seguinte resolvi não ir embora até descobrir. Sentei mais afastada, perto de um cruzeiro de mármore, e esperei.

A cadela ficou quase quarenta minutos deitada ali, sem se mexer. De repente levantou a cabeça, se pôs de pé, espreguiçou as pernas e foi andando em direção ao portão principal. Não sei o que me deu, mas comecei a segui-la. Talvez fosse curiosidade. Talvez fosse a vontade desesperada de sentir qualquer fio que ainda me ligasse ao Thiago.

Ela nunca olhou para trás, mas de algum jeito eu sabia que precisava continuar. Atravessou ruas que eu nunca tinha visto, passou por um posto de gasolina abandonado perto da linha do trem, entrou numa viela estreita entre casas velhas de tijolo aparente. Fui atrás, enquanto o cemitério ia ficando cada vez mais longe, até desaparecer de vista.

Umas vinte minutos depois, ela parou. Estávamos na frente de uma casinha simples, de reboco descascado, no fim de uma rua sem saída, perto do córrego. A cadela arranhou duas vezes a porta de madeira. Depois sentou e ficou esperando.

Fiquei parada a uns cinco metros, pensando se não tinha acabado de cometer um erro enorme. A porta rangeu e abriu lentamente. E quem apareceu na soleira foi a última pessoa no mundo que eu jamais imaginaria voltar a ver.

Era Marisa. A namorada de Thiago. A moça que, três semanas depois do enterro, simplesmente parou de atender meu telefone, trocou de número e desapareceu, sem deixar endereço nem explicação. Eu tinha passado quatro anos achando que ela tinha virado as costas para a memória do meu filho, que tinha ido viver a vida dela como se nada tivesse acontecido.

Ela estava magra, com os olhos fundos, segurando no colo um bebê de uns dois anos. Quando me viu parada no meio da rua, o rosto dela ficou branco.

— Dona Eliane… — a voz saiu quebrada.

— Marisa. Essa cachorra é sua?

Ela baixou os olhos para o animal, que agora se encostava na perna dela, e depois olhou para mim de novo, como quem decide, num segundo, se vai fugir ou vai contar a verdade.

— Chama Bicuda. Era do Thiago. Ele achou ela na rua um mês antes de… antes do acidente. Eu fiquei com ela porque não tinha mais pra onde ir.

Entrei. A casa era pequena, dois cômodos, um colchão no chão, uma pia cheia de louça lavada à mão. Numa mesinha de plástico havia um retrato de Thiago, de quando ele tinha dezoito anos, sorrindo numa festa de aniversário que eu mesma tinha organizado.

Marisa contou, entre lágrimas e pausas longas, que estava grávida quando Thiago morreu. Que a família dela, lá em Contagem, a expulsou de casa porque era "vergonha" ter um filho fora do casamento e sem o pai vivo. Que ela tinha vergonha de me procurar, achando que eu ia culpá-la pelo acidente, já que foi ela que pediu pra ele buscar um remédio na farmácia naquela noite de chuva. Que vivia de bicos de diarista e do que sobrava do Bolsa Família, sem conseguir pagar nem o aluguel direito.

— O menino se chama Caio — ela disse, apontando a criança no colo. — Tem os olhos do Thiago.

Eu não consegui falar nada por um bom tempo. Só olhei para aquele menino, que de fato tinha o mesmo formato de olho puxado do meu filho, a mesma covinha no queixo.

Fiquei sabendo depois, conversando com ela devagar naquela tarde e nas semanas seguintes, que era Marisa quem levava a Bicuda até o cemitério, escondida, nas manhãs de domingo, antes mesmo de eu chegar, só para a cachorra "visitar" o dono. Depois a cadela ficava rondando por conta própria o resto do dia, voltando pra casa sozinha à tarde. Foi um acaso cruel e bonito que nossos horários tenham se cruzado tantas vezes.

As semanas seguintes eu passei puxando papel. Fui ao cartório da Praça Sete reconhecer a paternidade de Caio por via judicial, com exame de DNA que confirmou o que o rosto do menino já tinha me dito. Abri uma conta na Caixa só para ele, poupança vinculada, e comecei a depositar parte da pensão que recebia do seguro do acidente de Thiago, mil e duzentos reais por mês, até ele completar dezoito anos.

Marisa e Caio vieram morar comigo, no apartamento do Alto da Boa Vista que era grande demais pra uma pessoa só. Troquei a fechadura da porta de entrada, não porque não confiasse nela, mas porque aquela casa agora tinha dois nomes novos na campainha e eu queria que fosse, de fato, a casa deles também.

No domingo seguinte, fomos as três ao Cemitério das Paineiras, eu, Marisa e Caio no colo, com a Bicuda puxando a guia nova que eu tinha comprado numa pet shop da Avenida Cristiano Machado. Deitamos uma manta no chão, ao lado da lápide, e ficamos ali sentadas as duas, enquanto o menino arrancava grama distraído e a cachorra, finalmente com coleira e nome gravado numa plaquinha, dormia encostada na pedra, como sempre fez.

Rate article
Uma Cachorra na Sepultura do Alto da Boa Vista