O Desenho Amassado no Fundo da Gaveta

Bernardo desceu as escadas de mármore do seu triplex no Lourdes ainda ajustando o nó da gravata. As vozes empolgadas dos filhos ecoavam pelo jardim de inverno, uma algazarra que ele já considerava intolerável antes mesmo do café da manhã.

Mas quando abriu a porta de vidro que dava para o quintal, o que viu fez o sangue subir.

Felipe, Marina e Lucas estavam descalços, cobertos de lama até o joelho. A fonte que ele havia importado da Itália estava transformada em uma poça gigante, e Dona Iolanda, a babá de mais de sessenta anos, segurava a mangueira como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

— Meu Deus do céu! — a voz de Bernardo saiu como um trovão. — Vocês estão completamente malucos?

As crianças paralisaram na hora. O riso morreu na boca de Lucas, o caçula. Marina, sempre a mais sensível, já começou a tremer o queixo.

— Seu Bernardo, a senhora que regava as plantas deixou a torneira aberta, a água espalhou e eles só estavam…

— Dona Iolanda — ele interrompeu, seco. — A senhora acabou de destruir os sapatos importados dos meus filhos. Está despedida.

A babá não discutiu. Só olhou para ele com uma expressão que Bernardo não conseguiu decifrar. Decepção? Pena? Foi para o quarto de serviço arrumar as malas sem dizer uma única palavra.

Enquanto ela subia, Marina se agarrou à perna do pai, ainda choramingando.

— Pai… a gente só queria brincar. A Dona Iolanda disse que o senhor também brincava assim quando era criança.

— Ela não sabe do que está falando. Vão tomar banho. Já.

Dez minutos depois, Bernardo estava na cozinha passando um café expresso duplo quando Lucas entrou, miúdo, segurando uma folha de papel amassada.

— Pai… a Iolanda pediu pra gente desenhar o lugar onde o pai seria feliz de verdade. Eu desenhei isso. Ela disse que era pra te entregar.

Bernardo pegou o desenho sem a menor paciência. Era infantil, feito com giz de cera barato. Uma casa meio torta, uma árvore enorme que parecia uma jaqueira, um cercado de madeira. E um menino com os pés enfiados num rio de lama.

O detalhe que fez seus dedos gelarem foi a pinta.

No pescoço do menino desenhado, Lucas havia pintado uma mancha marrom escura, exatamente no mesmo lugar onde o próprio Bernardo tinha sua marca de nascença. Uma marca que ninguém fora da família conhecia, porque ele sempre escondia com o colarinho alto das camisas.

— Lucas… quem mandou você pintar essa pinta aqui?

— Ninguém, ué. Eu desenhei você.

— Como assim, você?

— É você pequeno. A Iolanda disse que era pra imaginar como o pai era quando tinha a minha idade.

Bernardo sentiu a garganta fechar. Ele não tinha nenhuma foto sua de infância naquela casa. A mãe, Eugênia, havia arrancado todos os álbuns da estante quando ele tinha doze anos, depois de uma briga feia com o pai. Desde então, ele mal se lembrava do próprio rosto de menino.

Quando o pai morreu, Bernardo tinha nove anos. A mãe nunca mais pronunciou o nome dele.

Subiu as escadas correndo, ainda com o desenho na mão.

— Dona Iolanda!

Ela já estava no hall de serviço com a malinha de couro surrada, o rosto tranquilo de quem já esperava um desfecho assim.

— A senhora sabia da pinta. Como?

— Seu Bernardo, eu fui vizinha da sua avó em Sabará por mais de trinta anos. Fui eu que entreguei a sopa de legumes no dia do enterro do seu pai. A dona Eugênia nunca soube que eu era eu — ela sorriu, um sorriso triste. — Quando me candidatei pra vaga, eu queria ver como você tinha crescido.

— Mas por que a senhora falou pras crianças sobre… esse lugar?

— Porque eu queria que elas desenhassem o que o senhor esconde delas. E esconde de si mesmo.

— A senhora não tem o direito de mexer no meu passado.

— Não tenho mesmo — ela concordou, fechando o zíper da mala. — Mas seus filhos têm o direito de conhecer o pai de verdade, não esse executivo engravatado que só sabe dar ordens.

A frase bateu no peito de Bernardo de um jeito que ele não esperava.

Quando Dona Iolanda saiu, a casa ficou num silêncio diferente. Não era a paz controlada que ele exigia. Era um vazio.

Lucas, Marina e Felipe estavam no sofá da sala de TV, ainda de banho tomado, calados demais. Bernardo não conseguia parar de olhar para o desenho. A jaqueira. O cercado. A lama.

Lembranças começaram a voltar aos pedaços. A fazendinha do avô em Rio Acima. As chuvas de janeiro que transformavam o terreiro num lamaçal. E ele, com cinco, seis anos, correndo atrás das galinhas com os pés pretos de barro, enquanto o avô ria apoiado na bengala.

A mãe chegava para buscá-lo sempre com o mesmo discurso: "Os Gusmão não são gente qualquer. Você vai ser herdeiro de uma construtora. Lama é pra porco."

Ele se lembrava do último dia que brincou na chuva. Foi no verão de 1989. O avô estava internado. A mãe o arrastou pelo braço para dentro da caminhonete e disse que ele nunca mais voltaria ali. Ele tinha sete anos.

No dia seguinte, começaram as aulas de etiqueta. Terno e gravata aos dez. Escritório aos quinze. Diretoria aos vinte e dois. O riso foi ficando para trás.

Pegou o carro e foi até Rio Acima na mesma tarde.

A fazenda estava abandonada, tomada pelo mato. A jaqueira continuava lá, gigantesca, com os frutos apodrecendo no chão. A casa de pau a pique mal se sustentava. Mas o galpão dos fundos ainda estava de pé.

Dentro, coberto por uma lona empoeirada, havia um baú de madeira que Bernardo reconheceu na hora. Pertenciau ao avô.

Dentro do baú, embrulhado em pano de prato, estavam as fotografias que ele pensava terem sido destruídas. Dezenas delas. Bernardo aos três anos, todo sujo de terra. Bernardo aos cinco, montado num porco, gargalhando. Bernardo aos sete, no último verão, com as mãos cheias de jabuticaba e o rosto manchado de roxo.

No fundo do baú, um envelope amarelado com a letra do pai, que ele mal lembrava:

"Bernardo, se você está lendo isso, é porque a máscara caiu. Sua mãe queria um herdeiro perfeito. Eu queria um filho feliz. Escondi essas fotos para que um dia você pudesse se lembrar de quem era antes do medo tomar conta. O império passa. A alma, não. Te amo."

O choro veio sem pedir licença. Ali, no meio do galpão empoeirado, com o cheiro de terra molhada entrando pelas frestas das telhas, Bernardo Gusmão chorou pela primeira vez em trinta e cinco anos.

Voltou para casa já de noite. As crianças estavam jantando com a governanta quando ele entrou na sala com o baú nos braços, a roupa amassada, os olhos vermelhos. Não disse nada. Foi até o quintal.

Chovia fraco. A fonte ainda estava cheia d'água.

Tirou os sapatos. Depois as meias. Depois entrou na poça com os dois pés descalços.

Marina foi a primeira a ver.

— Pai?

— Vem, filha.

Ela não hesitou. Tirou as sandálias e entrou na lama. Felipe veio atrás, rindo sem acreditar. Lucas saiu gritando e se jogou de joelhos no barro.

Os três, mais Bernardo, passaram quase meia hora naquela poça improvisada, se sujando como nunca, rindo como nunca, enquanto a governanta assistia da porta da cozinha, sem entender nada, mas sorrindo também.

No dia seguinte, Bernardo foi até a casa de Dona Iolanda.

Ela abriu a porta com a mesma expressão paciente de sempre.

— A senhora esqueceu uma coisa lá em casa — ele disse, estendendo um envelope.

Ela abriu. Dentro havia a carteira de trabalho assinada, com a reintegração, e um bilhete:

"Obrigado por me lembrar quem eu era."

Dona Iolanda voltou naquela mesma tarde. Mas, desta vez, não como babá. Bernardo pediu que ela assumisse a gestão da casa como sua braço direito. Alguém em quem ele pudesse confiar para além dos manuais de etiqueta.

Hoje, no escritório da presidência da construtora, entre os diplomas e prêmios, há uma única moldura simples. Dentro, um desenho amassado de giz de cera, com uma jaqueira e um menino de pés sujos.

E embaixo, uma plaquinha de madeira que os três filhos escreveram juntos:

"A felicidade nunca teve medo de se sujar."

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