A Aposta e o Garanhão Selvagem

A história correu como fogo pelo interior de Minas Gerais. Diziam que o todo-poderoso Vicente Almeida, dono de metade das fazendas de gado da região e de uma fortuna que ninguém sabia calcular, havia adquirido o cavalo mais lindo e mais impossível de todo o Brasil. Um garanhão mangalarga marchador, negro como a noite, pelo qual trocou uma caminhonete Ford Ranger zero-quilômetro, dez cabeças de gado nelore e ainda trinta mil reais por fora. Era para ser o xodó do seu haras em Belo Horizonte, a joia que desfilaria na Exposição do Cavalo no fim do ano.

Só que as coisas não saíram como Vicente planejou.

Desde o instante em que o animal desceu do caminhão de transporte, ele se recusou a aceitar qualquer pessoa por perto. No primeiro dia, quebrou a porta da baia com um coice. No segundo, derrubou o peão mais experiente da fazenda, um homem de sessenta anos que lidava com cavalos desde os doze. O rapaz que tentou colocar o cabresto com jeito saiu voando e foi parar no hospital com três costelas quebradas. Em menos de uma semana, o cavalo já tinha virado uma lenda amaldiçoada nos pastos da Serra do Curral. O apelido pegou rápido: Corisco. Porque aparecia como um trovão e desaparecia deixando estrago.

Vicente estava na sala da sede, uma construção enorme com janelas do chão ao teto e vista para os pastos verdes, quando o veterinário deu o veredito.

— Seu Vicente, não é falta de manejo. Esse cavalo simplesmente não aceita rédea. Ele não confia em ninguém. É melhor o senhor vender essa fera antes que ela mate alguém. Eu mesmo não entro mais naquele estábulo. Me desculpe a franqueza.

— Vender? Você acha que eu vou admitir que gastei uma nota preta num cavalo que me deu um coice? — Vicente bateu com a palma da mão na mesa de jacarandá, os olhos escuros faiscando. — Eu não construí esse patrimônio levando coice de bicho. Ele vai me obedecer, custe o que custar.

Acontece que, naquela mesma tarde, enquanto a discussão ainda fervia entre os vaqueiros e o patrão, uma moça encostou no cercado do piquete isolado onde Corisco estava. Clara, a filha do caseiro. Magrinha, cabelo preso num coque frouxo, bota surrada e um cheiro de alfafa que parecia grudado na pele. Ninguém mandou ela ali. Trabalhava cuidando dos cavalos doentes, dos potros, dos bichos que ninguém queria. Era uma sombra silenciosa entre as baias. Vicente já a tinha visto algumas vezes, curvada sobre um animal caído, e nunca trocou mais que duas palavras com ela.

— Ei! Você aí! — A voz de Vicente estalou no ar como chicote. — Sai de perto dessa cerca, menina! Isso é uma ordem!

Clara virou o rosto devagar. Não havia medo nos olhos verdes.

— Ele tá com dor.

O fazendeiro parou, o cenho franzido.

— Como é que é?

— O senhor pode gritar comigo o quanto quiser, mas ele não é ruim. Tá com dor.

Um dos vaqueiros riu, um riso amarelo e nervoso. Vicente ignorou. Caminhou até a cerca, aproximando-se o suficiente para ver a poeira que o garanhão levantava, bufando, do outro lado do pasto.

— Garota, você tem ideia de quem está falando? Meu pessoal está há semanas tentando domar esse animal. Ele mandou gente para o hospital. Você acha que chega aqui, olha pra ele e descobre o que ninguém descobriu?

Clara não desviou os olhos.

— Só estou dizendo que, antes de tentar colocar a sela, alguém devia ter prestado atenção.

Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Os vaqueiros trocaram olhares, esperando a explosão. Mas Vicente soltou uma risada curta. Não era uma risada alegre. Era um desafio.

— Tá bom, Clara. Você que sabe de tudo, então faça o seguinte. Amanhã de manhã, você entra naquele piquete. Sozinha. E coloca a cabeçada nele e monta. Se você conseguir, eu realizo qualquer pedido que me fizer. Dinheiro. Um carro. O que quiser.

O rosto dela não mudou. Mas a voz saiu firme, baixa e certeira como tiro de espingarda.

— Quero seu respeito, Seu Vicente. E um emprego de verdade no haras. Com carteira assinada e salário digno. Não quero mais ser a menina que só limpa cocheira dos outros.

A resposta pegou todo mundo de surpresa. Vicente a encarou por um instante, o maxilar tenso, os dedos tamborilando contra a madeira da cerca. Ele era um homem de palavra, e todos ali sabiam.

— Pois então está combinado. Mas se falhar, você e seu pai pegam as coisas e vão embora da minha terra até o pôr do sol.

A manhã seguinte amanheceu às seis horas, com o céu cor de chumbo e uma garoa fina que caía sobre os pastos. Quando Clara apareceu no piquete, parecia que a fazenda inteira tinha se reunido para assistir. Peões, tratadores, o veterinário de braços cruzados, a secretária do haras e até o velho pai dela, pálido como cera, agarrado às ripas da cerca.

Corisco estava no centro do pasto, o corpo tenso, as narinas dilatadas, farejando a eletricidade do ar e a multidão. Quando viu a moça avançar, recuou, relinchou alto e bateu as patas dianteiras no chão molhado, fazendo lama voar.

Mas Clara não ergueu a mão. Não carregava corda, não estalou chicote. Ela parou a uns cinco metros dele. E começou a falar. Ninguém conseguia ouvir o quê. Os lábios se moviam num sussurro, um som doce e contínuo, enquanto a chuva fina escorria pelo seu rosto. Ela desviou o olhar, baixou a cabeça, numa postura que parecia de submissão, mas que era de paciência.

O silêncio era tão absoluto que dava para ouvir a respiração pesada do garanhão. Então, sem que ninguém visse o momento exato, o animal parou de bater as patas. As orelhas, que estavam murchas e coladas ao crânio, se ergueram lentamente. Corisco balançou a cabeça e avançou um passo. Depois mais um. E mais um.

Ele encostou o focinho no ombro dela. Soltou um bufo quente que sacudiu a gola da camisa de Clara.

A moça estendeu a mão, sem pressa, e tocou a testa do animal. Depois, o pescoço. Ele não se moveu. Ela então fez o que todos consideravam suicídio: sem sela, sem cabresto, cravou os dedos na crina farta, impulsionou o corpo e montou.

Ninguém piscava. Vicente deu um passo à frente, a boca entreaberta.

Corisco caminhou. Primeiro em círculos, com as passadas largas e elegantes da raça, como se carregasse uma rainha. Clara o guiava apenas com o peso do corpo. O animal quebrou em frente, deu meia-volta e parou exatamente na frente do patrão.

A vaqueira desmontou com a mesma calma com que entrou. Só então se virou e disse, com a voz um pouco trêmula, mas as mãos firmes:

— Puxa a crina, Seu Vicente.

Ele franziu a testa.

— Puxa pra trás, aqui, ó.

Irritado com a petulância, o fazendeiro agarrou os pelos grossos e puxou. Foi quando viu. A cicatriz. Uma ferida feia, disfarçada pela cabeleira escura, bem atrás da orelha, uma lesão profunda que nunca cicatrizou direito porque as cabeçadas e os arreios ficavam esfregando ali, dia após dia. A cada tentativa de domá-lo, um choque de dor. Um suplício que o cavalo vinha aguentando calado, até explodir em fúria.

— Meu Deus… — murmurou o veterinário, já ajoelhado na lama e examinando o local.

— É por isso que ele não deixava ninguém encostar — disse Clara. Ela respirou fundo, a chuva misturada ao suor no rosto. — Ele não é traiçoeiro. Ele só estava tentando se proteger. Vocês todos queriam dobrar um bicho machucado na base da porrada.

Aquilo foi um soco no estômago de cada um. O pátio virou um velório. Ninguém ria.

Vicente encarou a moça por um longo minuto. A chuva engrossou. Ele então tirou o chapéu de feltro, o mesmo que usava havia vinte anos, e o segurou contra o peito.

— Você podia ter pedido minha fazenda, menina — a voz saiu rouca. — Todo esse gado. E me pediu só um emprego e meu respeito. — Ele fez uma pausa, vendo a chuva escorrer pelo rosto dela. — Pois o respeito você já tem. E o emprego… você vai ser minha mão direita nesse haras. Chefe de equipe. A partir de hoje, ninguém toma decisão sobre esses animais sem falar com você antes.

Os vaqueiros se entreolharam, estupefatos. O pai de Clara chorava baixinho perto da porteira.

Clara não sorriu, não desviou o olhar. Ela manteve a mão direita pousada no pescoço de Corisco, sentindo a pele quente e o tremor do animal aos poucos se aquietar. Depois, olhou para Vicente.

— Depois a gente conversa sobre o cargo, Seu Vicente. Agora, me dá licença. Um cavalo com dor, não.

E sem esperar resposta, ela puxou suavemente a crina do garanhão e o conduziu de volta ao estábulo, os dois desaparecendo na garoa, quietos como se fossem da mesma espécie.

Vicente ficou parado, o chapéu molhado na mão, a água escorrendo pelo rosto. Alguma coisa no peito dele se apertou. Ou se soltou. Ele não soube dizer.

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