O Segredo Sob as Patas do Trovão

Seu Cícero acordava antes do sol toda santa manhã. O café coado no pano, a broa de fubá e o lampião aceso até o galo cantar. A pequena fazenda em Passa Quatro, sul de Minas, tinha mais bicho do que gente, e ele gostava assim. Mas entre as galinhas ciscando, os cachorros vira-latas e as vacas leiteiras, quem realmente dividia a alma com o velho era um cavalo.

Trovão. Um mangalarga marchador de pelo castanho-escuro, quase preto quando suava. Cícero o viu nascer numa noite de temporal, ajudou a romper a bolsa, secou o potrinho com palha e esteve ao lado dele nos três primeiros dias, quando o bicho fraquejava nas pernas e mamava de duas em duas horas. Onze anos se passaram. Trovão reconhecia o chiado da bota do dono no cascalho a cinquenta metros. Encostava o focinho no ombro do velho, bufava baixinho e fechava os olhos. Era mais do que um animal de lida — era parceiro de silêncio.

Por isso, naquela quarta-feira de julho, Cícero não desconfiou de nada.

Abriu a porta da cocheira com o balde de ração na mão esquerda. Um cheiro forte de alfafa e terra molhada subiu do chão batido. O lampião balançou no gancho da parede.

— Bom dia, meu nego véio — murmurou ele, a voz rouca.

O cavalo não relinchou de volta.

Ficou parado no fundo da baia. A cabeça erguida. As orelhas deitadas para trás como duas setas apontando o perigo. As narinas dilatadas, abertas num buraco escuro que cheirava o ar em golfadas.

O velho franziu a testa.

— Que foi, bicho?

Cícero deu dois passos. O cavalo bateu a pata dianteira no chão — um golpe seco que fez a lâmpada tremer. Depois soltou um relincho agudo, estranho, quase um grito, e recuou o corpo como quem vai dar um bote. Cícero nunca tinha visto aquilo. Em mais de uma década, Trovão jamais mostrara os dentes pra ele.

O coração do velho deu um salto, mas a mão continuou firme no balde.

— Calma, menino…

Foi o suficiente. O cavalo empinou.

Cícero viu o peitoral musculoso subir bem acima da sua cabeça. As patas dianteiras cortaram o ar e desceram com tudo contra a madeira ao lado dele. Uma tábua rachou no meio. Estilhaços voaram. Antes que o velho pudesse recuar, o corpo de seiscentos quilos do animal se projetou para frente e o prensou contra a parede da baia.

O impacto esvaziou os pulmões do homem. As costelas gritaram. Ele sentiu o cheiro de suor animal, o pelo áspero, a pressão esmagadora do osso do peito do cavalo contra o seu esterno. As ferraduras tilintaram perto da sua cabeça. Um coice ali e era caixão fechado.

— Trovão, pelo amor de Deus…

Mas o cavalo parecia possuído. Relinchava, jogava a cabeça, batia com os cascos nas laterais da baia como se quisesse derrubar o mundo. A poeira subiu, grossa. Os olhos do bicho estavam arregalados, mas não de raiva. Era outra coisa — Cícero, no meio do pânico, não soube nomear. O velho tentou se esgueirar pela fresta entre o lombo do animal e a divisória de madeira. A camisa rasgou. Ele raspou as costas num prego enferrujado, gemeu de dor e conseguiu deslizar para fora. Saiu de quatro, engatinhando na palha suja. Quando alcançou a porta, puxou a tramela com força e se jogou no terreiro.

O baque do próprio corpo no chão de terra foi abafado pelo som dos cascos destruindo o que restava da parede interna.

O peão Zé Pedro chegou correndo, descalço, uma enxada na mão.

— Ô, seu Cícero, que diabos foi isso?!

O velho tremia. O lábio inferior sangrava, mordido. Ele só balançou a cabeça.

— O cavalo endoidou, Zé. Endoidou de vez.

A notícia se espalhou pelo vilarejo antes do almoço. Na venda do Ari, na porta da igreja, na fila do posto de saúde — Trovão tinha atacado o dono. Quase matou o velho Cícero. Alguns falavam em raiva, outros em tumor na cabeça, tinha até quem sugerisse coisa feita, mandinga, mau-olhado. A veterinária chegou no fim da tarde. Doutora Márcia examinou o animal à distância, com um bastão de contenção, enquanto o cavalo bufava e andava em círculos, nervoso, batendo as patas como um touro antes da carga. Pupilas normais. Sem espuma na boca. Sem febre. Sem histórico de doença neurológica. Ela receitou um calmante na água, mas não soube explicar o surto.

Dois dias se passaram.

Trovão não deixava ninguém entrar na cocheira. Ficava postado na entrada, as orelhas em pé, o corpo tenso. Zé Pedro tentou se aproximar com uma vara de mamona para cutucar a porta, e o cavalo deu um coice que arrancou uma lasca de meio metro da ombreira. Ninguém mais chegava perto.

Na manhã do terceiro dia, Cícero sentou na beirada da cama, enfiou as mãos nos bolsos da calça de brim e olhou para a fotografia amarelada da esposa, dona Lourdes, falecida havia oito anos. Ela segurava a cabeça do potrinho castanho, ainda sem nome, na estrebaria. A mesma estrebaria. O mesmo chão.

Ele tomou a decisão com o peso de uma bigorna no peito. Iria sacrificar o animal. Não podia manter um cavalo que tentara matá-lo. Se fosse outra pessoa no lugar dele — uma criança, um neto de visita — o estrago estaria feito. Era uma questão de responsabilidade. Ligou para o veterinário de Itajubá, o que fazia eutanásia de grandes animais, e agendou para a manhã seguinte.

Dormiu mal. Sonhou com relinchos e olhos arregalados.

Antes das cinco, com o céu ainda roxo, Cícero calçou as botas e atravessou o quintal. Ia se despedir. Precisava ver o bicho uma última vez, mesmo que fosse pela fresta da janela. A geada branca cobria o capim. O silêncio da madrugada era tão absoluto que ele ouvia o próprio pulso nas têmporas.

A vinte metros da cocheira, parou.

Havia um som.

Um som que não era cavalo.

Algo fino, intermitente, abafado. Um choro.

Cícero chegou mais perto. O cavalo relinchou baixinho, um som quase triste, e bateu a pata no chão. Não no centro da cocheira — no canto. Junto ao monte de feno. No mesmo lugar onde estilhaçava a madeira no dia do ataque. O velho sentiu o sangue gelar. Correu para a porta dos fundos da estrebaria, aquela que dava para o pasto, e entrou por trás. Trovão não o atacou. O cavalo olhou para ele e depois voltou a bater a pata no canto. Toc-toc. Toc-toc. Como quem bate numa porta.

O choro vinha de baixo.

Debaixo do piso.

Debaixo das tábuas.

Cícero se ajoelhou na palha e encostou o ouvido na madeira. O som era claro agora — uma criança. Soluçava, chamava pela mãe, a voz fraquinha, quase sumindo.

— Tem alguém aí?! — gritou o velho. — Quem tá aí?!

Uma pausa. Depois, uma resposta miúda:

— … tô com fome…

O coração de Cícero explodiu. A voz era de menino. Pequeno. Quatro, cinco anos, no máximo.

— Segura aí, filhinho, o vô vai te tirar!

Ele gritou por Zé Pedro. Gritou pelo caseiro, pela vizinha, por quem pudesse ouvir. Em minutos, juntou gente com pé de cabra, corda e um trator emprestado. Levantaram as tábuas podres do canto da cocheira — aquelas que ninguém mexia havia décadas, as mesmas que Trovão arrebentava com os cascos. E lá estava.

Um poço.

Antigo, abandonado, coberto apenas por uma tampa de madeira que o tempo e a umidade tinham carcomido. A boca escura. Seis metros de profundidade. E no fundo, um menino.

O filho caçula de Joaquim, o tratorista. Pedrinho, de cinco anos. Tinha sumido havia três dias. A polícia revirou a zona rural inteira. Buscaram no rio, no mato, na estrada. Cães farejadores. Helicóptero da capital. Ninguém tinha olhado debaixo da cocheira. Ninguém, exceto o cavalo.

O menino tinha ido brincar de esconde-esconde com o irmão mais velho e caído pela tampa podre. Por um milagre, não quebrou nada — só arranhões, fome e um susto que levaria anos para sair dos olhos. O resgate foi rápido. O Corpo de Bombeiros de Itanhandu chegou em vinte minutos. Quando o menino emergiu do buraco, sujo de barro e tremendo de frio, a mãe desabou no chão. O pai chorava manso, sem fazer barulho, como homem do campo chora.

Cícero não viu nada disso. Ele estava dentro da baia.

O cavalo o esperava. Parado. Calmo. As orelhas relaxadas. Os olhos escuros, profundos, como se contivessem todo o silêncio do mundo.

O velho entrou devagar. Pôs a mão trêmula no pescoço suado do animal. Sentiu os músculos relaxarem sob seus dedos. O cheiro bom de crina e de alfafa. O bafo quente que ele conhecia desde o primeiro dia de vida.

— Você tava me salvando… — sussurrou. — Todo esse tempo, você tava me salvando daquele buraco.

Trovão bufou. Encostou o focinho no ombro do velho e fechou os olhos. Como sempre fazia.

Lá fora, a sirene da ambulância cortava o ar da manhã. Os vizinhos se abraçavam. Alguém rezava uma Ave-Maria em voz alta. A geada começava a derreter sob o primeiro sol.

Dentro da cocheira, um homem de sessenta e oito anos abraçava um cavalo e chorava sem pressa nenhuma de soltar. Os dois ficaram assim. Na palha. Na poeira que assentava devagar. Nas tábuas arrancadas que revelaram um segredo de morte e, no fundo dele, uma vida.

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O Segredo Sob as Patas do Trovão