Eu era o veterinário que estava jantando sozinho na mesa do canto, perto da saída de emergência. O restaurante era aquele tipo de lugar em Curitiba que tenta imitar uma trattoria italiana, mas com preço de rodízio premium e iluminação tão amena que você não vê direito nem o que está comendo. Eu estava ali porque minha última paciente do dia, uma border collie atropelada na Linha Verde, tinha sobrevivido à cirurgia, e eu queria um vinho tinto e um nhoque ao molho quatro queijos para comemorar. Não para comemorar o atropelamento — ninguém comemora um atropelamento —, mas para respirar depois de seis horas em pé.

A festa da empresa ocupava o salão principal. Coisa de umas quarenta pessoas, talvez mais, todas com crachá no peito e aquele sorriso de quem está sendo avaliado até na hora de pegar uma coxinha. Eu não prestei atenção no começo. Só reparei no casal quando a mulher entrou. Ela passou pela porta giratória como se não estivesse entrando num restaurante, mas num tribunal. Passos medidos, coluna reta, um vestido escuro que não era preto, mas também não queria ser azul. A mulher tinha um rosto que, se você visse na rua, não lembraria. A não ser que olhasse duas vezes — aí perceberia que ela não era bonita, era calma. E calma de um jeito que assusta.

Eu sei reconhecer isso porque trabalho com animais assustados. Um gato que se finge de morto, um pitbull que desvia o olhar antes de morder, um papagaio que repete «oi, lindo» trezentas vezes enquanto belisca a gaiola. Aprendi que os bichos mais quietos são os que estão arquitetando alguma coisa. Um coelho manso pode comer o filhote se sentir que o espaço é pequeno demais. As pessoas não são tão diferentes assim.

Ela passou por mim a caminho da mesa do canto, e eu senti um perfume que não era perfume — era cheiro de sabonete de hotel caro. Ele vinha atrás, o marido, um sujeito de terno azul-marinho que parecia ter sido passado às pressas, conversando no celular com alguém. Ele não segurou a porta para ela. Não tocou nas costas dela, não sorriu. Só indicou a mesa com o queixo, como se mostrasse um box para um cavalo.

Sentei de frente para o salão e pedi o vinho. O garçom trouxe uma garrafa de um chileno que eu não conhecia — 68 reais, o preço estava na comanda — e eu fiquei ali, esquentando a taça na mão, enquanto a festa começava a engrenar. Discursos, brindes, aquele barulho de talher caindo e gente rindo alto demais. O marido falava com todo mundo, menos com a mulher. Ela bebia água sem gás. Água. Numa festa de empresa com open bar de caipirinha e espumante nacional. Uma hora, me deu vontade de mandar uma taça de vinho para ela, mas me segurei. Veterinário não é psicólogo.

Aí começou o tal jogo. Um animador magro demais, com uma camisa que devia ser branca uns três anos atrás, montou um quiz de casais. O microfone falhava a cada três palavras — *tréc* — e as pessoas aplaudiam quando alguém acertava. Coisa simples: «Qual o prato favorito da sua esposa?», «Qual o maior medo do seu marido?». Eu continuei comendo meu nhoque, que estava bom demais para um lugar com toalha de papel, mas não desgrudei o olho da mesa do canto.

Quando chegou a vez do marido responder sobre a esposa, o clima mudou. Não sei se todo mundo percebeu, mas eu percebi. Porque eu olhava para ela, não para ele. E ela não gesticulou. Não sorriu, não franziu a testa, não moveu um músculo do rosto enquanto ele errava o filme favorito dela. Ele disse «comédia romântica». Ela não piscou. Ele disse «azul» como a cor preferida. Ela continuou imóvel. O animador perguntou qual era o livro de cabeceira dela. O homem suou. Ele olhou para o teto, olhou para o prato, olhou para a mulher — e aí, só aí, ela mexeu a cabeça. Meio centímetro para a esquerda. Um não minúsculo, um não tão educado que doía de ver.

Eu tinha visto aquilo antes. Uma lhasa apso que eu atendi no começo do ano, da Dona Vera. A cadela tinha piometra e precisava de cirurgia urgente. A Dona Vera ficou parada, do mesmo jeito que aquela mulher, enquanto eu explicava o risco. Não chorou, não perguntou, não esperneou. Só anotou o valor — oitocentos e vinte reais —, fez um Pix e disse «pode operar». Depois, quando a cadela saiu da anestesia, a Dona Vera pegou a bichinha no colo e sussurrou uma coisa que eu não entendi, mas que fez a cachorra abanar o rabo pela primeira vez em dias.

Aquela mulher do restaurante não ia sussurrar nada. Eu pressentia.

Depois do fiasco do quiz, ela se levantou para o brinde. Foi um movimento tão limpo que até um gato teria inveja. O marido olhou para ela como quem olha para um vazamento no teto: sabia que algo estava errado, mas ainda não sabia o tamanho do estrago. Ela pegou a taça de água — água sem gás — e esperou. O animador fez uma piada sobre «o mistério das esposas», mas ninguém riu. O restaurante ficou quieto. Até o pianista parou de tocar «Garota de Ipanema» e ficou com os dedos no ar.

Ela falou. A voz dela era mais grave do que eu esperava. Não tremia.

— Boa noite. Meu nome é Helena. Sou casada com o Frederico há dezessete anos.

Ela virou a cabeça para ele, e o homem gelou. Eu vi o gelo. A veia do pescoço dele saltou, a mão dele apertou o guardanapo como se fosse uma corda.

— E quero propor um brinde — continuou ela. — À mulher de vestido vermelho que está sentada três mesas atrás de mim.

A mulher de vermelho era uma morena de cabelo alisado e batom escuro que tinha rido alto demais o jantar inteiro. Ela estava com a taça a meio caminho da boca. A taça parou no ar. O restaurante todo virou uma estátua. O garçom que estava servindo água na mesa do lado deixou o jarro entornar sobre a toalha e nem percebeu.

— Ela sabe escolher vestidos — disse Helena, e aí olhou para o Frederico. — Você tem razão. O vermelho caiu muito bem nela.

Ninguém tossiu. Ninguém moveu uma cadeira. O pianista enfiou as mãos nos bolsos. O marido estava branco. Não branco de pálido, branco de quem acabou de ver o raio-X do próprio pulmão.

— Não precisa se preocupar — disse ela, ainda segurando a taça. — Não vou fazer barraco. Só quero que todos aqui sirvam de testemunha.

Ela largou a taça sobre o prato com um clique que ecoou no salão. Depois enfiou a mão na bolsa, uma bolsa pequena que eu nem tinha notado, e tirou de dentro um papel dobrado em quatro. Ela estendeu para o marido.

— É o distrato da sociedade da clínica veterinária.

Aí eu entendi. A clínica. Frederico era o dono da VetBatel, uma rede pequena que tinha três unidades na cidade. Eu conhecia de nome. Ele usava a grana da clínica para bancar os jantares com a morena de vermelho, e a Helena trabalhava lá, nos fundos, cuidando do financeiro, do RH, das contas que ninguém queria olhar. Uma vez, um colega comentou que a VetBatel só não quebrou na pandemia porque a esposa reprogramou todo o fluxo de caixa sozinha, de madrugada, enquanto o Frederico jogava golfe no Alphaville.

— Você vai ficar com a sua parte — continuou ela, ainda de pé. — Vinte e dois por cento. O resto é meu. Sempre foi, mas agora está no papel.

Ele pegou o documento. Não abriu. Só ficou olhando para o logotipo no alto da página, um gato e um cachorro desenhados em linha fina, como se lesse um atestado de óbito.

— Ah, e mais uma coisa, Fred — ela ajeitou a alça da bolsa no ombro. — A Mel está comigo. Eu a peguei na sua mãe antes de vir.

A Mel era a golden retriever deles. Eu não sabia disso, mas deduzi. Porque ela sorriu quando disse o nome. Um sorriso inteiro, que ocupou o rosto, e era o primeiro sorriso real daquela noite.

Ela saiu. Não correu. Não bateu a porta. Passou por mim, e o perfume de sabonete de hotel caro veio junto, só que agora eu senti um cheiro de chuva misturado, de roupa que secou no varal. A porta giratória deu duas voltas e parou. Pela vidraça, eu vi um carro — um Renegade branco — com uma golden de focinho apoiado no vidro traseiro. A Mel abanou o rabo quando a Helena entrou no carro. Um abano que fazia o corpo inteiro balançar.

Dentro do restaurante, ninguém se mexia. O Frederico continuava com o papel aberto, olhando para o desenho do gato e do cachorro. A mulher de vermelho já não estava mais lá. Descobri depois que ela era a gerente de marketing da clínica. Pediu demissão dois dias depois. Ouvi dizer que foi trabalhar numa pet shop na Santa Felicidade.

Pedi a conta. O vinho saiu por 68 reais, o nhoque por 79, mais 15% de serviço. Deixei 190 na mesa com a nota fiscal e saí. Na calçada, o ar frio de maio batia no rosto, e eu fiquei pensando numa coisa que a minha avó dizia, lá de Guarapuava: «Cachorro entende o que a gente sente, gato entende o que a gente finge». A Helena não tinha nem cachorro nem gato ali — só uma taça de água e um documento dobrado. Mas ela entendeu tudo.

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Eu era o veterinário que estava jantando sozinho na mesa do canto, perto da saída de emergência. O restaurante era aquele tipo de lugar em Curitiba que tenta imitar uma trattoria italiana, mas com preço de rodízio premium e iluminação tão amena que você não vê direito nem o que está comendo. Eu estava ali porque minha última paciente do dia, uma border collie atropelada na Linha Verde, tinha sobrevivido à cirurgia, e eu queria um vinho tinto e um nhoque ao molho quatro queijos para comemorar. Não para comemorar o atropelamento — ninguém comemora um atropelamento —, mas para respirar depois de seis horas em pé.