Duzentas e quatorze fotos no rolo da câmera do aniversário

Duzentas e quatorze fotos. Naquela noite, quando finalmente se jogou na poltrona reclinável com as pernas dormentes, Marisa contou as fotos que tinha tirado na festa de sessenta anos do pai. Duzentas e quatorze, e em nenhuma delas aparecia ela rindo de verdade.

O salão de festas da Paróquia Santa Cruz, na Zona Leste de São Paulo, cheirava a carne na brasa e a milho assado. Tinham alugado o espaço por seiscentos reais, com bandeirinhas de São João sobrando do mês passado penduradas entre as vigas e uma caixa de som Bluetooth emprestada do vizinho, que falhava a cada dez minutos. Seu pai, seu Raimundo, vestia a camisa social branca que as irmãs tinham dado de presente, e quando o trio de forró começou a tocar "Asa Branca", ele fechou os olhos e balançou os ombros no compasso, desajeitado, feliz, sem saber que a filha caçula o filmava de três ângulos diferentes.

— Anda um pouco pra esquerda — dizia Marisa pra tia Conceição —, você tá tapando o bolo.

Seu irmão Edson, que tinha dirigido quatro horas desde Campinas com a esposa e os dois filhos, chegou perto com um prato de carne de sol com macaxeira e colocou na mão dela.

— Larga esse celular um pouco, irmã. Come alguma coisa.

— Já vou, só quero o vídeo de quando ele apagar as velinhas.

Ele não disse mais nada. Foi sentar perto das crianças, que corriam atrás de um vira-lata que tinha entrado pela porta dos fundos. Marisa nem percebeu. Estava ajustando o brilho da tela porque as luzes do salão estragavam o vídeo.

Quando o pai apagou as velinhas — um bolo gigante de leite ninho, comprado na padaria da Avenida Itaquera por cento e vinte reais —, todo mundo bateu palmas. Todos, menos ela, que estava com o celular colado no rosto e o polegar tremendo sobre o botão de gravar, tentando segurar a imagem firme.

Foi a prima Yara quem a tirou dali, sem querer. Yara não tinha levado o celular aquela noite; tinha deixado de propósito no carro, dizia, porque "senão a gente perde a festa vendo ela numa telinha". Chegou perto de Marisa com dois copos de suco de caju e falou:

— Você já viu que seu pai tá chorando?

Marisa baixou o celular. E lá estava seu Raimundo, com os olhos brilhando, apertando a mão do compadre Zé Fidêncio, aquele que tinha ajudado ele a arrumar emprego na marcenaria há trinta e dois anos, quando chegou do interior de Pernambuco sem dinheiro e sem conhecer ninguém na cidade. Os dois homens não falavam nada. Só apertavam as mãos, e o queixo de seu Raimundo tremia.

Marisa tinha o vídeo. Tinha salvo, sim, em algum lugar entre as duzentas e quatorze fotos. Mas não tinha visto aquilo. Não com os próprios olhos, sem vidro no meio.

Guardou o celular no bolso de trás da calça. Foi o gesto mais simples do mundo, e, mesmo assim, custou, como se o aparelho tivesse um ímã grudado na palma da mão.

Sentou do lado do pai. Não disse nada. Só segurou a outra mão dele, a que não estava ocupada com a de Zé Fidêncio, e ficou ali, sentindo o pulso dele, velho e teimoso, batendo sob a pele curtida de tantos verões carregando madeira na obra.

A banda tocou "Qui Nem Jiló". O pai se levantou, cambaleante pelas duas latas de Brahma que tinha tomado, e puxou a esposa, dona Zuleide, que aguentava havia quarenta anos o ronco e as cantorias desafinadas no banho, pra dançar. Dançaram mal, torto, pisando um no pé do outro. E Marisa riu — riu de verdade, com a barriga toda, de olhos fechados por um segundo —, e ninguém filmou. Ficou só ali, no ar do salão, misturado com o cheiro de milho e o barulho das cadeiras de plástico arrastando no piso frio.

No dia seguinte, quando foi revisar as fotos pra mandar pra família no grupo do WhatsApp, Marisa percebeu uma coisa estranha: entre as duzentas e quatorze imagens, quase todas tremidas, mal enquadradas, com o dedo tapando metade da lente em pelo menos umas dez, não tinha nenhuma em que ela aparecesse se divertindo. Estava sempre atrás do aparelho. Presente no lugar, ausente no momento.

Guardou o celular numa gaveta naquela tarde — um gesto tão pequeno que nem ela mesma deu importância no começo — e pegou a caixa de sapato onde a mãe guardava as fotos reveladas dos anos noventa, de quando ela era criança. Fotos desfocadas, mal iluminadas, com metade das pessoas fora do quadro. Mas em cada uma dava pra notar algo que as duzentas e quatorze fotos digitais não tinham: as pessoas estavam ali. Encarando a câmera só por um instante, e o resto do tempo, vivendo.

Três semanas depois veio o batizado do filho de Edson, na mesma paróquia. Marisa levou o celular, claro, porque ninguém deixa de ser quem é da noite pro dia. Mas dessa vez deixou guardado na bolsa quase a cerimônia toda. Tirou cinco fotos, só cinco, e tirou rápido, quase de cabeça, sem ficar conferindo na hora. Depois sentou do lado do pai de novo, no mesmo banco de madeira com o verniz descascado, e viu como seu Raimundo segurava o neto no colo com as mãos tremendo de nervoso e de alegria.

Quando a missa terminou, Zé Fidêncio chegou perto.

— Seu pai me contou do aniversário — disse. — Falou que dessa vez você estava ali de verdade.

Marisa não soube o que responder. Ficou olhando as mãos de Zé Fidêncio, curtidas igual às do pai, dois homens que tinham levantado casas dos outros por décadas pra pagar o aluguel das próprias.

Naquela noite, no apartamento de dois quartos na Zona Leste, revisou de novo as duzentas e quatorze fotos do aniversário. Apagou cento e oitenta. Ficou com as que realmente importavam: o pai apagando as velinhas, os pais dançando torto, Zé Fidêncio com a mão apertada. E mandou imprimir essas trinta e quatro fotos numa loja de revelação da Avenida Radial Leste, quarenta e cinco reais, pra colocar num álbum de verdade, desses com páginas de papelão e cantoneiras de plástico.

Quando levou o álbum pro pai no domingo seguinte, ele folheou devagar, sentado na varanda de casa, com o sol de São Paulo descendo entre os postes da rua. Parou na foto em que aparecia com Zé Fidêncio, de mãos apertadas.

— Dessa aqui eu nem lembro de ter posado — disse seu Raimundo.

— Essa foi a única que eu vi de verdade, pai.

Ele não entendeu direito o que ela quis dizer, mas deu uma risada curta, sem cerimônia, e continuou passando as páginas, enquanto o cachorro do vizinho latia ao longe e o cheiro de churrasco de alguma laje por perto entrava pelas grades da varanda.

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