— A senhora ligou esse aquecedor de novo? Vai sobrecarregar a instalação elétrica inteira! Juliana jogou o pano de pratos na pia com um gesto brusco. A cozinha estava quente, com cheiro de ovos fritos e pão fresco. Na porta, Dona Lourdes se encolhia ainda mais dentro do xale de lã puído.
— Estou com frio, filha — respondeu ela baixinho.
— Então se agasalhe mais!
— Não tem mais o que vestir. — Lourdes passou a mão pelo casaco de tricô. — De noite a temperatura caiu pra quatro graus lá no fundo. Dá pra ver o vapor da respiração. Não dormi nada.
Ricardo apareceu de trás do balcão da cozinha. O genro terminava um pão com manteiga, olhando para a sogra sem o menor traço de compaixão.
— Dona Lourdes, pensa bem — disse ele, engolindo o último pedaço, com um gesto displicente da mão. — A conta de luz desse mês veio um absurdo. — Empurrou o banquinho e se aproximou. — A gente não é rico pra ficar esquentando o quintal. O financiamento da casa ainda não terminou, o carro também tá no consórcio. E esse seu aquecedor fica a noite toda ligado puxando energia.
Lourdes se aproximou da mesa em silêncio e sentou na pontinha da cadeira. Um ano atrás tudo era diferente. Aquela era a casa dela. Uma casa de alvenaria espaçosa, que ela e o marido, já falecido, levaram quase dez anos construindo em Caruaru. Depois a filha começou a insistir cada vez mais. Juliana chorava, reclamava de falta de dinheiro, pedia pra morarem juntas. E logo vieram as conversas sobre a doação do imóvel.
— Mãe, a gente é uma família só. Por que ficar correndo em cartório depois? Melhor resolver tudo agora e a senhora continua morando tranquila o tempo que precisar. A gente cuida da senhora, não vai faltar nada.
E Lourdes acreditou. Passou a casa pra filha. Três meses atrás, Ricardo decidiu fazer uma reforma — justo no quarto de Lourdes. Todas as coisas dela foram transferidas às pressas pro puxadinho dos fundos, aquele que servia de depósito de verão.
— Mãe, aguenta só mais duas semaninhas — animava Juliana na época. — Lá tem aquele sofá bom. A gente vai colocar piso aquecido, papel de parede novo. Vai ficar maravilhoso!
Mas a obra parou assim que arrancaram o revestimento velho das paredes. Ricardo alegava cansaço do trabalho. Juliana dizia que material de construção tinha ficado caro demais. No fim, Lourdes continuou morando no puxadinho gelado, onde a única proteção contra o frio eram paredes finas de compensado. A única salvação era um aquecedor elétrico antigo, da década de oitenta, com a resistência vermelha incandescente — justamente o que o genro agora queria proibir.
— Ricardo, aquilo é um puxadinho de verão — disse Lourdes calmamente, olhando pra ele. — Tem fresta que passa o dedo. Não fechei o olho a noite toda. As costas ficam doendo do frio.
— Mãe, para de drama — Juliana virou os olhos, irritada. Abriu a torneira, deixando claro que a conversa já a entediava. — Tem gente que vive em condição pior — acrescentou mais alto, por cima do som da água. — A senhora mesma passou a casa pra nós. Que reclamação é essa agora? Quem decide aqui somos nós. Nós decidimos quando continua a obra e quanto se gasta com luz. Nosso orçamento já tá todo comprometido.
Lourdes ergueu o olhar lentamente.
— Então vocês não vão terminar a reforma do meu quarto?
— Com que dinheiro? — Ricardo resmungou, juntando as migalhas da mesa e jogando no lixo. — Quando esquentar a gente continua. Agora tudo tá caro, cimento principalmente. Por enquanto, desliga esse aquecedor de noite. Com três cobertores a senhora não vai morrer de frio. Até médico fala que dormir no frio é mais saudável.
Dona Lourdes não se justificou nem discutiu. Sem dizer mais nada, levantou da cadeira e saiu pro quintal. O ar gelado cortou o peito na hora. A neve — não, a geada fina cobria o chão, e a botina de frio rangia a cada passo. A mulher se encolheu. Voltar pro puxadinho não dava a menor vontade — lá fazia mais frio ainda que na rua.
Foi até o muro. Nesse momento a vizinha Dete limpava as folhas secas do portão com um rastelo.
— Oi, Lourdinha! — chamou ela, apoiando no cabo da ferramenta e batendo a terra da luva. — Você tá branca assim, tá doente?
— Só gelada mesmo, Dete — respondeu Lourdes baixinho, ajeitando o xale. — De noite fez um frio desses.
— De novo dormiu no puxadinho? — a vizinha balançou a cabeça, reprovando. — Eu vejo a luz acesa lá até de manhã. A senhora não se cuida não? A casa é grande, de dois andares! Os jovens que fiquem no frio, se quiserem tanto assim.
— Tão reformando meu quarto. Tá difícil pra eles agora. Tudo ficou caro, material de construção principalmente.
— Difícil pra quem? Pro seu Ricardo? — Dete deu uma risadinha. — Ontem mesmo eu vi o entregador trazer uma caixa enorme pra ele. Bem colorida. Meu nieto disse na hora: console de videogame. — Baixou a voz. — Coisa cara, Lourdinha. Bem cara. Meu nieto pediu um igual, fomos ver o preço com meu marido e quase caímos pra trás. E seu genro, aí sim, tá sem dinheiro?
Lourdes não respondeu nada. Ficou um vazio amargo por dentro. Então pra um brinquedo caro tinha sobrado dinheiro. Pra diversão tinha sobrado. Mas pra um rolo de papel de parede simples, uma lata de tinta pro quarto dela, ou pra pagar a luz do aquecedor velho — aí não tinha.
Passou o dia inteiro sentada no puxadinho gelado. Não ligou o aquecedor por princípio. Decidiu economizar energia pro genro. Só esperou a noite chegar. O frio entrava pela roupa. Os dedos quase não dobravam. Lourdes se cobriu com um segundo cobertor, mas quase não ajudava — as paredes já estavam congeladas por dentro.
Quando escureceu, Juliana e Ricardo voltaram. Ouviu-se o rangido do portão, depois a risada alta do genro. Da cozinha veio o tilintar de pratos — a filha arrumando a mesa. Lourdes se levantou devagar, tirou o cobertor extra dos ombros e entrou na casa principal.
No corredor espaçoso tinha um cheiro gostoso de carne assada com alho. — E aí, Dona Lourdes, aguentando? — Ricardo saiu da cozinha com uma caneca na mão. — Amanhã dizem que vai esquentar. Só sete graus. A gente passa dessa!
— Ricardo, eu não vou mais dormir no puxadinho.
— Como assim isso? — O sorriso desapareceu do rosto dele na hora.
— Isso mesmo — respondeu Lourdes com calma, desamarrando o xale. — Hoje já volto pro meu quarto.
— Mãe, tá falando sério? — Juliana saiu correndo da cozinha com a concha na mão. — Lá tá tudo em obra, chão de cimento cru, sujeira de construção por todo lado! Como a senhora vai morar aí?
— Eu limpo. Estendo o tapete velho.
— Não! — Ricardo bateu a caneca na mesinha com força. O chá derramou pela borda. — Lá tem material guardado! Ferramenta, saco de massa, coisa cara. Vai estragar tudo! Eu falei, a reforma é no calor. Então é no calor!
— Então vou dormir na sala. No sofá novo de vocês.
Juliana levantou as mãos, desesperada. — Mãe, imagina! A gente pagou uma fortuna por esse sofá! A senhora vai suja tudo com a roupa do puxadinho, em dois dias o sofá fica imundo!
— Então, deixa eu entender: vocês dormem quentinhos no sofá novo, e eu numa caixa de compensado?
A voz de Lourdes saiu baixa, mas firme.
— A gente trabalha! — gritou Ricardo, nervoso. — A gente chega cansado o dia inteiro! A gente precisa de condição decente pra descansar. A senhora fica em casa o dia todo. Dá pra aguentar um pouco, pela própria filha.
Lourdes olhou pra ele por um bom tempo. Depois virou o olhar pra Juliana. A filha desviou rápido e ficou olhando o chão. Não teve coragem de contrariar o marido. Nem de defender a mãe.
— Tá bem — disse Lourdes, calma, indo pra porta. — Eu aguento.
Voltou pro puxadinho. Ficou sentada muito tempo no sofá velho, o estofado afundado no meio. O ar gelado queimava o rosto. Nem a bota de frio salvava os pés. O aquecedor antigo zumbia esforçado, a resistência vermelha mal iluminava o cômodo, mas o calor escapava pelas frestas na mesma hora. Lourdes não chorou. Já não tinha mais lágrima. Só entendeu, de vez, o que tinha se tornado dentro daquela casa que construiu com as próprias mãos. Gente de sobra. Peso desnecessário que só existia porque vinha junto com a casa, como um apêndice.
De manhã, esperou os dois saírem. A porta bateu, o motor do carro ligou no portão, e logo o ronco se perdeu na rua. Lourdes vestiu o casaco mais quente que tinha. Não tinha muito tempo. Entrou na casa principal com a chave antiga dela. Dentro estava quente, silencioso, com aquele cheiro de difusor caro. A mulher foi direto pra sala espaçosa. Lá tinha um sofá grande e claro, no chão um tapete creme bem fofo, nas janelas cortinas pesadas novas que Juliana mandara fazer há pouco tempo.
Voltou pro puxadinho. Com esforço, levantou o colchão pesado de algodão, carregou devagar até a casa, parando pra descansar em quase cada degrau da entrada. Depois arrastou até a sala e estendeu bem no meio do tapete claro. Em seguida começou a trazer o resto. Os cobertores de lã velhos. O travesseiro de pena, na fronha já desbotada. As chinelas gastas. Peça por peça, aquelas coisas foram aparecendo no centro da sala toda decorada, desfazendo completamente o visual impecável do ambiente. Por último trouxe o aquecedor velho. Colocou perto do sofá caro e ligou na tomada mais próxima. Depois foi até a cozinha. Tirou a panela de feijoada do dia anterior da geladeira, pôs direto sobre a mesinha de centro laqueada, e ao lado deixou um pedaço de pão mordido, sobre um guardanapo.
Depois disso, Lourdes se deitou no colchão, se cobriu com o cobertor pesado, e pela primeira vez em três meses dormiu em paz, com verdadeiro calor.
Foi um grito que a despertou.
— Mas o que é isso?! — Na porta da sala estava Ricardo, ainda de jaqueta, sem ter tido tempo de tirar. O rosto cheio de manchas vermelhas de raiva. Atrás dele, Juliana parada, sem reação, a chave do portão caída no chão.
Lourdes se sentou devagar no colchão e ajeitou o cabelo.
— Boa noite.
— Mãe, o que a senhora fez aqui?! — Juliana correu até a mesinha ainda de bota. — Pôs a panela direto na madeira! Vai ficar mancha de gordura! A gente esperou um mês por essa mesa!
— Então limpa, filha. O pano tá na cozinha.
— Dona Lourdes, retira isso tudo agora mesmo! — Ricardo deu um passo pra frente, punhos cerrados. — Eu não vou deixar transformar minha casa num cortiço! Pega suas coisas e vai!
— Sua casa? — perguntou Lourdes, tranquila. — No papel é nossa, da Juliana comigo!
— Certo. — Ela assentiu. — Então me tira daqui.
Ricardo ficou sem reação.
— Como assim?
— Pega e me arrasta pra fora daqui. Pelo colarinho, do jeito que quiser. Põe a sogra na geada de inverno. Vai. Que foi, parou por quê? A Dete tá aí mesmo limpando a entrada do portão. Deixa ela ver como os novos proprietários tratam os velhos.
O genro respirava pesado, sem falar nada.
— E amanhã eu convido minhas amigas — continuou Lourdes, sempre no mesmo tom. — A Ivone e a Dona Benedita. Vamos tomar café bem aqui nesse tapete. Vou fazer bolo. Vou picar repolho nessa mesinha de centro.
— Mãe, por que isso? — Juliana quase chorava, limpando a mesa com a manga da jaqueta, sem sucesso. — A gente vai passar vergonha na frente de todo mundo.
— E eu não tô com vergonha. Tô com frio. — Lourdes se levantou. — Eu fico aqui. Vou dormir aqui, comer aqui, ver televisão aqui. Até meu quarto ficar decente pra morar.
— Reforma não se faz num dia! Eu trabalho! — Ricardo perdeu a calma.
— Eu não preciso de reforma cara. — Ela olhou direto nos olhos dele. — Preciso de parede quente e aquecimento. Amanhã você limpa o quarto, tira o entulho, compra o piso mais simples que tiver e coloca. E põe um aquecedor decente.
— Não tem dinheiro pra aquecedor! Salário só sai em duas semanas!
— Então devolve pra loja o console de videogame que chegou ontem.
Ricardo congelou. Juliana virou pro marido, surpresa.
— Que console? Você falou que não teve bônus esse mês…
Lourdes já nem estava mais ouvindo. Voltou a se cobrir e virou de lado, de frente pra parede.
— Dou dois dias pra vocês — disse ela, calma. — Senão chamo a Dete pra tomar café aqui. E na primavera ainda planto mudas bem nesse peitoril da janela de vocês.
Atrás dela ouviu-se a respiração pesada de Ricardo, depois os passos apressados de Juliana. A porta da sala bateu.
Uma semana depois, Dona Lourdes já morava de volta no quarto dela. No chão, um piso laminado simples, com aquele cheiro de material novo. As paredes continuavam sem papel de parede, só o reboco grosseiro mesmo. Mas embaixo da janela esquentava um aquecedor novo, potente. O quarto ficou quentinho e aconchegante.
Juliana e Ricardo quase não se falavam mais com ela. Andavam pela casa em silêncio, evitando cruzar o caminho da sogra. O genro cumprimentava seco, sem levantar os olhos, e ia direto pro quarto. A filha também evitava encontrar a mãe à toa.
Isso já não incomodava mais Lourdes. Ela não sentia culpa nenhuma. Tirou o xale velho dos ombros, dobrou com cuidado e guardou na prateleira mais alta do armário. Até o inverno chegar de novo, com certeza não ia precisar dele.
![]()












