Os passos de dona Ivone eu reconhecia de longe, mesmo de dentro do apartamento, mesmo com fone de ouvido. Quarto andar, sem elevador, prédio dos anos oitenta na Zona Norte de Porto Alegre. Ela subia rápido, pulando degrau, parava só no segundo andar pra respirar, e seguia. Sempre no mesmo ritmo, como se tivesse ensaiado.
Eu e o Gustavo nos casamos há três anos e viemos morar nesse dois quartos perto da Avenida Assis Brasil. Não era grande coisa — infiltração no teto do banheiro, chuveiro que demorava pra esquentar — mas era nosso. Montei meu cantinho de trabalho perto da janela: notebook, mesa digitalizadora, uma caneca de café que nunca esfriava a tempo. Sou ilustradora freelancer, faço capa de livro e identidade visual pra pequenas marcas. Trabalho em casa, prazo em cima, cliente no WhatsApp cobrando.
O Gustavo é veterinário, trabalha num hospital 24 horas perto do Partenon. Passa plantão de doze, vinte e quatro horas, chega em casa exausto e dorme o resto do dia. A mãe dele, dona Ivone, ficou viúva há quatro anos e mora a duas paradas de ônibus daqui. Desde então ela decidiu que minha vida precisava de supervisão diária. Tinha chave do apartamento — ideia do próprio Gustavo, "pra emergência" — e usava isso todos os dias, logo depois do almoço.
Bastava ouvir aquele passo na escada que eu já salvava os arquivos. Não dava mais pra render o resto da tarde.
Teve uma quarta-feira em que eu tinha três entregas pra fechar: identidade visual de uma marca de móveis, catálogo e logo. Estava concentrada escolhendo a paleta de cor certa, mordendo a tampa da caneta, quando ouvi o barulho conhecido na escada. Parada no segundo andar. Subida de novo.
Dona Ivone chegou com uma sacola enorme. Marmita de carreteiro, pão caseiro, uma vitamina de frutas. Pousou tudo na mesa da cozinha e já foi direto passar o dedo na estante acima da pia. Tinha poeira, claro.
— Filha, trouxe o carreteiro. Você comeu hoje?
Eu tinha comido, sim. Pão com queijo de manhã, e ia esquentar o resto do jantar de ontem no almoço. Mas explicar não servia de nada. O roteiro era sempre o mesmo. Ela abriu o armário e começou a reorganizar os potes de mantimento. Arroz pra cima, feijão pra baixo, farinha no canto. Essa era, pra ela, a única ordem certa.
— Por que está tudo fora do lugar? Eu arrumei isso há pouco tempo.
Sim. Pouco tempo. E antes daquilo também, e antes ainda. Toda vez que ela ia, eu desarrumava de volta pro meu jeito. Toda vez ela voltava e remontava tudo, com a mesma calma, como se não houvesse outra possibilidade no mundo.
Depois ela foi até o quarto que eu usava como estúdio. Viu o projeto aberto na tela.
— De novo nos seus desenhinhos. Isso é trabalho? Trabalho de verdade é sair de casa, ter chefe, receber salário todo mês fixo. Isso aí é mais um hobby.
Já tinha desistido de explicar que trabalho remoto é trabalho igual. Dava no mesmo que explicar pra um gato por que existe aspirador de pó. Ela olhava pro meu computador com aquela pena de quem está diante de alguém muito doente.
Mas naquele dia aconteceu uma coisa diferente. Fui até o armário, com ela ainda ali, e desarrumei tudo de novo, na hora, na frente dela. Arroz pra baixo. Feijão no meio. Sem gritar, sem discutir.
— Dona Ivone, assim fica mais fácil pra mim.
Ela me olhou fixo. Sacudiu a cabeça devagar. Alguns minutos depois, foi embora.
Voltei pro trabalho, mas não conseguia me concentrar. Não era raiva. Era mais estranhamento — pela primeira vez eu tinha feito algo do meu jeito, mesmo que fosse só a arrumação de uns potes.
À noite o Gustavo chegou do plantão. Contei o que tinha acontecido. Ele ficou girando o botão da manga da camisa, calado um instante, e soltou a frase de sempre:
— Mari… a mãe só se preocupa. Ela fica muito sozinha.
Depois ele ligou pra ela. Eu, no quarto, ouvi a voz da dona Ivone no viva-voz.
— Eu faço isso por vocês, Gustavo. E ela nem um "obrigada" me dá. Fica calada, calada…
Uma semana depois eu peguei uma gripe forte. Febre, garganta em fogo, corpo mole. O Gustavo conseguiu sair mais cedo, passou na farmácia, trouxe remédio, fez caldo de galinha e deixou do lado do sofá. Passou a mão no meu cabelo. Ele é um homem bom. Bom demais, talvez.
Foi exatamente nessa hora que a porta abriu. Dona Ivone, com uma sacola ainda mais pesada que o normal. Caldo caseiro, um pote de mel, meia de lã. Me viu largada no sofá, viu o Gustavo na cozinha, e deu aquele sorriso de quem finalmente confirmou tudo que já suspeitava. Sem nem tirar o casaco, agarrou o balde e começou a passar pano no chão.
Fiquei escutando o pano bater no piso. Depois ela trocou os lençóis da nossa cama. Ninguém tinha pedido. Abriu a geladeira, olhou por um tempão, e chamou o filho em voz alta, com tom de promotora de justiça:
— Gustavo! Vem aqui. Olha a geladeira, vazia. Essa menina não cozinha nada. Você deve andar passando fome.
O Gustavo ficou parado na porta da cozinha, puxando a manga da camisa. Eu via tudo do sofá. Nariz arrebitado, sardas no rosto, cara de quem queria desaparecer. E ficou calado.
— Eu faço isso por vocês — ela continuou, tirando as compras da sacola. — Olha ela aí, doente, e a casa sem comida. Dá pra viver assim?
Me deu uma vontade de vomitar. Não era a febre. Era um peso enorme no peito. Levantei devagar, joguei o cobertor pro lado.
— Eu só estou gripada — falei, calma. — A gente se resolve. Obrigada pela preocupação, dona Ivone, mas agora eu preciso descansar.
Acompanhei ela até a porta. Bem tranquila, quase gentil. Abri, esperei. Ela olhou pra mim, depois pro filho. O Gustavo desviou o olhar. Ela saiu sem dizer nada.
Foi aí que me ocorreu, pela primeira vez: trocar a fechadura leva poucas horas.
Dois dias ela não apareceu. No terceiro, voltou como se nada tivesse acontecido.
Passou mais uma semana. A meu pedido, o Gustavo falou com a mãe. Pediu pra ela ligar antes de vir. Ela concordou, meio sem vontade. Ele respirou alto de alívio.
Voltei ao trabalho. Fechando a identidade visual de uma rede de cafeterias, prazo apertado. Fone no ouvido, projeto pronto na tela, café frio na mesa junto com rascunhos rabiscados.
De repente o interfone tocou. Longo, insistente. Olhei o relógio: uma e meia da tarde. Não tinha dúvida de quem era. Com o fone, não ouvi passo nenhum na escada. Só podia ser ela. O Gustavo tinha pedido pra ligar antes. Então ela estava "ligando" — só que direto na campainha da porta.
Fiquei sentada. Mais alguns segundos, tocou de novo. Depois bateram. Silêncio. Pensei que ela tinha desistido e ido embora. Mas, em vez do som de passos se afastando, ouvi outra coisa. Um clique na fechadura. Curto. Bem conhecido.
Virei na cadeira. A maçaneta baixou. A porta abriu. Dona Ivone entrou com a mesma segurança de sempre, como em casa própria. Pendurou a bolsa no cabide, tirou o sapato, me olhou.
— Você não escutou nada? Toquei um tempão. Ainda bem que trouxe a chave.
Foi direto pra cozinha. Examinou a pia, apertou a esponja. Voltou pra onde eu estava e olhou minha mesa de trabalho.
— De novo no computador. E essa desordem. Olha pra você: cabelo desarrumado, roupa de ficar em casa… O Gustavo já tá chegando…
— Dona Ivone — falei, sem alterar a voz. — Por favor, deixe a chave em cima do aparador.
Ela me olhou, surpresa.
— Mariana… você está falando sério?
— Totalmente. Deixe a chave. Hoje vamos trocar a fechadura. E não precisa vir amanhã. Nem depois de amanhã. Se quiser aparecer, me liga antes. No telefone. Pergunta se é um bom horário. A partir daí, a gente se entende numa boa.
Ela ficou calada alguns segundos. Depois calçou o sapato, pegou a bolsa do cabide. E saiu.
No mesmo dia chamei o chaveiro. Ele veio na hora, trocou a fechadura inteira, cilindro novo, chave nova. No fim da tarde fiz uma cópia pro Gustavo e deixei o manual e a nota fiscal do serviço guardados numa pasta transparente no primeiro gaveteiro da cozinha, junto com os outros papéis do apartamento. Só existem dois jogos agora: o meu e o do Gustavo.
Dona Ivone não voltou mais sem avisar. Liga só pro filho. Reclama pras amigas, conta pra quem quiser ouvir que a nora a expulsou de casa. O Gustavo, no começo, ficou constrangido, evitava tocar no assunto. Uma noite, sentado na beira da cama, perguntou se eu não achava que tinha sido dura demais.
— Fui educada — respondi. — Só parei de pagar o preço de uma chave que nunca devia ter saído da minha mão.
Ele não respondeu nada. No dia seguinte, quando a campainha tocou de novo depois do almoço, ninguém abriu a fechadura por fora. Só o interfone, chamando, sem resposta, até ficar quieto outra vez. Eu continuei sentada na minha mesa, fone no ouvido, projeto na tela, aproveitando o som mais bonito que existe: silêncio no corredor.
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