A Isadora do Itaim que fez Rogério Bastian esperar seis anos
Rogério Bastian tinha trinta e quatro anos, três novelas no currículo e uma casa em condomínio fechado em Alphaville. Naquela sexta-feira de outubro, preferiu qualquer coisa a ficar em casa vendo jogo sozinho, e foi ao aniversário de um amigo produtor, num bar de Pinheiros com ar-condicionado ligado demais e uma fila de gente querendo tirar foto com ele assim que ele tirava o casaco.
Estava encostado no balcão, uísque na mão, quando viu a mulher atravessar o salão lotado carregando duas taças de espumante — uma para ela, outra para a amiga presa numa roda de conversa do outro lado. Ela passou entre três grupos de gente sem esbarrar em ninguém, sem parar para cumprimentar quem não conhecia, os olhos fixos nas taças como se fossem a única coisa importante daquela noite.
— Quem é ela? — perguntou Rogério para o amigo produtor.
— Isadora. Trabalha numa churrascaria no Itaim, garçonete. Veio de penetra com a Carla.
Ele mandou o amigo chamá-la para a mesa. Ela veio, mas não sozinha — trouxe a amiga junto, sentou de lado, cruzou as pernas e só então aceitou a taça de espumante que alguém empurrou na sua direção. Passaram quase três horas ali, discutindo sobre nada e sobre tudo. Rogério tentou adivinhar de onde vinha aquele sotaque que não era carioca nem paulista, um jeito de esticar as vogais que ele não sabia de que cidade de Minas vinha.
— Fazenda de café, perto de Manhuaçu — ela disse, quando ele perguntou pela terceira vez de forma disfarçada. — Aposto que você nunca ouviu falar.
— Nunca. Fica onde isso?
— Perto de nada que você conheça.
Quando o bar fechou, ele convidou o grupo para continuar a noite lá em casa. Isadora pegou a bolsa, calçou o sapato que tinha tirado debaixo da mesa e chamou um Uber pelo celular, ali mesmo, na frente dele.
— Fica mais um pouco — ele disse.
— Entro às seis na churrascaria amanhã. Sábado é o dia mais pesado.
— Troca de turno com alguém.
— Ninguém troca sábado por ninguém.
Ela não respondeu mais nada. Deu tchau para a amiga, um aceno rápido para ele e saiu pela porta de vidro sem deixar telefone, sem deixar sobrenome completo. Rogério ficou parado olhando o Uber partir, o copo de uísque suando na mão, e só então percebeu que não tinha nem perguntado o nome da churrascaria.
Passou a semana seguinte ligando para o amigo produtor tentando arrancar informação, e o que descobriu foi pouco: ela trabalhava na churrascaria havia quatro anos, fazia curso técnico de manhã, morava dividindo apartamento em Moema, não tinha Instagram público. Foi até lá num domingo, sentou numa mesa perto da janela e pediu picanha que mal tocou. Isadora atendeu três mesas antes da dele, e quando finalmente chegou para anotar o pedido, fingiu não reconhecê-lo.
— O senhor quer a picanha ao ponto ou bem passada?
— Isadora, sou eu.
— Eu sei quem o senhor é. Ao ponto ou bem passada?
Ele voltou mais quatro vezes naquele mês. Na segunda vez, ela derramou o suco de laranja de propósito perto do prato dele e disse que tinha sido sem querer. Na terceira, aceitou sentar cinco minutos no intervalo — e passou o tempo todo olhando o relógio da parede, não o dele. Na quarta vez, ele chegou com um buquê de flores compradas numa banca perto do Itaim, e o gerente da churrascaria, um homem de bigode grosso chamado Osmar, tirou ele quase pela gola.
— Aqui não é hora de assédio a funcionária, moço, famoso ou não.
Isadora, do outro lado do salão, viu a cena inteira e não fez nada para ajudar — só limpou uma mesa que já estava limpa, esperando ele sair.
O que mais intrigava Rogério não era a resistência dela — era que ela não parecia impressionada com nada daquilo. Não com as flores. Não com as duas vezes que alguém pediu foto com ele no meio do restaurante, atrapalhando o serviço dela. Não com o carro importado estacionado em cima da calçada, que o manobrista da churrascaria vigiava como se fosse dele.
Foi só na quinta visita, num dia de chuva fraca em que quase nenhuma mesa estava ocupada, que ela sentou de frente para ele, pela primeira vez sem bandeja na mão.
— Você não desiste — ela disse.
— Não com você.
— Sabe que eu limpei apartamento em Moema por dois anos antes disso aqui? Que faço curso técnico de manhã e carrego bandeja de picanha até uma da madrugada seis dias por semana? Você tá acostumado com mulher que tem tempo pra namorar ator.
— E você tá acostumada a decidir isso por mim antes de eu abrir a boca.
Ela ficou calada por um instante, batendo a caneta contra o bloquinho de anotar pedidos, e depois riu — baixo, sem graça, como quem se pega no erro.
— Tô com medo de gostar de alguém que vai embora quando a novidade passar.
— Então testa. Se eu enjoar, você volta pra bandeja sem perder nada.
O primeiro encontro fora da churrascaria foi numa quinta-feira, numa cantina simples no Bixiga. Ela escolheu o lugar.
— Não gosto de restaurante chique. A comida vem pequena e a conta vem grande.
Ele riu e concordou, e passou o jantar inteiro tentando pagar a conta sem que ela percebesse, e não conseguiu — ela puxou a maquininha da mão do garçom antes dele.
Namoraram um ano e meio antes de Isadora aceitar sair da churrascaria — Osmar chorou no último dia de trabalho dela, dizendo que nunca mais ia arrumar garçonete que não errasse pedido. Ela foi trabalhar numa produtora de eventos pequena, indicada por uma cliente da churrascaria que tinha virado amiga com o tempo, e demorou mais dois anos até se sentir segura o bastante para apresentar Rogério à família em Manhuaçu.
A visita à fazenda de café não foi fácil. O pai de Isadora, homem calado que media as palavras como quem mede grão, olhou para o carro importado estacionado no meio da terra batida e não disse nada durante o almoço inteiro. Só à noite, sentado na varanda, perguntou direto:
— O senhor pretende ficar com minha filha depois que a novidade da fazenda passar, ou isso é história pra revista?
— Pretendo casar com ela, seu Alceu. Só ainda não tive coragem de pedir.
Isadora, escutando da cozinha, quase deixou cair a bandeja de doce de leite que carregava.
Em 2019 nasceu Théo. Rogério pediu Isadora em casamento só em 2022, e demorou porque levou o anel dentro do bolso por três semanas antes de juntar coragem — tinha medo de que ela dissesse que ainda era cedo, que a fazenda e a churrascaria e a bandeja pesada demoravam a sair de dentro dela. No Natal daquele ano, depois da ceia na casa dos pais dela em Manhuaçu, ele foi atrás dela até o quintal, onde as galinhas ciscavam perto do galinheiro e o cheiro de café torrado ainda vinha da cozinha. Ajoelhou entre as fezes de galinha, sujando a calça, e abriu a caixinha. Nesse instante o cachorro do vizinho começou a latir feito louco, e Isadora, tentando responder que sim, só conseguiu rir — uma risada alta, que ela tapou com as duas mãos, enquanto balançava a cabeça de cima para baixo porque a voz não saía.
Casaram em junho de 2023, cerimônia pequena em Alphaville, quarenta convidados e uma mesa de doces mineiros que a mãe dela fez com as próprias mãos, embrulhados em papel celofane, porque não confiava em buffet de festa para doce de verdade. Osmar foi convidado e chorou de novo, dessa vez sem reclamar de pedido errado. Sete meses depois nasceu Bento.
Hoje moram numa casa de dois andares em São Paulo. Tocam juntos um instituto que dá bolsa de curso técnico para jovens do interior de Minas — a mesma trajetória que ela fez sozinha, agora com apoio, com mensalidade paga e vale-transporte incluído.
Foi só no ano passado, numa entrevista para um podcast, que Isadora contou por que fugiu dele daquela primeira noite, antes mesmo de ele descobrir onde ela trabalhava.
— Não foi frescura, nem jogo de cintura — ela disse, rindo já antes de terminar a frase. — Eu tinha reunião de fechamento de evento corporativo às sete da manhã de sábado. Não ia perder minha reunião por causa de um ator bonito que nem sabia meu sobrenome direito.
Rogério, ao vivo, largou o microfone no colo e riu tanto que a produção teve que cortar para o intervalo.
![]()












