A poeira do campo da Vila Esperança ainda não tinha assentado quando o Zé Roberto Falcão desceu da Hilux e pisou o terreno como se fosse dono daquele pedaço de mato na periferia de Caruaru. Era sábado, quatro da tarde, sol de rachar, e ele trazia debaixo do braço um maço de notas de cem que ninguém ali tinha visto de uma vez só na vida.
Falcão era dono de três postos de gasolina e de uma rede de lavanderias, mas o que ele gostava mesmo de fazer nos fins de semana era rodar os campinhos de terra batida da região catando garoto bom de bola pra depois vender pros clubes da capital. Cobrava uma comissão gorda por isso. E tinha fama de humilhar quem não entrava no seu jogo.
Daquela vez, o alvo foi o Tiago.
Doze anos, chuteira furada no bico, meia caída, camisa do Sport desbotada de tanto lavar à mão. Morava com a avó, dona Creuza, numa casa de dois cômodos perto da linha do trem, porque a mãe tinha ido trabalhar em São Paulo e o pai nunca apareceu. Os meninos do time do Vila Esperança não perdoavam: chamavam ele de "pé-de-pano", riam da chuteira, riam da calça curta.
Falcão bateu o maço de notas na terra, perto da marca de cal que servia de meio-campo.
— Esse aqui é pra quem fizer um gol lá da linha do meio. De primeira, sem embaixadinha, sem gracinha. Direto pro gol. — Ele apontou pra trave do outro lado, uns trinta metros adiante, com a rede toda rasgada de um lado. — Quem fizer, leva os oitocentos reais. Quem não fizer… bom, eu já sei quem não vai fazer.
E apontou o queixo pra Tiago.
Risada geral. Um dos garotos, o Robertinho, filho do dono do mercadinho da esquina, cutucou o amigo e gritou:
— Deixa o Tiago tentar, seu Falcão! Vai ser rápido assim! — e estalou os dedos.
— Com essa chuteira ele nem chuta até a metade do campo — emendou outro, o Gutinho.
Tiago não respondeu. Ficou ali, parado, fitando a nota de cem que tremia um pouco com o vento, meio enfiada na terra seca. Oitocentos reais. Dona Creuza devia dois meses de aluguel. A conta de luz tinha vindo com aviso de corte. E ele sabia, melhor que ninguém, o que aquele dinheiro significava.
Falcão riu, satisfeito com a própria armadilha.
— Pode escolher qualquer um pra chutar primeiro. Mas duvido que alguém acerte.
Três meninos tentaram antes. O primeiro mandou a bola pra fora, bem longe, quase bateu numa galinha que cruzava o campo. O segundo nem alcançou a altura do gol, a bola rolou e morreu na metade do caminho. O terceiro, o Robertinho, chutou com toda força, acertou a trave — um "paaaaw" seco que ecoou — e a bola voltou quicando, zombeteira, pro meio do campo.
Foi aí que Tiago deu um passo pra frente.
— Deixa eu tentar, seu Falcão.
O homem passou os olhos por ele de cima a baixo, como quem avalia um cachorro vira-lata.
— Você? — E soltou uma risada curta, seca. — Vai, moleque. Pelo menos vai servir de ensaio pra eu ver como não se faz.
Os garotos fizeram coro de risadas. Alguém gritou "vai cair de bunda, pé-de-pano!" e mais risos.
Tiago não respondeu a ninguém. Ajeitou o cabelo encaracolado com a mão suja de terra, respirou fundo e fixou o olhar na trave rasgada, do outro lado daquele campo que ele conhecia de cor — porque era ali, sozinho, nas tardes em que a avó ia lavar roupa pra fora, que ele treinava desde os sete anos, sem técnico, sem time, sem ninguém pra ver.
Um silêncio estranho desceu sobre a Vila Esperança. Até os cachorros pararam de latir.
Tiago deu três passos pra trás. Fechou os olhos por um instante — só um instante — e abriu de novo, fixo na trave. Correu. E, no momento em que o pé tocou a bola, o som que saiu não foi o "toc" de uma bola qualquer: foi um estalo seco, cheio, do tipo que só sai quando a canela encontra o centro exato da bola, com a força certa, no ângulo certo.
A bola subiu baixa, cortando o ar numa curva quase reta, passando raspando por cima do monte de terra que servia de "meio-campo visual", e foi morrer dentro do gol, no ângulo esquerdo, batendo na rede rasgada com um som de corda de violão arrebentando.
Gol.
Ninguém disse nada por três segundos inteiros. Nem Falcão.
Foi dona Creuza — que tinha vindo correndo da casa, descalça, achando que era alguma confusão — quem gritou primeiro, as duas mãos na boca. Depois os próprios meninos que riam, agora de boca aberta, começaram a gritar e correr em direção a Tiago, que ficou ali parado, de braços caídos, sem saber comemorar porque nunca tinha tido motivo pra comemorar nada daquele tamanho.
Falcão ficou olhando pra trave, depois pra bola parada dentro do gol, depois pra Tiago. O queixo tenso.
— Foi sorte — falou, baixo, quase pra si mesmo.
— Faz de novo então — disse Robertinho, ainda abismado, mas já do lado de Tiago. — Faz de novo, seu Falcão deixa.
Falcão não deixou. Catou o maço de notas no chão, contou de novo como se recontar fosse mudar o resultado, e entregou — meio trêmulo, meio contrariado — os oitocentos reais na mão do menino, sem olhar pra ele.
— Pega e vai embora.
Mas Tiago não foi embora. Ficou parado com o dinheiro na mão, encarando a avó, que chorava no meio do campo com o avental ainda sujo de sabão. E foi ali, antes mesmo de guardar o dinheiro no bolso, que ele disse a frase que os moradores da Vila Esperança repetiriam por anos:
— Isso aqui é pra pagar o aluguel. O resto eu ainda vou ganhar jogando, seu Falcão. Sem o senhor precisar apostar nada.
Falcão subiu na Hilux sem responder. Mas três semanas depois, mandou o motorista entregar um cartão com o nome de um olheiro do Sport Club do Recife e um bilhete: "Teste marcado pra sexta. Não foi sorte."
Dona Creuza guardou aquele bilhete na Bíblia, do lado da foto da filha em São Paulo, e nunca mais precisou se preocupar com conta de luz.
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