Eu administro um canil comunitário em Maragogi, perto das piscinas naturais, há nove anos. Cuido de vinte e três cachorros resgatados, três gatos que ninguém adotou e um papagaio chamado Joaquim que grita "sai fora" sempre que alguém levanta a voz dentro do abrigo. Conto isso porque foi justamente o Joaquim quem gritou aquilo, bem alto, no dia em que Rogério decidiu que eu não precisava mais ir à viagem que eu mesma tinha organizado.
— A Marlene vai pro Nordeste, e o Theo se vira no sítio da avó mesmo — foi o que ele falou, sentado na cozinha, mexendo no celular, nem olhando pra mim.
Eu estava terminando de preparar a papinha de ração pros filhotes recém-chegados, três que tinham sido abandonados numa caixa de sapato na BR-101. Parei a colher no ar.
— Repete isso.
— Minha mãe precisa de clima quente, o médico falou que é bom pros ossos dela. A pousada em Porto de Galinhas já tá paga. Pra quatro pessoas ia ficar caro demais, eu já endividei o cartão. O Theo com sete anos nem vai lembrar dessa viagem daqui a dois anos. No sítio ele brinca com os bichos, pega fruta no pé, respira ar puro. O que mais uma criança precisa?
Eu não gritei. Já sabia, há três semanas, que ele ia dizer alguma coisa parecida.
Foi quando usei o notebook dele pra imprimir a ficha de vacinação de um dos cachorros e esqueci de sair do e-mail dele — não, mentira, foi ele que deixou aberto, com pressa pra sair pra treino. A primeira mensagem na caixa de entrada era de uma agência de turismo de Recife: "Alteração de passageiro confirmada." O anexo mostrava, sem rodeios, que do nosso dinheiro guardado pra reformar a varanda — dinheiro que eu também trabalhei pra juntar, vendendo filhote de vira-lata caramelo e dando banho em cachorro de vizinho nos fins de semana — tinha saído uma quantia enorme pra trocar o nome do passageiro. No lugar do Theo, agora constava Marlene Aparecida, minha sogra.
Não fiz escândalo. Fechei o notebook, fiz um café, sentei na varanda olhando os cachorros brincarem no quintal cercado. Depois peguei meu cartão.
— Rogério, a gente combinou outra coisa. — Falei baixo. — Juntamos dinheiro o ano inteiro pra essa viagem. O Theo marcava os dias no calendário da cozinha. Contou pra escola inteira que ia andar de avião por primeira vez.
— Ele vai superar.
Dona Marlene apareceu na porta da cozinha naquele instante, como se tivesse ensaiado a entrada. Blusa florida, batom vermelho forte, um anel grande no dedo — parecia mais pronta pra um coquetel do que pra tratamento de artrose.
— Meu filho tem toda razão, Fernanda. — Ela sempre chamava errado meu nome de propósito; sou Neuza, não Fernanda, mas isso é outra história. — Criança em viagem só dá trabalho. Quer beber, perde o chapéu, quer colo. Que descanso é esse? O Rogério trabalha demais, precisa relaxar sem correr atrás de menino na praia.
Olhei do Rogério pra mãe dele e de volta. Ele estava curvado, mas ao lado dela parecia maior, mais seguro de si.
— E quando exatamente vocês iam me contar isso? Amanhã, no balcão do aeroporto de Maceió? "Surpresa, viajamos sem o Theo, chama sua mãe pra buscar ele"?
O pescoço do Rogério ficou vermelho. Ele odiava quando eu falava assim, sem levantar a voz — porque cada palavra calma pesava mais que grito.
— Já tá decidido. Minha mãe vem com a gente e ponto final. Eu sou quem decide aqui, Neuza, não vem com cena.
— Não vou fazer cena nenhuma.
Peguei a mochila do Theo, que já estava arrumada no corredor desde a semana anterior, com o avião de brinquedo que ele ganhou de aniversário enfiado no bolso lateral.
— Theo, vem, filho, vamos sair.
Ele saiu correndo do quarto, descalço, abraçado ao avião.
— Mãe, já vamos pro aeroporto?
— Vamos pra casa da tia Socorro primeiro. Calça o tênis.
Dona Marlene torceu o nariz.
— Vai levar o menino pra onde essa hora da noite? O voo é só de manhã, deixa ele dormir direito.
— Vamos agora mesmo — respondi, calçando a sandália.
Rogério ficou confuso, qualquer resquício de confiança dele tinha desaparecido.
— Neuza, o que você tá planejando? Pra que sair agora?
— Vou levar o Theo pra passar uns dias na casa da minha irmã, já que ele vai ficar sem a viagem mesmo. Amanhã saio direto de lá pro aeroporto. A gente se encontra no check-in.
Rogério relaxou visivelmente. Já se preparava pra briga, lágrimas, ameaça de separação. Mas a esposa parecia tranquila. Achou que eu tinha engolido, como sempre.
— Ótimo, então. — Ele até sorriu, aliviado. — Viu, mãe? Eu disse que a Neuza ia entender. Dirige com cuidado. A gente se vê amanhã, oito horas, no balcão da companhia.
— Claro — respondi, e fechei a porta.
O terminal de Maceió estava cheio naquele sábado de manhã, com o anúncio de embarque se repetindo no alto-falante e um vento gelado vindo do ar-condicionado batendo direto nos passageiros que esperavam na fila. Rogério checava o celular pela décima vez, nervoso. Dona Marlene, ao lado dele, apoiava a mão numa mala nova, vestida com um linho claro e um chapéu enorme de palha.
— Cadê ela? — Rogério guardou o celular no bolso. — O check-in já abriu, a fila vai ficar enorme.
— Falei que ela sempre se atrasa. — A sogra ajeitou o chapéu. — Devia ter ido só nós dois, deixava a passagem dela pra próxima temporada e curtia sossegado. Eu precisava mesmo é de um sol pra esquentar essas juntas.
— Mãe, para com isso. Já foi difícil o suficiente resolver tudo.
Foi nesse momento que uma figura conhecida apareceu no meio dos passageiros. Neuza caminhava decidida, puxando uma mala pequena, e ao lado dela o Theo arrastava uma mochila em formato de tucano que ela tinha comprado especialmente pra essa viagem.
Rogério congelou. O sorriso sumiu.
— Neuza… por que o Theo tá aqui?
Ela parou a um passo dele. Sem raiva no rosto, sem mágoa aparente.
— Porque ele vai viajar pra praia, sim.
Rogério olhou pro balcão de check-in, aflito.
— Você enlouqueceu? — Aproximou-se, sussurrando. — A gente conversou isso ontem! Ele não tá na reserva! Troquei o nome dele pelo da minha mãe, já expliquei! Não vão deixar vocês embarcarem!
Dona Marlene se aproximou também.
— Neuza, isso já passou dos limites. Pra que trazer essa criança até aqui, só pra mandar ele voltar? Devolve os documentos pro Rogério e chama um táxi pra levar o menino de volta.
Theo se encostou mais na mãe, assustado.
— Eu não quero voltar sozinho.
Neuza apertou a mão do filho com firmeza.
— Com licença, pode me ajudar um minuto? — chamou a atendente do balcão.
Sem conseguir se controlar, Rogério foi correndo até o guichê, quase derrubando um homem com mochila de surfista.
— Por favor, verifica nossa reserva. Rogério Albuquerque, Neuza Albuquerque e Marlene Albuquerque.
A atendente digitou os dados com calma.
— Sim, aqui está. Três passageiros confirmados. Pode me entregar os documentos, por favor?
Rogério olhou pra esposa, triunfante.
— Ouviu? Três pessoas. Já chega de teatro. Me dá os documentos, tá atrasando a fila.
— Você tem razão. — Neuza tirou o próprio RG da bolsa. — São três passageiros mesmo. — Deu um passo pra trás. — Só que eu não sou um deles.
Rogério ficou paralisado, com a mão estendida.
— Como assim, não é?
— Simples. — Neuza puxou da mochila dois comprovantes de viagem impressos. — Ainda bem que, três semanas atrás, acabei vendo seu notebook aberto. Enquanto você preparava essa surpresa pra mim, eu também me preparei. Saquei exatamente minha metade do dinheiro da conta conjunta, somei com o décimo terceiro que acabei de receber do canil — e deu certinho pra cobrir uma viagem pro Theo e pra mim.
Ela balançou levemente os bilhetes.
— Eu e o Theo vamos pra Fernando de Noronha. Nosso embarque é em uma hora e meia, outro portão.
Dona Marlene arregalou a boca.
— Você… sacou dinheiro da conta do casal?
— Só a minha parte. Tudo certo pelo extrato.
Neuza encarou a sogra com tamanha calma que a mulher deu um passo atrás, sem querer.
— E a gente fica como agora? — O rosto de Rogério ficou vermelho. Ele tentou pegar os bilhetes, mas Neuza já tinha guardado de volta.
— Vocês aproveitam a viagem do jeito que planejaram. — A voz dela continuava firme, sem irritação. — Suíte pra duas pessoas, praia quentinha, sol pra tratar o reumatismo, aproveitem a tapioca de coco da região. Ninguém vai incomodar, não vai precisar correr atrás de criança pela areia. Não é exatamente o descanso que vocês dois queriam?
— Neuza, volta aqui agora! — Rogério já gritava alto, chamando atenção de quem passava. — A gente pagou passagem pra três! Seu nome tá pago nessa viagem!
— Peçam reembolso pela agência. Ou aproveitem a viagem a dois. Era isso que vocês dois queriam, afinal.
Ela se virou pro filho.
— Vamos, Theo. Falta passar pela inspeção ainda.
— Espera! — Rogério virou pra mãe, sem esconder a raiva. — Isso é culpa sua! Você destruiu minha família! — Gesticulou nervoso. — Eu avisei que ela ia descobrir e fazer esse escândalo! Falei que não devia trocar o nome escondido! Foi ideia sua!
Dona Marlene ficou vermelha na hora.
— Agora a culpa é minha? — Apontou o dedo pro filho. — Foi você que disse que ela não ia descobrir até o dia do voo! Você falou que a colocaríamos diante do fato e ela não teria escolha! Molenga, isso sim, deixando a mulher mandar em você!
Neuza já nem prestava atenção em quem tinha tido a ideia primeiro. Pegou a mão do filho e seguiu em direção ao portão de embarque dela. Atrás, ainda dava pra ouvir os dois discutindo, Dona Marlene gritando e Rogério se justificando bem na frente do balcão, sem se importar com os olhares irritados dos outros passageiros.
Duas semanas depois, Neuza estava numa rede armada entre dois coqueiros, observando o Theo construir um castelo gigante de areia molhada perto da Praia do Sancho. O mar batia devagar, o sol ia baixando no horizonte, pintando a água de dourado e rosa. Ao lado, no chão, o celular vibrou curto. Era a quinta mensagem de Rogério naquele dia.
"Neuza, chegamos. Vamos conversar. Minha mãe estragou a viagem inteira com reclamação. Volta pra casa, a gente resolve com calma."
Ela nem abriu a conversa. Deslizou o dedo e apagou o aviso. Tomou um gole de água de coco gelada, respirou o ar salgado e fechou os olhos.
O castelo do Theo estava ficando enorme. E ela, sinceramente, já não tinha mais nada pra conversar com ele.
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