Mudei de mesa em silêncio e passei a noite inteira escondendo a dor no peito.
Meu nome é Marlene, tenho sessenta e três anos e moro em Juiz de Fora, numa casa que construí com meu marido tijolo por tijolo, nos anos oitenta, num terreno que compramos economizando centavo a centavo. Meu marido, Osvaldo, morreu há oito anos, de um infarto, enquanto arrumava o telhado depois de uma chuva forte. Desde então vivo sozinha, com minhas galinhas no fundo do quintal e um pé de jabuticaba que ele plantou no ano em que nosso filho nasceu.
Criei o Rogério praticamente sem ajuda, porque o Osvaldo passava meses trabalhando em obras em Minas e no Espírito Santo. O menino cresceu me ajudando na horta, sabia catar ovo no galinheiro antes mesmo de entrar na escola, sabia o horário certo de regar as couves. Depois foi estudar em Belo Horizonte, virou analista de sistemas numa empresa grande, e há um ano casou com uma moça da capital, a Priscila.
Priscila é de família boa, cresceu em apartamento na região da Savassi, nunca pôs o pé numa roça na vida. É educada comigo, sempre foi, mas quando ela fala de restaurante japonês ou de viagem para o Nordeste, eu fico ali, sem entender metade do assunto, como se ela falasse de outro país.
O casamento foi em setembro, num bufê chique em Belo Horizonte, com decoração em tons de champanhe e uma banda tocando ao vivo. Eu usei um vestido que a Dona Zélia, minha vizinha, fez copiando um modelo de revista antiga, porque comprar um novo, numa boutique daquelas, estava fora do meu orçamento. Cheguei cedo, nervosa, deixei minha bolsa na cadeira ao lado da mesa principal, bem perto de onde o casal ia sentar.
Foi quando a Priscila veio até mim, uma lista de convidados na mão.
— Dona Marlene, com licença. A gente fez uma mudancinha de última hora. Acho que vai ser melhor a senhora ficar na mesa seis, com os parentes do interior. Vai ficar mais… tranquilo pra senhora.
Não falei nada. Peguei minha bolsa e fui.
A mesa seis estava quase embaixo da caixa de som, perto demais da banda, de um jeito que dava pra sentir a vibração do baixo no prato. Do meu lado, uns primos de segundo grau do Osvaldo que eu só tinha visto umas duas vezes na vida, lá pelos anos noventa. Fiquei a noite inteira comendo um filé que nem sentia o gosto, batendo palma nos discursos. Por dentro, me sentia como uma visita qualquer na festa do meu próprio filho.
Quando chegou a hora das danças, o mestre de cerimônias anunciou no microfone a valsa de mãe e filho. Vi as cabeças virarem na direção da mesa principal, procurando por mim ali, onde eu devia estar e não estava. Senti um aperto na garganta, aquele tipo de vergonha que dá vontade de desaparecer debaixo da toalha de mesa.
Foi então que o Rogério se levantou. Sem pressa, mas sem hesitar nem um segundo. Atravessou o salão inteiro, por entre as mesas, direto até onde eu estava, na ponta mais longe, perto da caixa de som.
— Mãe, vem. Essa dança é sua, não importa onde te sentaram.
Levantei com as pernas tremendo. Fomos até a pista, na frente de todo mundo, que foi ficando quieto, e começamos a girar devagar.
— Me perdoa pela mesa, mãe. Só fiquei sabendo vinte minutos atrás.
— Não tem problema, filho.
— Tem, sim. Mas agora você está aqui, do meu lado.
Encostei a cabeça no ombro dele, lembrando de como eu o ensinei a andar de bicicleta na estrada de terra perto de casa, segurando o guidão com as duas mãos enquanto ele gritava "solta, mãe, solta". As lágrimas começaram a cair sozinhas, sem eu nem perceber. Quando a música acabou, ele me abraçou forte e disse que, por mais que agora ele vivesse em prédio, usasse gravata e trabalhasse com computador, eu continuaria sendo a mãe dele para sempre — a mesma que catava ovo com ele no galinheiro e segurava a bicicleta na estrada de terra.
A Priscila veio até nós um pouco depois, pedindo desculpas, dizendo que não tinha percebido o tamanho daquilo pra mim. Abracei ela também, mas reparei que ela não me olhou nos olhos enquanto falava, só ficou alisando a renda da manga do vestido, como quem conserta um ponto que já sabe que não vai segurar.
Passaram-se duas semanas depois do casamento, e o episódio da mesa seis continuou pesando em mim como uma pedra no sapato, mesmo depois do abraço do Rogério, mesmo depois do pedido de desculpas da Priscila. Porque eu sabia, no fundo, que aquele tipo de decisão — me tirar da mesa principal, me empurrar pra perto da caixa de som — não nasce do nada. Alguém sugere, alguém aceita, e quem fica de fora é sempre o mesmo.
Foi numa tarde de domingo, quando o Rogério veio almoçar em casa sem a Priscila, que descobri a origem da história. Ele estava quieto, enrolando o garfo no arroz, até que falou:
— Mãe, foi a mãe dela. A Dona Helena. Ela que disse pra Priscila que "ficaria mais organizado" te colocar com os parentes do interior, porque ela já tinha reservado a mesa principal pra padrinhos dela, amigos de faculdade da Priscila, gente que ela queria impressionar.
Fiquei ali, com a colher parada no ar.
— E a Priscila topou assim, sem mais nem menos?
— Ela não enfrenta a mãe, mãe. Nunca enfrentou. Só soube da história depois, por isso te busquei na hora que vi que tinham te posto lá no fundo.
Não era falta de jeito da Priscila. Era um plano, feito por outra mulher, pra me tirar do centro da própria festa do meu filho e colocar no meu lugar gente que a Dona Helena achava mais apresentável. Fiquei quieta uns dias, decidindo o que fazer com aquilo. Porque descobri também, na mesma conversa, uma coisa que me doeu mais que a mesa: a Dona Helena tinha oferecido ajudar o Rogério e a Priscila a dar entrada num apartamento em Belo Horizonte — uns cento e trinta mil reais, de um total que passava dos quatrocentos — com a condição, nunca dita abertamente mas sempre sugerida, de que o apartamento ficasse em nome dela até o casal "provar estabilidade" — nas palavras dela mesma. Era o jeito de a Dona Helena continuar mandando na vida dos dois, do mesmo jeito que mandou na mesa do casamento.
Marquei um café com a Dona Helena, sozinha, num lugar neutro, uma padaria no Centro de Belo Horizonte. Fui com uma pasta debaixo do braço — nela, a escritura da minha casa em Juiz de Fora, e os documentos de um terreno ao lado, que comprei há alguns anos com a pensão do Osvaldo, pensando em deixar pro Rogério no futuro.
Sentei na mesa, pedi um café, e coloquei a pasta na mesa, bem devagar, entre nós duas.
— Dona Helena, a senhora decidiu onde eu me sentava no casamento do meu filho. Eu aceitei, porque não quis fazer cena no dia dele. Mas agora eu também vou decidir uma coisa.
Ela segurou a xícara com as duas mãos, sem levar à boca.
— A senhora está exagerando, Marlene. Foi só um arranjo de mesa.
— Era só uma mesa pra senhora. Pra mim foi o lugar do meu filho. Vou vender esse terreno, e com o dinheiro vou ajudar os dois a dar entrada no apartamento — sem o nome da senhora no papel. Em nome dos dois, só dos dois.
A Dona Helena abriu a boca pra responder, fechou de novo, e empurrou a xícara um dedo pra frente, sem tomar o café. Levantei, peguei minha pasta, agradeci e fui embora.
Três meses depois, o terreno foi vendido. O valor cobriu a parte que faltava da entrada, e o Rogério e a Priscila assinaram o apartamento só com os nomes dos dois, sem precisar da Dona Helena. Na primeira visita que fiz à casa nova, encontrei a Priscila sozinha na cozinha, lavando louça.
— Minha mãe não gostou nem um pouco do que a senhora fez — disse ela, sem virar.
— Eu sei.
— Mas também não gostei do que ela fez com a senhora naquele casamento. Devia ter falado isso antes.
Ficou calada um tempo, enxaguando um copo que já estava limpo. Depois fechou a torneira e me entregou um pano de prato pra eu secar a louça com ela.
Levei comigo, naquele dia, uma mudinha tirada do pé de jabuticaba que o Osvaldo plantou. Plantei num vaso de barro, perto da janela da cozinha nova, e fiquei ali olhando a terra assentar em volta da raiz.












