O Vestido da Sofia e o Celular no Fundo da Piscina

Luana jogou o celular de Beatriz direto na piscina.

A moça nem se moveu. Ficou parada ali, na borda, com o vestido verde ainda pingando do copo de espumante que tinha derramado em cima dela cinco minutos antes, olhando o aparelho afundar entre as luzes de LED da piscina do Clube Náutico, em Florianópolis. Era sábado, final de tarde, e a festa de quarenta anos de Luana Castanheira estava no auge: uns oitenta convidados, buffet de camarão, DJ tocando sertanejo universitário baixinho ainda, porque a parte boa da noite nem tinha começado.

— Agora some daqui, Beatriz. Minha festa, minhas regras.

Beatriz era a nova gerente financeira da rede de pet shops que o marido de Luana, Ricardo, tinha herdado do pai. Contratada há três meses, quieta, competente, do tipo que chega cedo e não comenta a vida de ninguém. E era exatamente essa discrição que estava deixando Luana fora de si havia semanas.

Porque Beatriz tinha encontrado uma coisa nos livros contábeis. E, em vez de sair falando, marcou uma reunião com o contador da empresa e pediu mais três dias de prazo antes de levar qualquer coisa ao conselho.

Luana descobriu da reunião por acidente — viu o nome de Beatriz na agenda do contador, no celular dele, numa quinta-feira à noite, enquanto ele carregava o aparelho na cozinha. E a partir daí decidiu que precisava fazer alguma coisa antes que fosse tarde.

A ideia do copo de espumante foi ela mesma quem teve, ali na hora, quando viu Beatriz chegando sozinha, vestido verde-oliva simples, parada perto do bar observando tudo com aquele jeito de quem está catalogando cada detalhe. Luana atravessou o salão, "tropeçou" bem na frente dela e derramou o conteúdo do copo inteiro no decote do vestido.

— Ai, desculpa, não vi você aí — falou, sem baixar a voz, pro grupo ao redor ouvir.

Beatriz não respondeu. Só pegou um guardanapo, enxugou o que conseguiu, e continuou ali, dobrando o pano sujo em quatro partes antes de guardar na bolsa.

Foi isso que irritou Luana ainda mais. A calma dela. Então Luana pegou o celular da mão da moça — Beatriz tinha deixado em cima da mesinha enquanto se limpava — e, na frente de uns quinze convidados, jogou na piscina.

Alguns riram. Outros ficaram incomodados, mas calados, porque era a festa da Luana e ninguém queria ser o próximo alvo.

Beatriz encarou a piscina. Depois encarou Luana.

— Você devia ter esperado mais dois dias.

— O quê?

— Esse telefone tinha a gravação da ligação que você fez pro Sr. Osvaldo terça-feira. Pedindo pra ele "ajeitar" os números da filial de Itajaí antes da auditoria.

O salão, que até então zunia de conversa, foi ficando quieto num raio de uns cinco metros.

— Você tá inventando — disse Luana, mas a voz já não saiu tão firme.

Beatriz abriu a bolsa pequena que levava a tiracolo e tirou de dentro um controle preto, discreto, do tamanho de um chaveiro.

— Não precisa do telefone. — Ela apertou um botão.

O telão montado no fundo do salão, aquele que ia passar as fotos do álbum de casamento de Luana e Ricardo mais tarde, mudou de imagem na hora. Em vez do casal numa praia em Bombinhas, apareceu um vídeo: Luana, sentada na sala de reuniões da matriz, em Florianópolis, três semanas antes, falando ao telefone.

A voz dela, saindo nas caixas de som da festa, bem clara:

— Osvaldo, eu não tô pedindo, tô avisando. Se aquela menina nova perceber que falta vinte e dois mil reais da nota de insumos de ração, isso cai tudo em cima de mim e do Ricardo. Ajeita isso antes de sexta.

Ricardo, que estava do outro lado do salão conversando com o sogro, virou a cabeça tão rápido que derrubou o próprio copo.

— Essa câmera não é do meu telefone — explicou Beatriz. — É a do próprio sistema de segurança do clube. Eu só pedi pro técnico de som, que é meu vizinho, me mostrar como acessar o painel de projeção hoje de manhã. Falei que era pra uma brincadeira de aniversário.

Luana ficou branca. Não de vergonha — da pressa de fazer as contas de quanto estava prestes a perder.

— Apaga isso.

— Já mandei uma cópia pro Ricardo, pro contador e pro advogado da empresa. Antes de vir pra festa.

Ricardo atravessou o salão, parou ao lado da esposa, olhou pro telão, depois pra ela.

— Luana. O que é isso.

— É armação. Ela inventou isso pra me derrubar, porque eu descobri que ela tava roubando da empresa, não o contrário —

— Ricardo, confere com seu próprio contador — Beatriz interrompeu, sem gritar. — Ele tem os extratos. A filial de Itajaí tem um buraco de vinte e dois mil reais em notas fiscais de ração premium que nunca chegaram no estoque. Começou há sete meses. Antes de eu ser contratada.

O pai de Ricardo, Sr. Edemar, que tinha fundado a rede de pet shops trinta e um anos antes e ainda segurava trinta por cento das cotas, atravessou o salão e ficou parado na frente da nora.

— Luana. Olha pra mim.

Ela não olhou. Ficou de olhos fixos na água da piscina, atrás de todo mundo, onde o celular continuava afundado no fundo, a luzinha de LED verde batendo nele, inútil agora — porque a prova mesmo nunca precisou daquele aparelho.

Ricardo pediu que o DJ parasse a música. Os garçons ficaram parados com as bandejas no meio do salão, sem saber se recolhiam ou não.

— Me dá um minuto com ela — falou Edemar, e puxou a nora pra um canto, perto das cadeiras empilhadas, longe o suficiente dos convidados mas não o bastante pra ninguém deixar de ouvir.

— Há sete meses. Dezesseis mil, depois mais seis mil em março. É isso?

Luana não respondeu.

— Eu construí essa empresa com teu pai, Deus o tenha, do zero. E você tava desviando ração de cachorro pra pagar o quê? O apartamento em Balneário Camboriú que você disse que era "investimento"?

Beatriz, do outro lado, já estava guardando o controle de volta na bolsa, sem pressa, enquanto conversava baixinho com o contador que tinha chegado correndo, convocado por mensagem vinte minutos antes.

— Segunda de manhã eu formalizo isso com o conselho — disse ela pro contador. — Com ou sem festa.

Ricardo se aproximou dela.

— Por que você não me falou antes?

— Porque era contigo que ela tava se articulando pra me acusar primeiro, Ricardo. Se eu tivesse ido direto a você no domingo passado, ela já tinha um álibi pronto. Precisava de prova que não dependesse da minha palavra contra a dela.

Ele ficou quieto um instante, olhando pra esposa, que agora chorava alto num canto, cercada pelas amigas, sem ninguém com muita vontade de consolar de verdade.

— E o celular na piscina?

— Isso ela fez porque não sabia o que eu tinha. Pessoa que sabe o que tem contra ela não gasta energia jogando telefone na água.

Na segunda-feira de manhã, Beatriz entrou na sala de reuniões da matriz com uma pasta azul debaixo do braço — os extratos bancários impressos, as notas fiscais com os números batendo, o print da transferência de dezesseis mil reais pra uma conta que depois seguia direto pro financiamento do apartamento litorâneo. Entregou tudo pro conselho, formado por Edemar, Ricardo e o advogado da família.

Luana não apareceu.

Ricardo entrou com os papéis do divórcio na gaveta já preparados havia alguns dias — ele só esperava confirmação do que já suspeitava. A separação de bens, graças ao pacto antenupcial que o próprio Edemar tinha exigido anos antes, deixou o apartamento de Balneário Camboriú fora do alcance de Luana: ele voltou integralmente pro nome da empresa, porque tinha sido comprado com dinheiro desviado dela mesma.

Beatriz continuou na gerência financeira. Dois meses depois, foi promovida a diretora administrativa das seis filiais, com direito a cota minoritária que Edemar insistiu em oferecer — não como recompensa, segundo ele disse na reunião, "mas porque é o que ela sempre devia ter ganhado, desde o primeiro dia".

O celular continua lá, em algum lugar entre os filtros da piscina do Clube Náutico. Ninguém nunca foi buscar.

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