Faço cinquenta e três anos em dezembro e trabalho há dezoito como consultora de imagem aqui em Curitiba. Fui casada vinte e dois anos com o pai dos meus filhos, nos separamos há três, e sem drama nenhum: viramos amigos, dividimos as contas da casa que vendemos e cada um seguiu pra um apartamento. Conto isso porque quando voltei a namorar, já não enxergava os homens com aquele filtro de paixão dos vinte anos. Eu olhava pro armário deles, pra geladeira, pro jeito de tratar o próprio espaço. E isso me ensinou mais sobre eles do que qualquer flor que mandassem.
Vou contar a história de dois homens que entraram na minha vida nesse período e me mostraram, lado a lado, duas formas bem diferentes de amar depois dos cinquenta.
O primeiro foi o Ariovaldo. Sessenta e um anos, gerente de uma rede de concessionárias, dono de uma cobertura em um prédio bonito do Batel. Divorciado há tempos, sem filhos, com uma rotina fechada como um relógio suíço: sábado de manhã é academia, domingo é almoço com a mãe dele em Água Verde, terça e quinta ele tinha disponibilidade pra mim. Foi ele mesmo quem organizou assim, numa conversa de restaurante, três meses depois de começarmos a nos ver.
— Terça e quinta você pode vir aqui em casa — ele me disse, cortando um filé com uma calma que me gelou. — Mas sua escova de dente fica na sua casa, Beatriz. Eu gosto das minhas coisas do meu jeito.
Eu ri, na hora, porque pensei que fosse brincadeira. Não era. Ele reforçou: nada de deixar roupa no closet dele, nada de produto de cabelo no banheiro, nada de "invadir" a rotina das quartas, sextas e fins de semana, que eram sagrados — dele, da mãe dele, da academia, do jogo de sinuca com os amigos. Uma vez sugeri um fim de semana em Morretes, só pra respirar um ar diferente, comer barreado, ver a serra. Ele travou. Falou que sábado tinha compromisso, que mudança de planos de última hora o deixava "desregulado", que isso era coisa pra gente mais jovem. Eu tinha quarenta e nove anos na época. Não me senti jovem. Me senti descartável, organizada numa agenda como reunião de condomínio.
O armário dele, fiz questão de notar — afinal essa é minha profissão — tinha as mesmas três calças jeans e duas camisas sociais havia pelo menos oito anos. Sugeri, de leve, trocar o visual, talvez um sapato novo. Ele desconversou: "Tô bem assim, não preciso complicar." Não era simplicidade. Era medo de qualquer coisa que pedisse adaptação — no guarda-roupa, na agenda, na vida.
O segundo homem foi o Nelson. Quarenta e sete anos, arquiteto, morando em Florianópolis quando nos conhecemos num congresso de design em São Paulo. Trezentos e vinte quilômetros de distância, cada um na sua cidade, cada um com sua rotina montada. Ele tinha escritório próprio lá, amigos de vinte anos, uma casa com vista pro mar que ele mesmo projetou. Por qualquer lógica, dava pra imaginar que um relacionamento à distância fosse esbarrar logo na pergunta de quem cederia.
Nelson não tratou aquilo como sacrifício. Tratou como projeto. Em quatro meses ele já tinha fechado uma parceria com um escritório de Curitiba, achou um apartamento pequeno no Bigorrilho pra alugar, e me falou, numa ligação de domingo à noite:
— Encontrei um jeito de a gente ficar junto e ainda assim eu continuar fazendo o que eu gosto. Não é sacrifício, Beatriz. É escolha.
Ele vendeu a casa de Florianópolis — perdeu um pouco no negócio, a época não era boa pra vender — e veio com duas malas e três caixas de livros. Nada de impor os móveis antigos no meu espaço: escolhemos juntos cada coisa, até uma estante que ele desenhou especialmente pra encaixar no corredor estreito do apartamento que alugamos juntos, perto da Praça do Japão.
Teve atrito, claro. Ele sentia falta dos amigos de Floripa, chorou baixinho uma vez falando da casa que vendeu. Mas nunca jogou essa dor em cima de mim como se eu fosse a culpada. A gente atravessou junto.
Enquanto isso, com Ariovaldo, eu ia gastando energia que nem percebia. Terça eu chegava, arrumadinha, sem deixar vestígio. Quinta, idem. Em uma dessas quintas, cheguei mais cedo do que o previsto — meu compromisso de trabalho tinha cancelado — e toquei o interfone antes da hora combinada. Ele atendeu seco: "Beatriz, hoje não dá, combinamos sete e meia." Eram sete e dez.
Foi aí que entendi, parada na calçada do prédio dele, com o celular na mão: eu não era parte da vida dele. Era um item fixo na agenda, entre a academia e o almoço de domingo.
Terminei com Ariovaldo numa quinta à noite, do jeito mais simples possível. Nem fui até o apartamento. Liguei.
— Ariovaldo, acho melhor a gente parar por aqui.
— Por quê? Alguma coisa mudou?
— Mudou que eu entendi que terça e quinta não é vida, é escala de visita. E eu não quero mais ser visita em lugar nenhum.
Ele não insistiu. Perguntou, meio sem jeito, se eu tinha deixado alguma coisa lá. Falei que não, que eu nunca tinha deixado nada mesmo, essa era a questão.
Hoje moro com Nelson há um ano e sete meses. A escova dele está no meu banheiro, do lado da minha, as duas na mesma caneca de cerâmica que compramos numa feira de artesanato na Lapa. Ele topou mudar de cidade, de rotina e perdeu dinheiro numa venda de imóvel pra construir isso comigo. Eu não pedi nada disso — ele que decidiu que eu valia esse tipo de esforço.
E sobre o Ariovaldo? Soube, por uma amiga em comum, que ele continua na mesma cobertura do Batel, nas mesmas terças e quintas, só que agora com outro nome na agenda. A escova continua sempre do lado de lá da porta.












