O Vira-Lata Que Guardou a Carteira do Seu Thiago

A carteira caiu da mochila do veterinário bem na saída da feira de adoção, no Parque da Redenção, num domingo de agosto em Porto Alegre. Ninguém viu. Ninguém, menos um vira-lata caramelo de orelha cortada que vinha sendo observado, desde cedo, por todo mundo que passava — porque tinha fama de roubar sanduíche de criança e sumir com chinelo de dedo.

Foi esse cachorro que pegou a carteira na boca e saiu correndo atrás do homem.

Roberto Salles tinha quarenta e um anos, era veterinário autônomo havia doze, e naquele domingo estava ajudando de graça na feira de adoção organizada pela ONG Patas da Várzea. Trezentos e oitenta reais em dinheiro, o cartão do consultório, a carteirinha do CRMV e a foto da filha de sete anos, Laurinha — tudo ali dentro, caindo no meio do gramado sem ele notar.

Quem notou foi a veterinária-chefe da ONG, Cecília Brum, que tinha visto o cachorro — batizado pelos voluntários de "Caramelo Sem Dono" — se aproximar da mochila aberta do Roberto enquanto ele examinava um filhote.

— Ó lá, o safado de novo — ela falou, já pegando o celular pra filmar, achando que ia flagrar mais um roubo de comida.

Só que o vídeo mostrou outra coisa. O cachorro pegou a carteira caída, sim — mas não saiu correndo pro mato. Saiu correndo *atrás* do Roberto, que já tinha ido embora pro estacionamento, sem perceber nada.

Cecília correu junto, celular na mão, gravando tudo.

O Caramelo alcançou o Roberto já perto da Fiat Strada branca dele, pulou, bateu com a pata na perna do cara e deixou cair a carteira aos pés dele. Depois sentou, esperando.

— Não acredito — Roberto disse, abaixando, pegando a carteira. — Isso é meu. Isso caiu de mim.

Conferiu por dentro. Dinheiro intacto. Cartão lá. Carteirinha lá. A foto da Laurinha, dobrada no canto, também lá.

Cecília, do lado, ainda filmando, meio sem fôlego:

— Ele trouxe. Eu vi ele pegar e vi ele trazer. Não comeu, não escondeu, não fugiu com ela.

— Esse aqui — Roberto falou, apontando pro cachorro — não é o que vocês falavam que roubava sanduíche?

— É o mesmo.

O vídeo, postado naquela noite no perfil da ONG, passou de duzentas mil visualizações em dois dias. Comentário atrás de comentário dizendo que o cachorro merecia um lar, que aquilo não era sorte, era caráter. Só que a história real — a que ficou de fora do vídeo de um minuto e doze segundos — era mais complicada que isso.

Porque existia outro nome ligado àquele animal, e esse nome era Jurema Paiva, sexagenária, moradora de uma casa simples a três quadras do parque, que alimentava o Caramelo havia dois anos e meio sem nunca ter conseguido trazê-lo pra dentro de casa — ele vivia solto, comia o que ela deixava na calçada, dormia onde dava e nunca deixou que ninguém, nem ela, colocasse coleira nele.

Jurema viu o vídeo compartilhado pelo vizinho e foi direto pra feira no dia seguinte, segunda, quando a ONG ainda estava desmontando as barracas.

— Esse cachorro é meu — falou pra Cecília, sem rodeio. — Ou quase meu. Eu cuido dele desde que a mãe dele foi atropelada ali na esquina da Osvaldo Aranha.

Cecília, que já tinha recebido três mensagens de gente querendo adotar o Caramelo depois do vídeo viral, ficou na defensiva:

— A senhora cuida dele, mas ele não é registrado em nome de ninguém. Ele é um animal de rua.

— Eu sei que é de rua. Eu não tô dizendo que tenho documento. Tô dizendo que ele é meu de um jeito que vocês não entendem de internet.

A tensão não durou. Roberto, que tinha voltado à feira pra agradecer de novo e levar uma ração como presente pro cachorro, ouviu a conversa e se meteu:

— A senhora quer levar ele pra dentro de casa de vez?

— Quero desde que a mãe dele morreu. Ele não deixa.

— Deixa eu tentar uma coisa.

Roberto se agachou no meio do estacionamento, perto do Caramelo, que tinha ficado sentado observando tudo de uma distância segura, do jeito que vira-lata de rua aprende a fazer. Tirou da mochila — a mesma mochila da carteira — um pedaço de frango desfiado que tinha sobrado do almoço, achado no fundo da sacola de lanche.

— Vem aqui, campeão.

O cachorro chegou mancando um pouco da pata traseira direita, sequela antiga de ter sido atropelado também, uma vez, há mais de um ano, segundo contou depois Jurema. Comeu da mão do Roberto, aceitou uma coleira improvisada de cordão de embalagem que a Cecília tinha numa caixa de material da ONG, e dessa vez não saiu correndo quando Jurema se aproximou.

Foi o próprio Roberto que resolveu o resto. Como veterinário, examinou o cachorro ali mesmo — vacina em dia que a ONG tinha aplicado numa campanha anterior, mas sem castração, sem microchip, com uma leve infecção no ouvido cortado. Se ofereceu pra castrar e tratar de graça no consultório dele, na Zona Sul, e assinou um termo informal junto com Jurema e a Cecília, reconhecendo a senhora como tutora responsável — não porque algum cartório exigisse isso de um cachorro de rua, mas porque, pelas regras da própria ONG, era preciso um responsável formal pra ele poder, dali pra frente, receber atendimento gratuito e ração do projeto de apadrinhamento que a Patas da Várzea mantinha.

Jurema assinou com letra trêmula, dedo sujo de graxa do portão que tinha acabado de pintar. Emprestou da vizinha uma caneta, porque a dela tinha secado.

— Esse aqui não é prêmio por ter devolvido carteira — ela falou, cruzando os braços. — Esse aqui eu já queria antes dele fazer essa proeza toda.

Roberto riu:

— Mas ajudou a convencer todo mundo de que ele merece confiança.

— Confiança ele sempre teve. Só faltava alguém notar.

O Caramelo — que Jurema disse que ia rebatizar de Chico, porque "nome de rua não combina com cachorro de casa" — foi pra dentro, de fato, naquela mesma tarde. Levou junto a coleira de cordão, que depois Roberto trocou por uma de verdade, comprada no pet shop da Avenida Protásio Alves, com uma plaquinha gravada: CHICO — SE ACHADO, AVISE JUREMA, e o telefone dela embaixo.

A carteira do Roberto, essa, ficou guardada numa gaveta do consultório, perto do raio-X, como ele mesmo contou pra Laurinha quando a menina perguntou se podia ver "o cachorro do vídeo que apareceu na televisão da escola". Não apareceu em televisão nenhuma, mas apareceu na roda de conversa do recreio, e isso, pra uma criança de sete anos, valia tanto quanto.

Rate article
O Vira-Lata Que Guardou a Carteira do Seu Thiago