Era uma tarde de domingo, dessas em que o sol do Paraná bate de lado e deixa tudo com aquele brilho meio dourado, quando dona Zeni Aparecida Bueno, sessenta e três anos, viúva, aposentada da Casa Lotérica da Rua Balduíno Taques, resolveu finalmente contar pra neta o que vinha acontecendo nos fundos do quintal.
A neta, Luiza, vinte e dois anos, estudante de veterinária, tinha ido passar o fim de semana na casa da avó justamente porque a mãe dela, Rosângela, filha de dona Zeni, andava comentando que "a vó tava estranha, falando sozinha na horta".
E era verdade. Só que não era bem do jeito que Rosângela imaginava.
Dona Zeni tinha uma horta de uns vinte metros quadrados, murada com tijolo furado, onde cultivava desde sempre tomate, couve, cebolinha e, nos últimos dois anos, brócolis e couve-flor plantados lado a lado, quase coladinhos, por falta de espaço.
— Vó, a senhora tava conversando com quem ali atrás? — perguntou Luiza, ainda com a mochila nas costas, no portão.
Dona Zeni riu, daquele jeito que ri gente que sabe que vai contar uma coisa boa.
— Com os brócolis, minha filha. Eles ficam preocupados com a couve-flor. Acham que ela tá doente.
— Doente?
— É. Porque ela é branca. Eles são verdes, moço, de pé fincado no chão, e a couve-flor ali do lado, branquinha, meio murchinha de aparência. Eu já expliquei cento e uma vez que não é doença, é elegância. Ela nasceu assim.
Luiza deu risada, largou a mochila no sofá da varanda e foi atrás da avó pro fundo do quintal. Mas enquanto caminhavam entre os canteiros, ela notou uma coisa que a avó, distraída com a brincadeira dos brócolis, não tinha contado pra ninguém ainda: três pés de couve-flor estavam realmente murchos — não pela cor, mas de verdade, caindo, com as folhas amareladas na base.
— Vó, isso aqui não é elegância, não. Isso é praga.
Dona Zeni parou. Agachou, afastou uma folha com o dedo sujo de terra, virou o caule e viu as marcas de mordida por baixo.
Foi aí que a história ficou séria.
Dona Zeni contou que, fazia uns quinze dias, tinha notado umas lagartinhas pequenas nas folhas mais baixas, mas achou que era coisa de passar, igual sempre dava em agosto. Não tratou com nada, só catou algumas com a mão. O problema é que a horta inteira — tomate, couve, cebolinha, pimentão — estava plantada sem nenhum cuidado com o que ficava perto do quê. Tudo amontoado, porque o espaço era pequeno e dona Zeni sempre fez assim, do jeito que a mãe dela fazia lá na colônia de Castro, nos anos 1970.
Luiza, que estava no terceiro ano de veterinária e tinha feito uma matéria opcional de fitopatologia no semestre anterior, falou:
— Vó, brássica do lado de brássica é prato cheio pra lagarta-das-crucíferas. Brócolis, couve-flor, couve, repolho — tudo da mesma família. Praga que pega um, pega todo mundo, porque eles atraem o mesmo bicho e ainda competem pelo mesmo nutriente no solo.
— Mas eu sempre plantei assim, minha filha.
— E sempre deu praga em agosto, a senhora falou. Não é coincidência.
Dona Zeni ficou quieta um instante, esfregando as mãos cheias de calo uma na outra pra tirar a terra grudada. Não gostou de ouvir que o jeito que fazia desde sempre podia estar errado. Mas também não era de brigar com quem trazia solução.
— Então o que que eu faço, Luiza?
E foi aí que a neta propôs uma coisa que ia mudar a cara daquela horta — e, sem ninguém imaginar, ia acabar envolvendo o vizinho, seu Adauto, que também tinha horta e que, havia anos, reclamava baixinho que a praga da dona Zeni "pulava o muro" pra plantação dele.
No sábado seguinte, Luiza voltou com uma pasta impressa — print de um artigo que tinha achado pesquisando sobre consórcio de plantas, de um site de jardinagem — e sentou com a avó na mesa da cozinha, debaixo do santinho de Nossa Senhora Aparecida, pra planejar a reforma da horta inteira.
— Vó, a ideia é separar as crucíferas. Não plantar tudo junto. E usar plantas que ajudam a afastar a lagarta e atrair quem come a lagarta.
— Tipo o quê?
— Tomilho. Manjericão. Alecrim. E a senhora podia plantar umas flores, tagetes, cravo-de-defunto mesmo, que afasta nematoide e atrai joaninha. Já pensou nisso?
Dona Zeni fez cara de desconfiada, mas anotou tudo num caderninho de capa dura que já tinha lista de compras de vinte anos atrás.
Só que, antes de fazer qualquer mudança, apareceu o problema de verdade: seu Adauto, sessenta e oito anos, vizinho de muro desde 1989, apareceu no portão numa quinta de manhã, com a cara fechada, dizendo que a lagarta tinha destruído a couve dele também, e que aquilo "só podia ter vindo da horta da dona Zeni, porque lá sempre foi um criadouro".
Foi tenso. Os dois brigaram feio ali no portão — ela dizendo que não ia se responsabilizar por bicho que voa, ele batendo a mão na grade e dizendo que ia falar com o filho, que era fiscal da prefeitura, que ia abrir processo e multar a horta inteira, que isso "não ia ficar assim".
Dona Zeni empalideceu. Processo, multa — ela nunca tinha pensado que a horta pudesse virar motivo pra isso.
Luiza, que tava assistindo tudo da varanda, resolveu entrar no meio.
— Seu Adauto, a senhora Zeni não fez por mal. Mas tem razão, a lagarta não respeita muro. O problema é de plantio, não é culpa de ninguém, e processo nenhum vai matar uma lagarta que já voou faz tempo.
— Culpa é de quem deixa a horta descuidada, menina.
— O senhor também planta couve do lado de brócolis?
Seu Adauto ficou calado. Porque plantava, sim.
— Então o problema é dos dois, seu Adauto. O senhor chama o fiscal, multa a vó, e na semana que vem a lagarta tá de novo na sua couve, porque o problema continua do mesmo jeito nos dois quintais. Ou a gente resolve juntos, de verdade.
Seu Adauto bufou, olhou pro muro, pra couve murcha dele do outro lado, e abaixou a mão que ainda segurava a grade do portão.
— Tá. Mas essa semana eu quero ver mudança.
Luiza propôs que as duas hortas — a de dona Zeni e a de seu Adauto — fossem reorganizadas no mesmo fim de semana, separando as famílias de hortaliças e plantando entre elas as ervas e flores que afastam praga, exatamente como tinha visto no artigo.
Dona Zeni gastou trinta e dois reais em mudas de tomilho, manjericão e tagetes na feira da Vila Oficinas, e seu Adauto, ainda meio ressabiado, deu dezoito reais pra completar a compra de alecrim pros dois quintais.
No domingo, trabalharam a manhã inteira. Luiza desenhou no caderno um esquema de plantio: tomate longe da batata, couve-flor separada do repolho por uma fileira de manjericão, brócolis isolado com tagetes na borda. Dona Zeni reclamou que "ficava bonito, mas dava mais trabalho", e seu Adauto só ficava repetindo "é, não sabia que era assim" enquanto cavava.
Três semanas depois, as lagartas sumiram quase por completo dos dois quintais. A couve-flor de dona Zeni recuperou a cor — branca de propósito, elegante mesmo, sem mais nenhuma folha caída — e o brócolis do lado continuava do seu jeito desconfiado, verde e enraizado, mas agora sem motivo de preocupação real.
Seu Adauto apareceu de novo no portão, numa tarde de sábado, com um saco de couve na mão, estendendo pelo vão da grade antes mesmo de dona Zeni abrir.
— Toma, dona Zeni. Primeira colheita boa em dois anos.
— Obrigada, seu Adauto. E desculpa aquele auê.
— Eu que peço desculpa. Culpa nunca foi só sua. E esquece aquilo que eu falei do meu filho, viu.
Dona Zeni pegou o saco, espiou dentro, e já foi separando na cabeça quantas folhas dava pra fazer de refogado.
— Fica pra próxima colheita, seu Adauto, essa semana eu já tenho couve de sobra.
Ele riu, meio sem graça, e voltou pro quintal dele resmungando que ia ver se o alecrim já tinha pegado.
Dona Zeni ficou parada no portão com o saco nas mãos, depois entrou e foi direto pro fundo do quintal, onde o brócolis balançava um pouco com o vento da tarde.
— Viu só, seu intrometido? Falei que ela só tava de touca.












