O dia em que fui buscar o Argo — e ele quase não deixou

O dia em que fui buscar o Bento — e ele quase não deixou

Eu sou o Renato, tenho quarenta e um anos, sou motorista de aplicativo aqui em Sorocaba, e essa história eu conto do jeito que ela aconteceu comigo, porque quem contou até agora foi minha irmã Beatriz — e ela não viu nem a metade do que eu vi naquela tarde.

Foi a Bia quem insistiu. Ela é voluntária no abrigo municipal, lá perto da Zona Norte, e há semanas me mandava fotos de um cachorro chamado Bento — um vira-lata caramelo, já com uns dez anos, focinho todo grisalho, orelha esquerda meio caída de um jeito torto. "Ele não sai da baia dele, Renato. Ninguém quer cachorro velho." Eu disse não umas três vezes. Eu trabalho catorze horas por dia no carro, moro sozinho num apartamento pequeno na Vila Hortência, e a última coisa que eu precisava era de mais uma responsabilidade. Mas ela mandou um vídeo de trinta segundos, o Bento deitado num canto enquanto duas crianças passavam correndo atrás de um filhote de poodle, e eu não consegui fechar aquele vídeo.

Fui num sábado, depois do almoço. O abrigo cheirava a desinfetante e a ração barata, e tinha uma rádio velha tocando sertanejo baixinho no escritório. A funcionária que me atendeu — uma mulher de uns cinquenta anos, unhas cortadas curtas de quem lida com bicho o dia inteiro — me levou até o fundo, onde ficavam as baias dos "difíceis", como ela mesma chamou. "Difícil não é o cachorro. É a idade dele que assusta as pessoas."

O Bento não correu até a grade quando me viu. Ficou encolhido no fundo da baia, e quando eu abaixei e estendi a mão por entre as barras, ele recuou mais um passo, as costas quase raspando na parede. A funcionária balançou a cabeça: "Ele faz isso com todo mundo. Semana passada mordeu o rapaz que veio conhecer ele — de susto, não de maldade, mas mordeu."

Eu fiquei ali agachado uns bons dez minutos, sem falar nada, só deixando minha mão parada no ar entre as barras. O Bento tremia. Quando finalmente chegou perto o bastante pra cheirar meus dedos, foi só a ponta do focinho, e recuou de novo na mesma hora, como quem se arrepende no meio do gesto.

"Olha, moço, não precisa forçar," disse a funcionária. "Tem gente que vem, vê que não vai ser fácil, e desiste. Não tem problema."

Eu quase levantei e fui embora ali mesmo. Pensei nas catorze horas de carro por dia, no apartamento vazio onde eu só ia entrar tarde da noite, na chance real de esse cachorro nunca chegar a confiar em mim. Cheguei a colocar a mão no joelho pra me levantar.

Foi nesse instante que o Bento deu um passo à frente sozinho — sem eu estender a mão de novo — e encostou a cabeça no meu punho fechado, só por dois segundos, antes de recuar outra vez pro canto da baia.

Assinei o termo de adoção ali mesmo, ainda agachado, com as pernas dormentes.

Colocar ele na coleira pra levar até o carro foi outra guerra. Ele se jogou pro chão do corredor do abrigo, as quatro patas travadas, e a funcionária precisou segurar a porta de saída enquanto eu praticamente carregava ele no colo pelos últimos três metros. No carro, ele não subiu no banco de trás — ficou parado do lado de fora, resistindo com o corpo inteiro, até eu erguer ele com os dois braços e senti-lo tremer contra o meu peito.

Passamos pelo Shopping Iguatemi, pela Avenida Ipanema Bacaetava cheia de carro de fim de semana, e ele ficou grudado na porta, longe de mim o quanto o banco permitia, os olhos fixos em mim pelo retrovisor como quem vigia um estranho.

Foi só depois do quinto semáforo, já perto da minha rua, que ele se moveu. Chegou perto, encostou o peso do corpo no meu braço direito enquanto eu dirigia, e eu senti o suspiro dele antes de ver — um suspiro longo, quase um desabafo. Coloquei a mão livre na cabeça dele por um segundo, sem tirar os olhos da via, e ele não recuou dessa vez.

Chegando em casa, ele parou na porta e travou de novo. Ficou plantado ali, as patas da frente cravadas no capacho, tempo suficiente pra eu pensar que talvez eu tivesse feito besteira, que talvez aquele cachorro nunca fosse aceitar nenhuma mudança na vida dele. Meu vizinho de baixo, o seu Osvaldo, que estava regando as samambaias na varanda, gritou de lá: "Rapaz, você não sabe cuidar de gente, vai cuidar de cachorro agora?" Eu não respondi — não tirei os olhos do Bento, esperando.

Ele deu dois passos, cheirou o batente da porta, e entrou.

As primeiras semanas foram estranhas. Eu não sabia que cachorro velho ronca. Não sabia que ele ia preferir dormir num pedaço específico do tapete da sala, do lado esquerdo, perto da tomada — nunca descobri por quê. Comecei a organizar minhas corridas pra estar em casa antes das oito da noite. Levei ração de qualidade, não a mais barata do mercado, porque o veterinário da Rua Riachuelo disse que as juntas dele precisavam de suporte. Gastei duzentos e trinta reais só na primeira consulta, e não pensei duas vezes.

Três meses depois, minha irmã apareceu num domingo pra almoçar. Ficou olhando o Bento deitado no meu colo enquanto eu via jogo, e falou baixinho: "Você tá diferente." Eu não soube explicar direito.

Hoje, quando chego em casa depois de catorze horas de trabalho, giro a chave na fechadura e paro um segundo antes de empurrar a porta. Do outro lado, sempre no mesmo lugar atrás dela, o rabo do Bento bate duas vezes no piso.

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O dia em que fui buscar o Argo — e ele quase não deixou