O apelido que a sogra esqueceu que existia

A chuva caía em cordas sobre a Rua das Acácias, em Curitiba, quando Rogério jogou a mala de Beatriz para fora da garagem.

As roupas se espalharam na calçada encharcada. Uma caixinha de madeira, daquelas de guardar lembranças, rolou até parar numa poça perto do portão.

Beatriz, com sete meses de gravidez, ficou parada sob a chuva. Não gritou. Não implorou. Não chorou.

Era exatamente o contrário do que Rogério esperava.

— Acabou — ele disse, sem olhar nos olhos dela. — Some da minha vida.

Ao lado dele, Juliana, sua amante há oito meses, cruzou os braços.

— Ela tá levando isso bem demais, não acha estranho?

Foi quando dona Marlene, a mãe de Rogério, apareceu na porta da casa. A mesma mulher que, nos três anos de casamento, nunca tinha chamado Beatriz pelo nome — só de "essa aí" ou "a menina".

— Você nunca foi dessa família — disse Marlene, com a voz seca como lixa.

E antes que alguém pudesse reagir, ela desceu os três degraus da varanda e escarrou no rosto de Beatriz.

A rua, já quieta por causa da chuva, ficou muda de verdade. Até Juliana baixou os braços.

Beatriz passou a manga do casaco no rosto, limpando a saliva misturada com água de chuva. Tirou a aliança do dedo e guardou no bolso. Depois tirou o celular do outro bolso.

Discou um número. Só um.

— Pai — ela disse, baixinho. — Acabou.

Do outro lado, nada por dois segundos. Só a chuva batendo no capô dos carros estacionados.

— Vem me buscar — ela completou. — E traz o Doutor Azevedo.

— Você quer que eu acredite que o seu pai tem advogado particular? — Rogério riu, mas o riso saiu errado, meio alto demais pra convencer alguém.

Beatriz não respondeu. Só ficou ali, catando a caixinha de madeira da poça e enxugando a lama da tampa com a manga.

Doze minutos depois, um carro preto parou na esquina. Nelson Vasconcelos desceu sem guarda-chuva, o terno escurecendo na hora pela chuva, e atrás dele veio o Doutor Azevedo, segurando uma pasta de couro contra o peito.

Marlene reconheceu o rosto antes de reconhecer o nome. Tinha visto aquele homem uma vez, numa reunião de condomínio que terminou com o síndico processado por desvio de verba. A mão dela agarrou o corrimão da varanda.

— Seu Nelson, eu não sabia quem ela era, eu juro…

— Isso não muda nada — Nelson respondeu, sem levantar a voz. — A senhora escarrou numa mulher grávida. Não precisava saber o sobrenome dela pra não fazer isso.

Rogério tentou falar, gaguejou o nome de Juliana, começou uma frase sobre a crise do casamento e não terminou. Nelson nem olhou pra ele. Foi até Beatriz, pegou a caixinha de madeira da mão dela, limpou o resto de barro da tampa com o polegar e devolveu.

— Vamos pra casa, filha.

Foi só isso.

***

A sala de reuniões da construtora tinha uma mesa de vidro longa demais pra três pessoas. Três semanas depois, era ali que Beatriz assinava os papéis do divórcio, porque era onde o Doutor Azevedo trabalhava e porque ela não ia mais pisar na Rua das Acácias.

Rogério assinou por último. A caneta tremia na mão dele — não de raiva, Beatriz percebeu, mas porque tinha acabado de saber, na sala ao lado, que seu contrato na construtora tinha sido rescindido naquela mesma manhã.

— Não foi vingança — disse o Doutor Azevedo, fechando a pasta. — O diretor financeiro não quis manter na folha um gerente que criou inimizade pública com a filha do proprietário majoritário. É cláusula de risco reputacional, está no contrato dele desde o primeiro ano.

Rogério assinou a última página sem erguer os olhos da mesa.

Quatro meses depois, no cartório da Rua Marechal Deodoro, a atendente perguntou se o nome do pai constaria na certidão.

— Sim — disse Beatriz, com a filha dormindo no colo. — Rogério Andrade Teixeira. É o pai biológico, fica registrado assim.

— E o sobrenome da criança?

— Vasconcelos.

A atendente datilografou os dois nomes sem perguntar mais nada.

Beatriz usou os cento e noventa e dois mil reais que tinha juntado em seis anos de consultório de fisioterapia pra comprar um apartamento de dois quartos na Avenida Batel. Na escritura, só o nome dela. Nem Rogério, nem Marlene foram ao batizado — ela nem mandou convite.

Um ano depois, Marlene entrou na recepção do consultório um pouco antes das dez da manhã, com um embrulho de papel de seda nas mãos.

— Eu só queria ver a Laurinha. Trouxe um presente.

Beatriz estava atrás do balcão, organizando fichas de pacientes. Pousou a caneta.

— A senhora pode mandar o presente pelos Correios. Eu decido se ela abre.

Marlene ficou ali, com o embrulho entre os dedos, sem saber onde colocar as mãos.

— Eu tô velha, Beatriz. Não tenho mais ninguém.

— A senhora tem o Rogério.

Marlene não respondeu. Deu meia-volta e saiu pela porta de vidro, o embrulho ainda fechado debaixo do braço.

Beatriz voltou pras fichas, fechou a gaveta do balcão e, no fundo do consultório, a porta da sala de atendimento se fechou devagar, sem bater.

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O apelido que a sogra esqueceu que existia