Eu me chamo Dona Lígia, tenho sessenta e um anos, e por dezessete anos cuidei da casa e dos bichos do seu Alberto Monteiro, lá na Serra da Cantareira, no interior de São Paulo. Não era bem uma chácara qualquer: tinha três cachorros, um bando de galinhas, dois cavalos velhos e um papagaio chamado Capitão que gritava "bom dia" desde as seis da manhã. Era isso que eu cuidava, junto com ele.
Entrei naquela casa com quarenta e quatro anos, recém-separada, com minha filha Priscila ainda no colégio. Precisava de trabalho fixo e peguei o anúncio no mural da igreja de São José dos Campos. Seu Alberto era viúvo há cinco anos, dono de uma antiga fábrica de móveis que vendera para se aposentar na serra. O filho, Eduardo, morava em Curitiba, advogado de empresa, e vinha visitar o pai talvez duas vezes por ano, sempre no Natal e, se desse, no aniversário.
No primeiro dia ele foi seco comigo.
— Não gosto de bagunça. E não gosto de gente fingindo que se importa.
— Então o senhor teve sorte — respondi. — Eu não sei fingir.
Ele riu, meio sem jeito, mas riu. Foi assim que começou.
Com o tempo, cuidar da casa virou cuidar dele. Eu fazia a comida, levava os bichos pro veterinário, lembrava os remédios de pressão, limpava o curral, e ficava ouvindo as histórias da fábrica, da esposa dele, Dona Marisa, que morrera de câncer. Ele perguntava da Priscila sempre:
— E a sua menina, Lígia? Ainda quer ser veterinária?
— Quer sim, seu Alberto.
— Vai ser boa nisso. Tem mão boa com bicho, que nem a mãe.
Quando minha neta Beatriz nasceu, ele adotou o costume de perguntar toda segunda-feira:
— E a pequena Bia? Já tá falando?
— Já tá chamando a galinha de "nenê", seu Alberto.
Ele ria gostoso. Pedia pra ver foto no celular, mesmo sem entender bem como aumentar a imagem.
Vi ele em muitos momentos difíceis. Quando teve a pneumonia e passou duas semanas sem sair da cama. Quando ficava de noite na varanda olhando o curral vazio, porque um dos cavalos tinha morrido de velho e ele não tinha coragem de comprar outro. Quando, baixinho, admitia que se sentia esquecido pelo próprio filho. Eu nunca perguntei por que Eduardo quase não vinha. Dor dos outros a gente não cutuca. Só fica perto.
No último ano a saúde dele piorou bastante. Ele dizia, sempre olhando pro quintal:
— Lígia, me promete uma coisa. Não deixa esse lugar virar cemitério de bicho abandonado.
— Para com isso, seu Alberto.
— Casa só fica vazia quando o amor sai dela primeiro.
Eu pensava que ele falava por tristeza. Não sabia que já tinha tomado uma decisão que mudaria minha vida inteira.
Uma semana depois da morte dele, Eduardo chegou na chácara. Em dezessete anos eu tinha visto aquele homem talvez umas vinte vezes. Ele entrou de terno, nem reparou nas fotos do pai na parede da sala, e foi direto:
— Você é a Lígia?
— Sou.
— Bom. Tenho uns assuntos pra resolver.
Dez minutos depois me chamou pro escritório. Um envelope branco em cima da escrivaninha. Senti na hora que vinha coisa ruim.
— Não vou tomar seu tempo — disse ele. — Meu pai não precisa mais dos seus serviços.
Fiquei calada.
— Mas seu pai disse que…
— Meu pai era um velho. Falava muita coisa.
Aquilo doeu. Olhei pra poltrona de couro onde ele sentava todo fim de tarde pra ler jornal.
— Aqui tem dois mil reais. É mais do que se paga por esse tipo de trabalho.
— Depois de dezessete anos?
Ele deu de ombros.
— A senhora era funcionária, Dona Lígia. Não era família.
Guardei essa frase pra sempre. Não porque foi cruel. Mas porque quem falou nem conhecia o próprio pai.
— Quando eu tenho que sair?
— Hoje à noite.
Levantei e saí do escritório. Levei só o que era meu: o radinho de pilha que ficava na despensa, duas fotos, e um quadro pintado que mostrava a chácara ao entardecer, com o curral e as galinhas. Seu Alberto tinha me dado aquele quadro um ano antes.
— Leva, Lígia. De vez em quando a gente precisa de uma lembrança dos lugares onde foi feliz.
Eduardo nem reparou no quadro.
— Leva mesmo. É só uma pintura velha.
Eu não sabia, naquele momento, que aquela "pintura velha" ia virar a prova mais importante da minha vida, só alguns dias depois.
Cheguei na casa da minha filha já de noite. Priscila percebeu na hora que algo tinha acontecido.
— Mãe, por que a senhora voltou?
Tentei sorrir.
— Preciso procurar outro trabalho, filha.
Mas aquela noite eu não consegui dormir direito. Ia ter que recomeçar tudo, com sessenta e um anos.
No dia seguinte liguei pras famílias pra quem já tinha trabalhado. Uma não lembrava de mim. Outra já tinha fechado com outra pessoa. Uma terceira só desejou sorte e desligou rápido.
No terceiro dia, sentada na cozinha de Priscila, fiquei olhando o quadro da chácara. O telefone tocou. Número desconhecido. Quase não atendi.
— Lígia Ferreira?
— Sim.
— Meu nome é Ricardo Beltrão. Eu era advogado do seu Alberto Monteiro.
Travei.
— Aconteceu alguma coisa?
Pausa breve do outro lado.
— Dona Lígia, a senhora pode se sentar, por favor?
Sentei na cadeira, com as mãos ainda segurando o pano de prato que estava usando pra secar a louça.
— Por quê?
— Porque o que eu vou falar pode chocar a senhora. O seu Alberto alterou o testamento meses antes de morrer.
Fiquei quieta, apertando o pano entre os dedos.
— Ele deixou a chácara pra senhora.
Pensei que tinha escutado errado.
— Como é que é?
— A casa, o terreno, os animais e um fundo separado pra educação da sua neta, veterinária, do jeito que ele sempre falava que ela ia ser.
Olhei pra foto na parede.
— Mas o filho dele disse que tudo era dele.
A voz do advogado ficou mais firme.
— Eduardo Monteiro foi excluído do testamento, Dona Lígia. O senhor Alberto deixou uma carta também. Pediu pra senhora ler só depois que ele morresse.
Foi aí que lembrei do quadro. Corri até ele, virei, e na parte de trás a moldura estava meio solta. Abri com cuidado. Dentro, um papel dobrado. Meu nome escrito em letra trêmula.
"Minha querida Lígia…"
Comecei a ler, e desde as primeiras palavras entendi: seu Alberto sabia de tudo. Sabia quem realmente estava do lado dele. Sabia quem vinha todo santo dia, chovesse ou fizesse sol. Sabia quem cuidava sem pensar em dinheiro. A carta terminava falando do Trovão, o cavalo que ele mais tinha gostado de todos, e pedia que eu arrumasse um lugar bom no curral pro cavalo novo que um dia eu fosse ter coragem de comprar. A letra, no final, já saía torta, como se a mão dele tivesse cansado antes da frase acabar.
No dia seguinte, Eduardo apareceu de novo na porta da casa da minha filha. Mas essa vez não vinha como dono de nada. Vinha pedir um acordo.
Ele entrou sem ser convidado pra dentro da pequena sala, ainda de terno, só que agora amassado, como quem não dormiu bem.
— Dona Lígia, acho que a senhora não entendeu bem a situação. Vou contestar esse testamento. Advogado de advogado conhece as manhas. Mas eu vim aqui pra evitar dor de cabeça pra nós dois. Eu fico com a chácara, a senhora fica com uma parte em dinheiro. Digamos… cinquenta mil reais. É generoso.
— Generoso — repeti.
— É mais do que a senhora ganharia trabalhando o resto da vida.
Fiquei olhando pra ele um tempo, sem pressa.
— Seu pai me deu dois mil reais depois de dezessete anos, pela boca do senhor. E agora o senhor me oferece cinquenta mil pra eu desistir do que ele quis me dar de verdade. Por acaso o senhor sabe o nome do cavalo que morreu há três anos?
Ele piscou, sem entender a pergunta.
— Não sabe. Trovão. Ele chorou a noite inteira quando o Trovão morreu, sentado na varanda, sozinho, porque o senhor não atendeu o telefone.
Fui até a mesinha da sala, peguei a pasta que o advogado Ricardo tinha me mandado por e-mail e imprimido na casa de Priscila: cópia do testamento registrado em cartório, a carta de seu Alberto, e o número de protocolo do processo de inventário.
— O senhor pode contestar, sim, é direito seu. Mas essa carta, com a letra do seu pai, já está anexada no processo. E essa oferta de cinquenta mil, três dias depois de me dar dois mil pra eu sair calada, também vai ficar documentada, se for preciso.
Eduardo abriu a boca pra rebater, fechou de novo.
— A senhora vai perder tempo e dinheiro com advogado achando que vai ganhar isso na Justiça.
— Talvez. Mas enquanto isso, os bichos do seu pai continuam sendo alimentados, a chácara continua de pé, e a Beatriz vai estudar veterinária com o dinheiro que o avô dela guardou pra isso.
Ele ficou ali, parado, com a pasta vazia debaixo do braço, sem réplica. Levantou, ajeitou o terno, e saiu sem dizer mais nada.
Hoje moro na chácara da Serra da Cantareira. O Capitão ainda grita "bom dia" às seis da manhã, de cima do poleiro perto da janela da cozinha. As galinhas continuam lá, e comprei um cavalo novo, uma égua baia que chamei de Esperança, exatamente onde seu Alberto tinha pedido na carta. Guardei o quadro na parede da sala, no mesmo lugar onde ele via o pôr do sol todo fim de tarde. E Beatriz, com quinze anos, treina de olho fechado os nomes dos remédios dos bichos, repetindo cada um deles enquanto ajuda a arrumar o curral de manhã, decorando pra prova de veterinária que um dia vai fazer.












