Mariana e o Gato da Chuva

Mariana sentiu o aperto no peito ainda na Avenida Rio Branco, três quarteirões antes de chegar em casa. O coração acelerado, os passos mais rápidos, uma vontade estranha de dar meia-volta. Como se alguma coisa estivesse esperando por ela do outro lado da porta, e não fosse coisa boa.

Dona Zélia tinha avisado. Dez anos antes, quando a filha chegou em Belo Horizonte toda sorridente anunciando o noivado com Rodrigo, a mãe só sacudiu a cabeça, séria.

— Esse olhar dele não me agrada, minha filha.

— Ah, mãe, para com isso. O que você viu de errado nos olhos dele?

— Não sei explicar. Mas tem alguma coisa.

Mariana riu na época. Rodrigo era gerente de uma concessionária de carros, educado, bem-apessoado, tinha plano de saúde bom e um Honda Civic novinho. Ela tinha vinte e oito anos, trabalhava havia pouco tempo como assistente administrativa, e via nele exatamente o que sempre quis: estabilidade, uma casa própria, alguém que cuidasse dela.

Casaram em dezembro, lua de mel em Porto Seguro, e foram morar no apartamento de três quartos que a avó de Mariana tinha deixado de herança, na Savassi. Ficava perto do trabalho dela, perto de tudo.

Nos primeiros meses, Mariana ligava para a mãe só para contar as novidades.

— Mãe, o Rodrigo me deu um casaco de couro ontem!

— E isso é felicidade, por acaso?

— Mãe, ele só quer me fazer feliz. Por que você não consegue ficar contente por mim?

— Continuo com um mau pressentimento, filha.

Dois anos se passaram sem que Mariana notasse o tempo correr. Rodrigo ganhava bem, uns onze mil por mês de salário fixo e comissão na concessionária, e repetia sempre a mesma frase à mesa de jantar:

— Mulher de homem que se preze cuida da casa e cozinha bem. Homem é quem sustenta.

— Tá, tá, eu sei — Mariana respondia, baixando os olhos pro prato, e arrumava a casa, cozinhava, cuidava de tudo. Até o dia em que percebeu que não queria passar o resto da vida esfregando o chão e esperando o marido voltar do trabalho. Tinha feito faculdade de design gráfico. O diploma estava guardado numa gaveta da cômoda, atrás das toalhas de mesa que nunca usava, pegando mofo de tanto fechado.

— Rodrigo, eu quero voltar a trabalhar.

— Como assim? Falta dinheiro em casa?

— Não é isso.

— Então o que é? Aqui quem trabalha sou eu, você…

— Eu sei, eu cuido da casa e cozinho bem — ela completou, sem olhar pra ele. — Só que eu quero outra coisa também. Quero criar, conversar com gente, fazer alguma coisa minha.

Foi a primeira briga de verdade em dois anos de casamento. Rodrigo gritou, bateu a mão na mesa, derrubou o copo d'água que escorreu pela toalha até o chão, e disse coisas que Mariana nunca imaginou escutar dele. Ela ficou parada na cadeira, os pés molhados, enxugando o chão com guardanapo de papel sem nem olhar pra ele.

Dali em diante, as coisas ficaram diferentes entre eles. Nada que se pudesse apontar com o dedo — só um gelo fino em cima da mesa na hora do jantar, um "boa noite" seco, um casal dormindo de costas um para o outro.

Mariana não deu ouvidos à proibição do marido. Conseguiu uma vaga de designer numa agência de publicidade no bairro Funcionários, salário menor que o dele, mas um salário dela. Rodrigo parou de trazer presentes, como forma de protesto silencioso. Ela nem sentiu falta.

Um ano depois, surgiu a chance de assumir a coordenação de criação. Mariana só contou em casa depois de aceitar o cargo.

— Já aceitei, Rodrigo. Começo semana que vem.

— Nem perguntou o que eu pensava.

— A última vez que perguntei, você quebrou um copo em cima da mesa.

Ele não respondeu. No fim de semana seguinte, esqueceu — ou fingiu esquecer — de buscá-la na reunião de fechamento de campanha, que tinha avisado com três dias de antecedência. Mariana voltou de táxi, pagou do próprio bolso, e não comentou nada. Comprou roupas novas pra trabalhar, pagou a reforma do banheiro da mãe, dona Zélia, lá no bairro Santa Tereza. Continuava cozinhando, continuava arrumando a casa — só que os pratos ficaram mais simples, porque o tempo tinha encurtado.

Rodrigo andava calado, de cara fechada, tratando-a como se fossem dois estranhos dividindo aluguel.

— Está tudo bem com o Rodrigo? — perguntava dona Zélia, toda vez que a filha vinha visitar.

— Está tudo bem, mãe.

Mentira pequena, dessas que a gente conta para não preocupar quem já tem pressão alta e médico pedindo calma.

Foi numa tarde de sábado, voltando da casa da mãe pela Praça da Liberdade, que Mariana viu um saco plástico vindo na sua direção, empurrado pelo vento forte que varria a praça antes da chuva. Quando o saco chegou aos seus pés, ela abaixou, abriu com cuidado, e encontrou um filhote de gato cinza, molhado, tremendo, com os olhos enormes e assustados.

Mariana nunca tinha sido de se derreter por bichos. Mas enrolou o gatinho no cardigã e apertou o passo pra casa, o corpinho quente batendo contra o peito a cada passo.

Chegou em casa eufórica.

— Rodrigo, olha o que eu encontrei na rua!

— Por que você trouxe isso pra dentro de casa?

— O que foi, Rodrigo?

— Nada! Pra que a gente vai querer bicho aqui? Vai arranhar o sofá, estragar tudo. Eu não gosto de animal dentro de casa.

— Você está sugerindo que eu jogue essa coitadinha de volta na rua?

— Exatamente isso.

Mariana ficou parada, o gatinho ainda enrolado no cardigã, e não disse mais nada por um instante. Primeiro tinha proibido ela de trabalhar. Agora proibia até um gato.

— Não. A Mel vai ficar com a gente. Olha como ela é linda. Como você consegue ser tão sem coração?

— Já inventou nome até, não é? Ótimo.

Outra discussão, inevitável, estourou. Só que dessa vez Mariana não cedeu. Colocou a gatinha numa caixa de sapato forrada com uma toalha velha, no canto do quarto de hóspedes, e avisou que aquele assunto estava encerrado.

Rodrigo bateu a porta do escritório e não saiu mais até a noite.

Nas semanas seguintes, a casa virou um campo minado silencioso. Rodrigo ignorava a gatinha, Mariana cuidava dela escondido, levando ração escondida na bolsa do trabalho, como se fosse contrabando. A Mel crescia, ganhava confiança, dormia enroscada no pescoço de Mariana, e cada vez que Rodrigo entrava no quarto e via aquilo, torcia o nariz e saía sem dizer nada.

Até a manhã em que Mariana não conseguiu encontrar a Mel em canto nenhum da casa.

Procurou debaixo da cama, dentro do guarda-roupa, na área de serviço. Nada. Ligou para Rodrigo no trabalho, a voz já embargada.

— Rodrigo, você viu a Mel?

— Não vi nada, Mariana. Relaxa.

Só que tinha alguma coisa na voz dele, uma pressa estranha para desligar o telefone, que fez Mariana apertar o celular com tanta força que a tela quase escorregou da mão. Ela saiu de casa correndo, sem nem trocar o pijama pela roupa de rua, perguntando ao porteiro, Seu Antônio, se tinha visto algum gato cinza saindo do prédio.

— Vi sim, dona Mariana. Seu marido saiu de manhã bem cedo com uma caixa de papelão. Falou que ia descartar um lixo que estava incomodando.

Mariana ficou parada, uma mão apoiada no balcão da portaria, a outra tapando a boca. Depois saiu correndo pela Savassi inteira, perguntando em cada esquina, checando cada lixeira, até que, duas horas depois, encontrou a caixa encostada num matagal ao lado da estação do metrô. Vazia.

Ligou para a mãe chorando tanto que quase não conseguia falar.

— Mãe, o Rodrigo jogou a Mel fora. Ele abandonou ela na rua.

Dona Zélia ficou calada do outro lado da linha por um instante, só respirando, e depois perguntou baixinho onde é que a filha estava, pra ir buscá-la de carro.

Mariana passou três dias procurando a gatinha pelas ruas do bairro, colando cartazes, perguntando em cada loja, até uma vizinha avisar que tinha visto um bichano parecido recolhido por um protetor de animais que trabalhava perto da estação. Foi lá, reconheceu a Mel pela mancha branca na pata, e levou a gatinha direto para a casa da mãe, no Santa Tereza. Não ia arriscar deixar de novo perto de Rodrigo.

Naquela mesma noite, voltou ao apartamento, encontrou Rodrigo sentado na sala assistindo televisão como se nada tivesse acontecido, e falou sem levantar a voz:

— Eu sei o que você fez.

— Fiz o que era preciso. Não ia viver com bicho dentro de casa.

— Pois é. E eu não vou mais viver com um homem que faz isso.

No dia seguinte, foi direto ao cartório na Rua da Bahia, pediu a certidão de propriedade do apartamento — que estava em nome dela desde a herança da avó, nunca tinha sido dividido — e, três semanas depois, entrou com o pedido de divórcio na Vara de Família, na Praça Rui Barbosa. Trouxe junto o extrato da conta conjunta, que ela fechou naquela mesma tarde, transferindo a parte dela, dezoito mil reais guardados em quatro anos de trabalho, para uma conta nova, só no nome dela.

Rodrigo teve trinta dias para retirar as coisas dele do apartamento. Veio buscar as malas numa tarde de quinta-feira, mas o chaveiro já tinha trocado a fechadura antes da hora marcada, e ele teve que esperar do lado de fora, no corredor, até Mariana descer e abrir a porta pessoalmente.

— Você nem me deixa entrar na minha própria casa.

— O apartamento é meu, Rodrigo. Sempre foi. Você tem trinta minutos para levar suas coisas.

Ele saiu carregando duas malas e uma caixa de ferramentas, sem dizer mais nada. Mariana fechou a porta, trancou com a chave nova, e ligou para a mãe avisando que ia buscar a Mel no fim de semana, agora que o apartamento era só dela, sem risco nenhum.

No sábado, voltou do Santa Tereza com a gatinha enrolada numa manta dentro do carro, e a instalou de novo no quarto de hóspedes, na mesma caixa de sapato que tinha virado caminha definitiva. A Mel farejou cada canto, como quem reconhece um lugar de uma vida antiga, e por fim se enroscou ali, a respiração calma, o corpinho subindo e descendo.

Mariana se sentou no chão ao lado dela, as mãos ainda com o cheiro de ração e de carro de mãe, e ficou ali, sem precisar de mais nenhuma explicação para o que tinha feito.

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