Eu tinha acabado de fazer sessenta e três anos quando aceitei jantar na casa de um homem pela primeira vez. Chamo-me Katarina, sou aposentada do cartório de registro de imóveis de Curitiba, e depois de dezoito anos sozinha — desde que o Admir morreu — já tinha quase me acostumado à ideia de que certas coisas não iam mais acontecer na minha vida. Até aparecer o Osvaldo.
Conheci o Osvaldo numa festa de aniversário de uma prima, lá em Londrina, mas foi em Curitiba que a coisa engrenou. Sessenta e seis anos, aposentado da Receita Federal, viúvo também. Falava pausado, olhava nos olhos, não prometia nada que não pudesse cumprir. Depois de dois meses de conversas no WhatsApp e alguns encontros em cafés da Batel, ele me convidou para jantar na casa dele.
— Katarina, deixa eu cozinhar pra você — disse ele no telefone, com aquela voz tranquila. — Restaurante é barulho, não dá pra conversar direito. Em casa a gente fica à vontade.
Gostei. Achei bonito um homem se oferecer pra cozinhar, sem querer impressionar com nome de restaurante chique no Batel ou no Água Verde. Comprei uma caixa de bombons Kopenhagen, daqueles de licor que ele tinha comentado que gostava, e fui pro apartamento dele no Bigorrilho com aquele frio na barriga de quem ainda acredita que pode dar certo.
Ele morava num prédio antigo, dos anos oitenta, com portaria de madeira escura e aqueles corredores compridos que cheiram a cera. Me recebeu de camisa social passada, cheiroso, e me ajudou a tirar o casaco.
— Você está linda — falou, sorrindo.
O apartamento era grande, com estante cheia de livros de direito tributário e algumas fotos de viagem emolduradas. Tudo organizado na entrada, sapatos em fila, casacos no cabideiro. Mas tinha um cheiro estranho no ar, um bafio de ambiente fechado, como se ninguém abrisse janela há tempos.
Na sala, em cima da mesa, só havia duas taças de vinho. Nenhuma toalha, nenhum prato, nenhum cheiro de comida, nenhuma música baixinha tocando. Pensei que talvez ele ainda estivesse preparando alguma surpresa.
— A janta já está quase pronta? — perguntei, tentando soar calma. — Confesso que já estou com fome.
— Já, já — ele sorriu. — Vem, vamos pra cozinha.
Entrei atrás dele e congelei na porta.
A pia estava completamente tomada por louça sujo. Não eram dois ou três pratos de um almoço esquecido — era panela em cima de panela, talher espalhado, canecas com fundo de café ressecado, uma frigideira com gordura empedrada que parecia ter semanas. Uma esponja murcha boiava numa água parada ao lado da torneira. Em cima do balcão, ingredientes crus jogados sem ordem: batata, cebola, pimentão, um pacote de carne ainda fechado, um maço de macarrão, tempero. Parecia menos uma cozinha pronta para o jantar e mais uma prova escolar que alguém tinha preparado pra mim.
— Pronto — ele disse, satisfeito, como quem tinha inventado algo muito inteligente. — Está tudo aí.
— Tudo o quê, exatamente? — perguntei, sentindo o ombro travar.
— A vida de casa de verdade — respondeu ele. — Eu não quero só uma mulher pra sair, Katarina. Eu quero saber se você sabe cuidar de uma casa, de um homem. Deixei a louça sujo de propósito. Quero ver como você se comporta numa situação real. Palavra não prova nada. A cozinha mostra tudo.
Fiquei ali, de vestido bom, sapato escolhido com cuidado, cabelo arrumado, no meio daquele cheiro de gordura velha, olhando pra ele. Ele não estava brincando. Não tinha nenhuma risadinha no canto da boca esperando que a gente caísse na gargalhada junto. Ele achava mesmo que aquilo era um teste justo. Achava mesmo que tinha o direito de convidar uma mulher pra jantar e depois empurrar ela pra pia, como se eu tivesse me candidatado a emprego de empregada.
Pensei em ajudar. Pensei que talvez fosse só jeito antigo dele, educação de outra geração, que talvez não fosse maldade. A gente passa a vida sendo ensinada a ser gentil, paciente, agradecida — agradecida até quando alguém escolhe a gente, agradecida mesmo quando, depois dos sessenta, ainda aparece alguém prometendo um futuro juntos. Agradecida mesmo quando essa gratidão já cheira a humilhação.
Foi nesse instante que percebi: tinha dois caminhos na minha frente. Um era o antigo — sorrir, arregaçar a manga, lavar a louça, cozinhar, voltar pra casa de noite com aquele gosto amargo de ter me traído outra vez. O outro era mais assustador, porque nele eu deixava de parecer a mulher boazinha, a futura esposa exemplar, a dona de casa perfeita. Nesse caminho só existia uma mulher dizendo, com a voz firme, que aquilo tinha acabado.
— Osvaldo — falei, sem levantar a voz —, me passa o seu celular um minuto. Quero te mostrar uma coisa.
Ele estranhou, mas entregou, achando que eu ia pedir pra chamar um aplicativo de corrida ou coisa assim. Abri a câmera, fotografei a pia inteira, os ingredientes crus jogados na mesa, o relógio de parede marcando sete e vinte da noite. Devolvi o celular na mão dele.
— Isso é pra você guardar — disse. — Porque é a última cozinha sua que eu vou ver na vida.
Peguei minha bolsa, peguei a caixa de bombons que tinha deixado em cima do aparador — não ia deixar pra ele — e fui até a porta. Ele veio atrás, confuso de verdade, sem entender onde tinha errado.
— Espera, Katarina, isso é bobagem, qualquer mulher ia entender que é só um teste…
— Eu entendi perfeitamente o teste — respondi, já com a mão na maçaneta. — Só que o resultado não foi o que você esperava. Você queria ver se eu sei ser empregada. Eu vou te mostrar que sei ser dona da minha vida.
Fechei a porta. No corredor do prédio, com aquele cheiro de cera antiga, liguei pro grupo de WhatsApp das minhas amigas do cartório — nós quatro, aposentadas, que se reúnem toda terça pra jogar buraco — e contei tudo em voz alta, andando até o ponto de táxi na esquina da Comendador Araújo.
No dia seguinte, abri o aplicativo do Nubank, aquele onde eu tinha, sem anunciar pra ninguém, guardado um dinheirinho pensando em reformar o banheiro do meu apartamento depois que o namoro desse mais certo — quatro mil e duzentos reais, economizados mês a mês dos últimos seis meses de aposentadoria, só de cortar gastos com farmácia e taxi. Cancelei a reforma que tinha ficado só de conversa e marquei, em vez disso, uma viagem pra Foz do Iguaçu com minhas três amigas de terça-feira, sozinha de homem, só nós quatro, pacote de quatro dias já pago à vista.
O Osvaldo mandou mensagem três vezes naquela semana. Na última, escreveu que tinha "exagerado" e que podíamos "recomeçar do zero, com restaurante até, se eu preferisse." Não respondi nenhuma. Simplesmente apaguei o número e bloqueei no WhatsApp, enquanto arrumava, em cima da mesa da cozinha — a minha, limpa, com toalha florida e um vaso de violeta — a passagem de ônibus executivo impressa, esperando o dia da viagem.












