Contratei um ator e ele desmascarou meu ex na churrascada em Búzios

Quinze anos de casamento e, num domingo qualquer de março, Rogério largou a xícara de café na mesa da cozinha e falou, calmo como quem avisa que vai chover: queria o divórcio. Tinha outra. Patrícia, a assistente dele na construtora, vinte e seis anos, doze mais jovem que eu.

Antes de pegar as malas, ainda soltou a frase que eu levaria meses pra conseguir esquecer:

— Você não é mais a mulher que eu casei, Fernanda. Se olha no espelho.

Fiquei ali, parada, torcendo o pano de prato até os nós dos dedos ficarem brancos, enquanto a xícara dele esfriava na pia.

Dois meses depois, dona Lourdes — minha ex-sogra, mulher de setenta e um anos que sempre me tratou melhor que a própria família tratava — ligou convidando eu e as crianças pra festa de fim de ano dela em Búzios, no sítio com piscina que a família alugava todo dezembro desde que eu me lembro. Tradição de quase vinte anos. Eu quase disse não. Mas eram meus filhos também, Lucas, Bia e o pequeno Theo, e eu não ia deixar que o medo de encontrar Rogério e a tal Patrícia na piscina decidisse se eu ia ou não ver minha ex-sogra.

Foi numa noite sem conseguir dormir, rolando o Instagram às duas da manhã, que me veio a ideia mais ridícula e mais genial que já tive: contratar um ator pra fingir ser meu namorado. Achei um anúncio de um ator desempregado em Niterói, chamado Caio, que fazia bicos de "acompanhante para eventos" — nada do que vocês estão pensando, rigorosamente profissional, contrato e tudo. Paguei oitocentos reais pela tarde.

Quando ele chegou na minha casa, de camisa social azul-marinho e um jeito tranquilo demais pra situação, quase cancelei tudo.

— Caio, olha, ninguém vai acreditar que um homem como você tá interessado numa mulher de trinta e nove anos com três filhos e uma hipoteca.

Ele riu, descontraído, e disse só:

— Vamos naquela festa. Você merece mostrar que está bem.

A festa era num sábado de sol de rachar, churrasco fumegando, caixa de som tocando sertanejo, criançada pulando na piscina. Rogério chegou de braço com Patrícia vestindo um biquíni novo, uns vinte minutos depois de mim e Caio. Foi direto na nossa direção, cumprimentando todo mundo, até chegar perto.

— E esse aqui quem é? — perguntou, encarando Caio de cima a baixo.

Apresentei Caio como meu namorado. Rogério soltou uma risada alta, chamando a atenção de uns dez convidados ao redor da piscina.

— Para com isso, Fernanda. Quanto você pagou pra esse cara vir aqui fingir? — falou, rindo, virando pra Patrícia, que torcia a ponta do pareô entre os dedos, como quem já tinha ganhado a parada.

Senti o rosto esquentar, vontade de sumir ali mesmo, afundar na água e nunca mais voltar. Mas Caio não se moveu. Segurou minha mão com firmeza — um gesto simples que em quinze anos de casamento Rogério nunca tinha feito do jeito certo, na hora certa — e não respondeu a provocação. Só ficou ali, educado, e foi beber sua cerveja.

Dez minutos depois, bateu o garfo na taça de vinho, pedindo atenção. Todo mundo parou.

— Antes de irmos, eu queria agradecer a família por me receber tão bem. Mas tem uma coisa que eu não posso deixar passar.

Os olhares se viraram pra ele.

— Faz uma hora que eu escuto um homem humilhar a mãe dos próprios filhos só pra alimentar o próprio ego. E a única pessoa que devia estar com vergonha aqui é quem jogou fora quinze anos de casamento por um caso passageiro.

Um silêncio gelado desceu sobre a piscina, só o som do chuveirinho ligado lá no fundo do quintal.

— Você disse que ela me pagou? Tá enganado. Sim, sou ator. Mas hoje eu não vim interpretar nenhum papel. Depois que conheci a história dela, aceitei vir porque ela merece, finalmente, ser tratada com respeito.

Alguns convidados começaram a bater palma, baixinho primeiro, depois mais forte.

Dona Lourdes se levantou da cadeira de praia, veio na minha direção com os olhos cheios d'água, pegou minha mão na frente de todo mundo.

— Fernanda, você sempre foi filha pra mim. Rogério, você devia morrer de vergonha.

Patrícia, vendo que a família toda agora olhava pra ela com desprezo escancarado, jogou a taça dentro da piscina, gritou alguma coisa pro Rogério que eu nem entendi bem, e saiu andando rápido até o carro, as sandálias batendo no chão de pedra.

Rogério ficou parado, as mãos penduradas ao lado do corpo, sem conseguir falar nada.

Foi a primeira — não, foi a vez, desde o divórcio, que não fui eu quem baixou os olhos primeiro.

Três semanas depois, sentei com a advogada, dra. Marisa, num escritório na Barra da Tijuca, e assinei o pedido de revisão da pensão: Rogério tinha escondido um aumento de salário na construtora, dezoito mil reais líquidos por mês contra os onze que ele declarava. A dra. Marisa colocou os documentos na minha frente, extrato bancário, holerites impressos, e eu assinei cada folha com a letra firme, sem pressa.

Liguei pra dona Lourdes naquela mesma noite pra contar. Ela só riu baixinho no telefone e falou:

— Esse menino nunca mais vai ter coragem de levar ninguém pra piscina de novo, viu?

Patrícia terminou com Rogério um mês depois da festa. Ele me mandou uma mensagem perguntando se "a gente podia conversar". Deixei no visto, fechei o celular, e fui buscar os três no colégio.

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