Casa própria, Nelson que se vire sozinho
Sabe, por muito tempo eu não conseguia contar isso pra ninguém. Minha irmã Cristina perguntava: "Irene, e aí, como vai com o Nelson?" — e eu sorria, dizia que estava tudo ótimo. Mentira, claro. Agora vou contar como foi de verdade, sem maquiagem, porque acho que se eu não colocar isso pra fora, vai continuar me afogando por dentro.
A gente se conheceu no aniversário de cinquenta anos da minha irmã, em Campinas. O Nelson era convidado do lado do marido dela — um conhecido do trabalho, nem entendi bem na hora quem ele era e por que estava lá. Sentado todo elegante, camisa social, aqueles fios grisalhos bonitos, falando com segurança. Na minha idade, você sabe como é, já não chove elogio todo dia, e aí vem um homem, me serve uma taça de vinho, pergunta do meu trabalho, ri das minhas piadas. Subiu à cabeça, não vou negar.
Começamos a trocar mensagem, depois a sair. Ele me cortejou bonito — restaurante, flor, ligava todo fim de tarde perguntando "como foi seu dia, minha linda". Eu, boba e apaixonada, derreti de vez. Um mês depois — um mês só! — ele disse: "vem morar comigo, pra que você vai ficar se sacrificando aí". E eu, nessa época, tinha minha filha Larissa morando no meu apartamento, em Sousas, com o marido dela e meu neto Theo, de quatro anos. Pensei: o apartamento é meu, não vai sair do lugar, deixa os jovens viverem em paz, porque hoje em dia comprar imóvel pra filho é coisa de outro planeta. Pensei que estava fazendo um bem pra mim e pra eles. Fui morar com ele.
Os primeiros três meses foram um sonho, sério. Ele me levava ao cinema, cozinhava de vez em quando, dizia "Irene, você merece o melhor". Eu enchia o saco das amigas contando: olha, tive sorte na velhice, achei meu homem. Hoje penso nisso e me pergunto como fui tão ingênua. Ou talvez não fosse ingenuidade — é que, com cinquenta e cinco anos, a gente quer acreditar que ainda dá tempo de ser feliz, entende?
E depois alguma coisa mudou de chave. Não foi de um dia pro outro, foi chegando pouco a pouco, como água enchendo um porão. No começo eram detalhes. Eu trabalho como vendedora numa loja de material de construção — fico o dia inteiro em pé, de noite as costas ardem, os pés incham. Chegava em casa e encontrava uma pilha de louça de dois dias, o fogão sujo, roupa pra passar amontoada. Eu dizia: "Nelson, você não podia lavar nem os pratos?" E ele me olhava como se eu tivesse pedido um rim: "Irene, eu sou homem, trabalhei o dia todo, tenho reunião, compromisso. Você é mulher, casa é obrigação sua. Minha mãe me criou assim, e eu sou acostumado assim."
No começo pensei: tudo bem, homem de idade, hábito formado, a gente ajeita. Só que foi piorando. Ele passou a criticar qualquer coisa. Sopa sem sal — "você nem sabe cozinhar, sua mãe não te ensinou nada?" Camisa passada torta — "minha ex-mulher passava roupa perfeita, você não sabe fazer nada direito". Me comparava com a ex-mulher dele toda hora, e sempre eu perdendo: ela limpava melhor, cozinhava melhor, tinha corpo melhor na minha idade. Imagina ouvir isso todo santo dia.
Depois vieram os olhares e o tom de voz. Tem diferença entre um homem só chateado e um homem que quer te humilhar de propósito. Com o Nelson era a segunda opção. Ele me via de roupão, em pé no fogão depois de um turno inteiro, e dizia: "Que visual, hein, uma rainha de beleza." Ou a clássica — eu chegando do trabalho por volta das sete da noite, exausta, e ele sentado no sofá com o controle remoto: "Não deu tempo de arrumar de novo? Preguiçosa, Irene, no fundo você é uma preguiçosa." Isso com eu trabalhando o dia inteiro, e ele, já aposentado do banco onde trabalhava, ficando em casa o dia todo, só às vezes fazendo uma "consultoria" por telefone.
O mais humilhante era a louça. Aquilo se tornou minha tortura particular. Ele deixava de propósito, tenho certeza, toda a louça sujo depois de comer — prato, panela, colher na pia, como que mostrando: olha, nem vou tocar nisso. E se eu não lavasse na hora, começava o discurso de como eu era desleixada, de como dona de casa de respeito não deixava bagunça desse tipo, e que ele tinha vergonha se alguém chegasse de visita e visse aquela pocilga.
Dinheiro ele nunca me dava, mesmo eu tendo ido morar com ele praticamente só com uma mala. Comprava mantimento com meu próprio salário de vendedora — e salário de vendedora, você sabe, não é lá essas coisas. Enquanto isso, ele comprava celular novo ou ia pescar com os amigos sem pensar duas vezes. E se eu dizia que o dinheiro não tinha dado pra comprar comida naquele mês, ouvia algo do tipo: "Ah, o que você queria, eu não assinei pra te sustentar, se vira com o que você ganha."
Teve frase que fica rodando na minha cabeça até hoje. Um dia pedi pra ele me ajudar a subir as sacolas de compra do carro até o apartamento — quinto andar, elevador quebrado. Ele disse: "Minha coluna tá doendo, eu não sou carregador, você que inventou de comprar sacola pesada." E a coluna dele, veja bem, funcionava perfeitamente quando ele ia pescar carregando equipamento pesado.
O mais estranho é que ele sabia ser encantador na frente dos outros. A gente ia numa festa de amigo dele, e ele todo gentil, oferecendo o braço, falando elogio: "minha Irene", "mãos de ouro", esse tipo de coisa. E assim que a porta se fechava, voltava aquele rosto gelado, cheio de desprezo. E você entende que ninguém vai acreditar se você contar, porque todo mundo só vê essa máscara.
Comecei a reparar em mim mesma fazendo coisa estranha. Uma vez queimei o arroz porque atendi uma ligação da Larissa, e corri atrás dele pelo corredor pedindo desculpa antes mesmo de ele dizer qualquer coisa, só prevenindo o que vinha. Outra vez, encontrei a sacola do pão amassada no fundo do carro e já fui pensando em como ia explicar aquilo, como se fosse crime. Não sei quando passei a andar pela própria casa pedindo desculpa por coisas que nem tinha feito.
Teve uma vez que fiquei doente, trinta e oito de febre, deitada sem forças. E ele andando pela casa, dizendo: "Agora quem vai cozinhar, quem vai limpar, que conveniente ficar doente, não é mesmo." Eu, deitada, pensando: meu Deus, será que é normal alguém falar assim com você quando você está mal?
Minha filha, Larissa, sentia que algo estava errado. Ligava: "Mãe, você andou meio triste, tá tudo bem com vocês?" E eu dava uma desculpa qualquer, dizia que só estava cansada do trabalho. Tinha vergonha de admitir. Pensava: tenho cinquenta e cinco anos, mulher adulta, e caí numa história dessas, igual uma menina de dezoito anos boba. Quem vai confessar uma coisa dessas?
O que me derrubou de vez foi uma noite comum. Chego do trabalho, pernas doendo, cabeça explodindo. Entro na cozinha — e lá tinha a frigideira do café da manhã com gordura seca, xícara, migalha de pão espalhada pela mesa toda, e o Nelson sentado na sala, vendo televisão. Eu, sem drama, sem gritaria, só disse: "Nelson, será que você não pode lavar sua própria louça pelo menos uma vez? Acabei de chegar do trabalho, me dá cinco minutos pra respirar." Ele se levanta, vai até a cozinha, olha pra frigideira, depois pra mim, e diz — calmo, quase achando graça: "Irene, você está aqui pra isso. Cozinhar, limpar, cuidar da casa. Se não gosta, a porta está aberta, ninguém te prende aqui."
E naquele momento alguma coisa travou dentro de mim. Não foi choro, não foi crise — foi uma clareza fria. Entendi: pronto, falou tudo com as próprias palavras. Eu não estava lá como mulher amada, como parceira — estava lá como empregada que pode ser humilhada a qualquer hora, e ainda por cima vai ser a culpada.
Não fiquei discutindo, provando nada, exigindo desculpa. Fui pro quarto, tirei a mala — aquela mesma com que eu tinha chegado um ano e meio antes — e comecei a arrumar as coisas. Ele, no começo, não acreditou, pensou que eu estava com raiva como de costume e que em uma hora ia esfriar. Depois, quando viu que eu estava falando sério, começou a enrolar: "Tá bom, desculpa, não quis dizer desse jeito, vamos conversar." Mas eu já tinha decidido. Juntou coisa demais, falou coisa demais, pra uma noite só apagar tudo.
Liguei pra Larissa, disse: "Filha, vou pra casa, te conto tudo, não se assusta." Ela ficou surpresa, claro, mas não enchia de perguntas, só disse: "Mãe, vem, a gente resolve." O marido dela, Rodrigo, até me ajudou a carregar as coisas, sem uma palavra de crítica, pelo contrário, fez chá e disse: "Dona Irene, a senhora está em casa, ponto final."
Foi nesse mesmo apartamento, em Sousas, que eu assinei no cartório, três semanas depois, a devolução da procuração que tinha dado ao Nelson pra movimentar uma conta conjunta que a gente tinha aberto no começo do namoro — ele tinha insistido, dizendo que era "pra facilitar as contas da casa". Fui ao banco, encerrei aquela conta, que tinha pouco mais de nove mil reais guardados do meu salário, e transferi tudo pra minha conta sozinha. Ele me ligou no mesmo dia, furioso, perguntando por que eu tinha feito isso sem avisar.
Eu estava na cozinha de Larissa quando o telefone tocou, lavando a louça do almoço — minha louça, do meu jeito, no meu tempo. Sequei as mãos no pano pendurado na alça do forno antes de atender. Ouvi ele gritar do outro lado, e respondi, bem tranquila: "Porque agora é minha vida, meu dinheiro, minha casa. Você teve um ano e meio pra me tratar como gente e não quis." E desliguei, guardei o celular no bolso do avental, e voltei pra pia, terminar de lavar os pratos que eram só meus.












