A sala com vista para o Guaíba

— A senhora está nos jogando na rua, mãe? — Rodrigo falou isso parado perto da mesa, as orelhas vermelhas, enquanto Camila chorava tão alto que a vizinha do apartamento 302 devia estar ouvindo cada palavra pela parede fina.

Eu segurava a caneca de café já frio e olhava para os dois. Na minha própria sala, naquele sofá de couro que comprei com o dinheiro do seguro depois que o Gerson morreu, estava sentada a Camila, com aquela cara de quem levou uma injustiça. E eu me sentia estranha ali, como uma hóspede incomodando os donos legítimos da casa.

— Não estou jogando ninguém na rua — respondi baixinho. — Estou dando três meses. Foi o que a gente combinou.

— Combinou? — Camila secou o rosto. — Agora a senhora vem com exigência? Depois de tudo que a gente faz pela senhora?

Até hoje não sei bem o que eles faziam por mim. Talvez fosse o Rodrigo tirando o lixo de vez em quando. Ou a Camila comprando pão uma vez por semana, com o dinheiro que eu mesma dava, porque "de qualquer jeito ela come junto com a gente".

Um ano antes, quando propus que eles viessem morar comigo, parecia a coisa mais natural do mundo. Rodrigo e Camila alugavam um apartamento pequeno em Petrópolis, bairro de Porto Alegre, pagando um aluguel que comia quase todo o salário dos dois e não deixava quase nada para guardar. Diziam que sonhavam com a casa própria, mas sem entrada o banco nem conversava com eles.

— Mãe, no máximo um ano, ano e meio — o Rodrigo tinha prometido naquela época. — A gente ajuda nas contas, junta uma grana e sai pra ter o nosso canto.

Eu tinha sessenta e três anos, viúva havia seis. Morava sozinha num apartamento de três quartos no bairro Tristeza, grande demais pra uma pessoa só, e as noites eram muito silenciosas. Pensei que ia ser bom ter gente em casa de novo. Recuperar aquele barulho de conversa, cheiro de almoço no fogão, risada de alguém pela casa.

As primeiras semanas foram até gostosas. Camila trouxe um vasinho de suculenta pra sala, o Rodrigo trocou o registro que vazava no banheiro. No domingo a gente fazia galeto junto. Só que os probleminhas começaram rápido.

— Dona Lurdes, a senhora podia não comprar mais essa margarina, né? É tudo químico — a Camila falava, abrindo minha geladeira pra olhar.

Depois ela parou de dizer "dona Lurdes". Passou a falar: "Lurdes, não deixa isso aí", "Lurdes, não entra de manhã na cozinha porque eu tô em home office", "Lurdes, a televisão tá muito alta".

No começo eu cedia. Os jovens têm outros costumes, eu dizia pra mim mesma. Tirei minhas coisas da prateleira do banheiro e coloquei numa cestinha pequena. Comecei a fazer compra de manhãzinha bem cedo, pra não incomodar a Camila nas reuniões de trabalho dela. De noite eu ficava no meu quarto, porque na sala eles viam série, e eu, segundo ela, "falava sozinha" vendo o jornal.

O que mais doía era o jeito do Rodrigo de fechar a conversa antes que ela começasse. Meu filho, que eu criei sozinha desde que o pai dele morreu de infarto do nada, aos quarenta e nove anos — os dois contra o mundo, dividindo pão com mortadela no fim do mês, eu estudando a lição dele depois do expediente pra poder ajudar. Agora, quando eu tentava conversar com ele, ele olhava pro celular e só suspirava.

— Mãe, não cria caso. A Camila tá cansada. A senhora precisa relaxar um pouco.

Depois de oito meses, eles pararam de ajudar nas contas. O Rodrigo disse que perdeu a comissão no trabalho, a Camila falava que a empresa dela tava num período ruim. Eu entendia. Entendia de verdade, porque também já contei centavo em outros tempos. Mas ao mesmo tempo eu via o tênis novo da Camila, as caixinhas de maquiagem chegando, o fim de semana em Gramado, o jantar pedido todo dia pelo aplicativo.

Quando perguntei quanto eles já tinham guardado, o Rodrigo me olhou como se eu tivesse ofendido ele.

— Eu não controlo o dinheiro dela, mãe. Fico preocupado porque era pra ser um ano.

— E daí? A senhora quer cobrar centavo de tudo que a gente gasta?

A virada de verdade aconteceu em julho. Voltei da consulta médica mais cedo do que o normal. A porta do meu quarto estava fechada, coisa que eu nunca fazia. Lá dentro, a Camila estava colocando minhas coisas em caixas de papelão.

— A gente precisa de um quarto maior. O Rodrigo não dorme bem naquele sofá-cama.

— Mas você passa quase o tempo todo na sala… quer dizer, no seu quarto. Esse quarto aqui é mais claro, melhor pra trabalhar.

Fiquei parada na porta e senti que não dava mais pra continuar daquele jeito. Não gritei. Talvez por isso tenha pesado tanto.

— Até o fim de setembro vocês acham um lugar pra morar.

O Rodrigo chegou de noite. Não perguntou o que tinha acontecido. Já chegou do lado da mulher.

— A senhora tá exagerando. A Camila só queria organizar melhor o espaço.

— Justamente por isso a gente devia se respeitar.

Desde aquela discussão ele quase não fala comigo. A Camila contou pra minha irmã, a Terezinha, que eu sou fria e que deixei os dois sem ajuda nenhuma. A Terezinha me ligou e perguntou, com cuidado, se eu não podia "aguentar mais um pouco, pela paz".

Só que eu não entendia por que essa tal paz sempre significava que eu tinha que desaparecer.

Era setembro, faltavam dez dias pro prazo acabar, e numa sexta de manhã a campainha tocou antes das oito. Era o Rodrigo, sozinho, com a chave que eu tinha dado a ele guardada no bolso da jaqueta.

— Mãe, a Camila falou que se a senhora não voltar atrás, ela vai contar pra todo mundo que a senhora nos abandonou doente. Ela tá devendo quatro meses de cartão, dezoito mil reais. Achou que a senhora ia ajudar.

Fiquei olhando pra ele um bom tempo antes de responder. Era a primeira frase inteira que ele me dizia em semanas, e mesmo assim não era dele: era recado da Camila, carregado nas costas como sempre.

— Então era isso.

Entrei no escritório. Minha mão tremeu um pouco ao abrir a gaveta de baixo da escrivaninha — não de medo, mas porque aquele gesto ia custar uma parte de mim que eu não recuperaria depois — e tirei a pasta com o contrato de comodato que o advogado, o doutor Nilton, tinha preparado comigo em agosto, assim que decidi que aquilo precisava ficar por escrito. Coloquei em cima da mesa, ao lado do celular com o aplicativo do banco já aberto, mostrando o saldo da conta que era só minha.

— Esse papel diz que vocês tinham autorização pra morar aqui até trinta de setembro. Depois disso, eu não devo explicação a mais ninguém sobre minha casa. E não vou pagar a dívida de cartão de ninguém, Rodrigo. Nem a tua, nem a dela.

Minha voz quase quebrou no nome dele. Segurei.

— A senhora vai nos deixar na mão desse jeito?

— Vocês tiveram um ano e dois meses, não um ano e meio que vocês combinaram, pra guardar dinheiro pra um apartamento. Em vez disso guardaram tênis novo e viagem pra Gramado. Isso não é problema meu resolver agora com pressa.

Liguei pro doutor Nilton ainda com o Rodrigo parado na sala. Pedi pra ele agendar a troca da fechadura pro dia primeiro de outubro, caso precisasse, e confirmei por escrito, por mensagem, o fim do comodato. Mandei uma cópia pro Rodrigo ali mesmo, na frente dele, pelo celular.

Ele ficou parado um instante olhando a tela do próprio celular acender com a mensagem, como se esperasse que as palavras fossem mudar. Não mudaram. Saiu sem dizer mais nada. Dois dias depois, a Camila publicou no status que eu tinha "destruído a família". A Terezinha ligou de novo, mais tímida dessa vez. Eu disse pra ela que não ia discutir aquilo pelo telefone, que quem quisesse entender a história de verdade podia vir tomar um café comigo, na minha sala, no meu sofá.

No dia trinta de setembro, o Rodrigo desceu as malas primeiro, duas viagens até o carro, enquanto a Camila esperava embaixo com as caixas. Na última vez que ele voltou, pra buscar o resto, parou na porta com a mão na maçaneta por mais tempo do que precisava.

— Mãe… — começou, e não terminou. Ficou ali, olhando pro vasinho de suculenta que a Camila tinha esquecido na estante, aquele mesmo das primeiras semanas boas. Pegou o vasinho, hesitou, e por fim colocou de volta em cima da mesa, perto de mim, sem dizer por quê.

— Pode deixar que eu cuido dele — foi tudo que eu consegui responder.

Ele assentiu com a cabeça baixa e saiu. Não teve abraço, não teve "até logo". Só o som da porta fechando e, depois, o carro sumindo na esquina, com os dois dentro.

Fiquei um tempo parada com o vasinho na mão antes de levar pra cozinha. Fiz café, só pra mim, e tomei sentada sozinha na mesa, o vasinho de suculenta do lado, sem pressa de ninguém, mas com o silêncio pesando diferente daquele que eu conhecia antes de tudo isso começar.

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A sala com vista para o Guaíba