A canela da Hana

Falei pra minha irmã que ia adotar um gato assim que voltasse de viagem, e ela riu: "Você nem consegue manter uma samambaia viva, Rafael." Isso foi em janeiro de 2024, três semanas antes de eu embarcar pra Fukuoka com a mochila cheia de remédio pra alergia e um caderno onde eu ia anotar os nomes dos peixes que via nos aquários. Eu trabalho com manutenção de equipamentos veterinários — ando de clínica em clínica em Curitiba consertando raio-x e centrífuga, então minha vida inteira gira em torno de bicho, só que sempre do lado de fora da gaiola, nunca dentro de casa.

No aeroporto de Fukuoka, mal eu tinha pegado a mala, uma mulher com um microfone amarelo e um rapaz carregando uma câmera enorme vieram na minha direção. Era pra um programa de TV local, uma dessas séries que ficam entrevistando estrangeiros que acabaram de desembarcar. Ela perguntou meu nome, de onde eu vinha, o que eu ia fazer nas três semanas. Eu disse que queria visitar um santuário de gatos numa ilha chamada Aoshima, porque lá os bichos são mais numerosos que os moradores. A repórter achou graça, filmou uns quinze segundos e foi embora atrás de outro passageiro. Esqueci do assunto no mesmo dia — nem contei pra minha irmã.

Um ano depois, em fevereiro de 2025, recebi um e-mail de uma produtora japonesa avisando que aquele trecho ia finalmente entrar no ar, atrasado por causa de um corte de grade. Não dei muita bola. Mas três dias depois do episódio ir ao ar, apareceu uma mensagem no Instagram de uma pessoa chamada Suzu. "Te vi na TV falando dos gatos de Aoshima. Eu também tenho um vira-lata caramelo chamado Momo, ele detesta banho." Foi essa frase boba sobre o cachorro que me fez responder.

A gente foi trocando mensagem quase todo dia. Ela mandava foto do Momo dormindo em cima da roupa lavada, eu mandava foto de cachorro perdido que eu via nas ruas de Curitiba tentando ajudar a achar o dono. Descobri que ela trabalhava numa clínica veterinária em Fukuoka — coisa de destino, ela cuidando de bicho por dentro, eu por fora. Em maio, numa ligação de vídeo que durou até três da manhã aqui, perguntei se ela topava namorar a distância. Ela ficou uns bons segundos calada, só mexendo no rabo de cavalo, antes de dizer que sim.

Passamos quase um ano assim, ligação toda noite, fuso horário brigando com a gente — quando era sete da noite pra mim, era sete da manhã pra ela. Os pais da Suzu não sabiam de mim até outubro, quando ela finalmente contou pro pai, dono de uma peixaria perto do porto. Ele perguntou só uma coisa: "Esse brasileiro sabe limpar peixe?" Ela riu e disse que não, que eu só sabia consertar aparelho de raio-x de cachorro.

Marcamos de nos encontrar em setembro deste ano, quatro dias atrás, no aeroporto de Guarulhos — ela conseguiu visto de turista e comprou passagem com as economias de dois anos trabalhando na clínica. Cheguei uma hora antes, sentei perto do portão de desembarque internacional com um cartaz de papelão escrito "Momo manda beijo" porque sabia que ia fazer ela rir assim que saísse da fila da alfândega. Quando ela apareceu empurrando o carrinho de bagagem, com um casaco cinza grande demais pro calor de São Paulo, meu primeiro pensamento foi que as fotos tinham escondido a cicatriz fininha que ela tem na canela — de quando caiu de bicicleta aos dez anos — e que eu só fui reparar ali, na vida real, quando ela abaixou pra amarrar o cadarço do tênis.

Levei ela direto pro apartamento da minha irmã em Pinheiros, porque o meu é pequeno demais e cheio de peça de equipamento espalhada pela sala. No segundo dia, fomos ao abrigo onde eu ajudo aos sábados, na Vila Madalena, e ela passou quarenta minutos sentada no chão de cimento com uma gata preta chamada Ameixa que ninguém consegue pegar no colo. Saiu de lá com a calça cheia de pelo e perguntou se dava pra adotar antes de voltar pro Japão. Expliquei que não dava, que o processo de quarentena e documentação levava meses. Ela ficou séria, olhando pro chão do canil, e falou que ia voltar em dezembro pra buscar a Ameixa, nem que precisasse pedir demissão da clínica.

No terceiro dia, o pai dela ligou por vídeo direto da peixaria, com o avental ainda sujo de escama, e perguntou de novo, agora pra mim: "Sabe limpar peixe?" Eu disse que não, mas que sabia trocar tubo de raio-x veterinário em vinte minutos. Ele riu, um riso curto, e falou que ia ensinar quando eu fosse pra Fukuoka em janeiro — porque eu já tinha decidido ir, com passagem comprada na noite anterior, sem contar pra minha irmã ainda.

Ontem, no quarto dia, fomos até o cartório perto da Estação Paraíso do Metrô resolver a papelada de prorrogação do visto de turista dela, que vence em novembro. O funcionário perguntou se éramos casados, e a Suzu respondeu "ainda não" antes de eu conseguir abrir a boca. Peguei o formulário de próprio punho, preenchi meu CPF na parte de patrocinador de estadia, e assinei embaixo do nome dela. Foi a primeira coisa oficial, com papel e carimbo, que a gente fez juntos — não uma mensagem, não uma ligação de madrugada, mas um documento com validade de noventa dias que os dois vamos ter que renovar de novo em dezembro, quando ela volta pra buscar a Ameixa e, com sorte, pra ficar de vez.

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