Reencontro em Ribeirão Preto: o que esperou quinze anos não precisou de pressa

Reencontro em Ribeirão Preto: o que esperou dezessete anos não precisou de pressa

Tenho 46 anos e moro em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Hoje tenho um relacionamento que, se tivesse começado no momento em que conheci esse homem, provavelmente teria arrasado a vida de muita gente. Nos conhecemos quando eu tinha 29 anos, trabalhando como analista financeira numa distribuidora de autopeças ali perto da Avenida Independência. Ele era representante comercial de uma fornecedora que atendia a empresa, e a gente se cruzava toda semana. Tínhamos amigos em comum, saíamos no mesmo grupinho de churrasco de sábado. O problema é que os dois já estávamos em relacionamentos sérios. Eu namorava havia quase cinco anos. Ele morava junto com a namorada havia uns seis. Nunca nos beijamos. Nunca houve nada físico entre a gente. Mas seria mentira dizer que não acontecia nada ali. Tinha olhar demorado demais. Conversa que os dois meio que esperavam a semana inteira. E aquela ansiedade esquisita de saber que, daqui a pouco, ia aparecer alguém que você não deveria estar tão ansiosa pra ver.

Uma noite, depois de um aniversário na casa de um amigo, ficamos sozinhos no estacionamento, perto do meu Fiat Uno. Ele perguntou direto: "Você também sente isso entre a gente?" Eu respondi: "Sinto." Foi a única vez que falamos abertamente sobre aquilo. Os dois concordamos que talvez fosse só atração. Coisa nova. Algo que parece enorme só porque é proibido. E que seria um absurdo destruir dois relacionamentos estáveis por causa de uma coisa que nem sabíamos direito o que era. Lembro dele dizendo: "A gente podia se beijar uma vez só, pra descobrir que nem valia tanto a pena assim." Rimos. Nos despedimos. E não nos beijamos.

Pouco depois ele mudou de emprego, foi trabalhar numa fábrica em Sertãozinho, e aos poucos paramos de nos ver. Eu casei com meu namorado da época — chamava Rogério, e foi com ele que tive meu filho, dois anos depois do casamento. Ele também se casou com a namorada dele. Teve duas meninas. Durante anos só ouvia falar dele por amigos em comum: que tinha virado pai, que tinha se mudado pra Franca, que estava numa empresa grande. Uma vez vi ele no Instagram com a família inteira, numa foto de aniversário, bolo de chocolate e balões no fundo. Fiquei olhando mais tempo do que devia. Depois fechei o aplicativo e fui resolver a vida do meu filho, que tinha prova de matemática no dia seguinte.

Meu casamento com Rogério acabou seis anos atrás, e não foi uma separação fácil: ele demorou a sair de casa, e o apartamento, que era nosso dos dois no papel, ficou como uma pendência mal resolvida — ele sempre adiava a assinatura da transferência, dizendo que "um dia podia precisar daquilo como garantia". Eu deixei aquilo de lado por um bom tempo, cansada demais de brigar por um detalhe de cartório. Fiquei sabendo, por essas mesmas amigas em comum, que o representante comercial também tinha se separado fazia pouco mais de um ano. Nos encontramos de novo no aniversário de 50 anos de um amigo antigo que era comum aos dois, numa chácara perto de Cravinhos. Vi ele entrando no salão de festas, camisa social arregaçada até o cotovelo, e o primeiro pensamento foi: "O tempo com certeza foi generoso com esse homem." Ele me viu, atravessou o salão sem desviar de ninguém e veio direto na minha direção.

"Faz quanto tempo mesmo?", perguntou, já puxando uma cadeira.

"Dezessete anos. Eu contei."

"Você contou?"

"Contei agora, na hora que te vi entrar."

Ele riu, serviu dois copos da cerveja que estava na mesa, e perguntou sem rodeio: "Você lembra do estacionamento?" Dei uma risada tão alta que as pessoas da mesa ao lado olharam. Ele também não tinha esquecido.

Dessa vez os dois estávamos livres, mas não nos jogamos um em cima do outro como se tivéssemos ficado esperando o tempo todo. Já não tínhamos 29. Trocamos número ainda na festa, e três dias depois ele me chamou pra um café na Padaria Brasileira, no centro. Chegou dez minutos adiantado, já com a mesa escolhida perto da janela, dois guardanapos dobrados em triângulo embaixo dos copos d'água, feito quem tinha ensaiado o gesto. Falamos de tudo, menos do que interessava, até ele perguntar, mexendo o café com a colherzinha sem parar: "Você ainda mora perto daqui?" Eu disse que sim. Ele disse que também. Ficamos quietos um tempo, ele batendo a colher na borda da xícara, até eu perguntar se ele queria jantar comigo no sábado.

No jantar, ele contou da separação em frases curtas, sem drama, como quem já tinha contado aquilo pra muita gente e gastou o choro em outro lugar. Eu contei da minha, e quando mencionei o apartamento ainda registrado em nome dos dois, ele só disse: "Resolve isso, não deixa esse homem com esse fio preso em você." No fim da noite, ele pagou a conta antes de eu pegar a carteira, e perguntou se podia me ligar à noite, depois que as filhas dormissem. Liguei pra ele antes, no mesmo dia. Em algum momento das semanas seguintes simplesmente paramos de marcar as coisas como "só um café" ou "só um jantar".

A única vez que quase recuei foi quando contei pro meu filho que estava saindo com alguém de novo. Ele tinha quinze anos e ainda guardava rancor do pai, e a primeira reação foi fechar a cara e perguntar se eu "precisava mesmo trazer gente nova pra casa". Fiquei dois dias sem ligar pro representante comercial, pensando se não seria mais fácil deixar aquilo morrer de novo, como morreu há dezessete anos. Foi meu filho mesmo que, depois de conhecer ele num almoço de domingo e ver que o cara perguntou mais sobre o time de futebol dele do que sobre mim, resolveu soltar a mão.

Ele tem a casa dele e as filhas dele. Eu tenho a minha casa e meu filho. Tem semana que a gente se vê quase todo dia. Tem semana que o trabalho e as obrigações mal deixam tempo pra um jantar. Nessa idade já não acreditamos que, se você gosta de alguém, precisa no dia seguinte misturar chaves, conta no banco, filhos e guarda-roupa. Nossos filhos já sabem do namoro. Mas não temos pressa.

Há três meses, quando decidimos morar mais perto um do outro sem juntar as casas de vez, resolvi finalmente acertar aquela pendência que vinha arrastando desde o divórcio de Rogério: o apartamento ainda estava registrado em nome dos dois, porque ele nunca assinava a transferência. Fui ao cartório de registro de imóveis de Ribeirão Preto, tirei a certidão atualizada, levei pro advogado e paguei vinte e dois mil reais da parte que faltava pra quitar o financiamento que já estava no meu nome. Assinei a escritura definitiva sozinha.

Rogério me ligou alterado assim que recebeu a notificação pelo correio.

"Por que você resolveu isso sem me avisar?"

"Avisei. Três vezes, por mensagem. Você nunca respondeu."

Ele ficou calado do outro lado da linha, só respirando perto do microfone, tentando montar alguma frase que me colocasse errada de novo. Eu não esperei. Desliguei o telefone, coloquei em cima da mesa da cozinha, e fui atender meu namorado — o representante comercial de dezessete anos atrás —, que tinha acabado de chegar e estava parado na porta com duas sacolas da padaria, perguntando se eu já tinha decidido o que a gente ia comer no jantar.

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