Noite de Gatos no Porto

A voz de Rafael Teixeira cortou o salão de festas do Buffet Mirante, em Curitiba, antes mesmo de Camila cruzar a pista de dança.

"A partir de hoje, a Larissa vai assumir ao meu lado."

Duzentos funcionários da rede de pet shops viraram a cabeça na direção do palco, onde Rafael estava parado sob um arco de luzes prateadas, comemorando os dez anos da empresa que ele e Camila tinham fundado numa garagem de Curitiba.

Larissa Souza pousou a mão no braço dele. O vestido vermelho dela brilhava contra o smoking preto.

Camila parou ao lado de uma cadeira vazia. Um cartãozinho branco estava virado para baixo perto do arranjo de flores. Ela o virou. Alguém tinha riscado o nome dela com um traço grosso de caneta preta.

A lista de mesas impressa ainda trazia, sob o título dourado FAMÍLIA, os nomes de Rafael Teixeira, Dona Neusa Teixeira e Larissa Souza. O nome de Camila tinha desaparecido.

Os dedos dela apertaram o cartão. A outra mão foi, por instinto, até a barriga de seis meses. O bebê se mexeu sob o vestido de festa cor de champagne.

Rafael levantou a taça de espumante.

"Algumas parcerias pertencem ao passado", disse ele.

Umas risadinhas nervosas correram pelo salão. Ninguém sabia se era piada.

Camila olhou para os funcionários mais próximos. Alguns baixaram os olhos. Outros fingiam estudar o copo na mão. Uma mulher do financeiro cobriu a boca. Um estagiário do marketing cochichou algo para a colega. A banda continuava tocando, mas tinha perdido completamente o ritmo.

Camila deixou o cartão riscado ao lado do arranjo. Começou a caminhar em direção ao palco. Os sapatos dela batiam no piso num ritmo lento, pesado. A multidão abriu caminho. Ninguém tentou detê-la.

Rafael a observou chegar sem saber do palco. Larissa se aproximou mais dele. Dona Neusa estava perto da escada, de vestido roxo-escuro e cara de poucos amigos.

Camila chegou ao corredor central.

"Você escolheu esse palco para trair sua mulher?" perguntou ela.

O microfone captou cada palavra. O salão silenciou por completo.

O sorriso de Rafael não se desfez.

"Você não precisava fazer esse escândalo", disse ele.

Camila olhou para Larissa.

"Você tirou meu nome da mesa da família."

Rafael pousou a taça.

"Você está ausente da empresa há meses."

"Estou grávida, Rafael."

"Isso não tem nada a ver com a liderança do negócio."

O maxilar de Camila travou.

"Participei de toda reunião de diretoria até o obstetra cortar minhas viagens."

"Você participava de casa."

"Revisei cada relatório."

"Você assinava papel que outro preparava."

Um murmúrio correu pela multidão. Camila estudou o rosto dele. A confiança dele parecia ensaiada. Até o jeito como ele mantinha os ombros parecia treinado em frente ao espelho. Ele tinha planejado aquele momento. Queria testemunhas. Queria ela humilhada na frente de gente que um dia a respeitou.

Camila deu um passo à frente.

"Você podia ter falado comigo em particular."

Os olhos de Rafael endureceram.

"Eu tentei falar em particular."

"Não, você fugia de mim."

"Você ficava emotiva."

"Eu fiquei desconfiada."

Os dedos de Larissa se fecharam na manga do smoking. Dona Neusa se colocou entre Camila e a escada.

"Já chega", disse Dona Neusa.

Camila olhou para a sogra. O colar de pérolas repousava perfeito na clavícula dela. Nem um fio do cabelo armado tinha se soltado. Ela parecia menos uma mãe preocupada e mais uma juíza esperando confissão.

Camila baixou a voz.

"A senhora sabia disso."

Dona Neusa deu um sorriso fino.

"Eu sabia que meu filho precisava de alguém em quem confiar."

"Eu construí metade dos sistemas que essa empresa usa até hoje."

"Você herdou acesso", disse Dona Neusa.

"Eu conquistei meu lugar."

"Você se casou com o futuro do meu filho."

Vários funcionários antigos trocaram olhares de espanto. Camila percebeu. Rafael também.

Ele ergueu o microfone de novo.

"Essa noite é para celebrar o crescimento da empresa", disse.

Camila o encarou.

"Então explica o que a Larissa vai substituir."

Rafael hesitou.

"Minha sócia profissional."

Larissa sorriu.

Camila olhou de Larissa para Rafael.

"E sua sócia na vida pessoal?"

O silêncio ficou insuportável.

Foi Dona Neusa quem tentou cortar o clima, pegando o braço de Camila. "Vamos conversar lá fora, isso não é lugar."

Camila se soltou. "Não vou sair. A senhora riscou meu nome com caneta, Dona Neusa. Deve ter sido com bastante vontade, porque furou o papel."

Rafael desceu um degrau do palco, ainda com o microfone na mão, achando que conseguia controlar a cena. "Camila, por favor."

"Você montou isso há quanto tempo?" ela perguntou, olhando para Larissa. "Os cartões, a lista impressa, o discurso. Isso não se faz da noite pro dia."

Larissa abriu a boca, mas quem respondeu foi um dos sócios da rede de fornecedores, sentado na primeira mesa, um homem de uns sessenta anos que vinha acompanhando a empresa desde o início. "Rafael, isso é verdade? A diretoria aprovou essa mudança de sociedade?"

Rafael gaguejou. "Isso ainda está em processo."

"Em processo quer dizer que você ainda não registrou nada em cartório", disse Camila. "Porque pra alterar o contrato social da Patas & Cia, precisa da minha assinatura. Trinta e cinco por cento é meu, desde a abertura, em 2016. Dez anos, Rafael. Você sabe disso melhor do que ninguém, porque foi você quem insistiu que registrássemos em nome dos dois, "para dar segurança à Camila", foram suas palavras, lá no escritório da contadora, na Rua XV."

A banda tinha parado de verdade agora. Ninguém fingia mais que era só um momento estranho da festa.

Rafael baixou o microfone. "Isso não precisa ser resolvido aqui."

"Não precisava", concordou Camila. "Mas você escolheu aqui. Você escolheu duzentas pessoas, luz prateada e champanhe pra me tirar da mesa da família na frente de todo mundo que trabalha comigo há anos. Então vamos resolver aqui."

Ela se virou para os funcionários, vasculhou o salão até achar o rosto do gerente financeiro, um homem chamado Eduardo, que conhecia desde o segundo ano da empresa.

"Eduardo, que conta recebe o pagamento da folha dessa semana?"

Ele hesitou, olhou para Rafael, depois respondeu, baixinho: "A conta principal, no Itaú, com assinatura conjunta."

"E quem assina?"

"A senhora e o Rafael."

"Então amanhã, as nove da manhã, eu vou até a agência da Batel e vou bloquear a movimentação até essa diretoria se reunir oficialmente pra discutir a tal "mudança de sociedade". Vocês vão ter que explicar pros fornecedores por que a folha atrasou, porque metade dessa empresa é minha e eu não autorizei nada disso."

Rafael deu um passo na direção dela. "Você não faria isso."

"Eu não ia fazer nada disso até você riscar meu nome com caneta preta na frente da minha equipe, grávida de seis meses do seu filho. Agora eu vou fazer."

Dona Neusa tentou de novo, com a voz mais fina. "Pense no bebê, Camila."

"Estou pensando. É por isso mesmo que eu não vou sair daqui de cabeça baixa."

Camila tirou o celular da bolsa de festa, ali mesmo, na frente de todo mundo, e abriu o aplicativo do banco. Mostrou a tela pro microfone, pros celulares que já gravavam disfarçadamente de dentro das mesas. "Essa é a conta empresarial. Esse saldo não se move sem minha senha. A partir de hoje, vou pedir pro meu advogado protocolar o pedido de apuração de haveres. Quem quiser ficar na sociedade comigo, meus contatos estão com o RH. Quem preferir seguir o Rafael e a nova sócia, tudo bem também — só que vai ser sem o nome Patas & Cia, porque essa marca está registrada no INPI em meu nome, desde 2017."

O silêncio do salão agora era de outro tipo. Rafael tinha empalidecido. Larissa soltou o braço dele, de repente parecendo entender o tamanho da armadilha em que tinha entrado.

"Camila", Rafael tentou, a voz já sem o tom de palco, "a gente pode conversar, sem advogado, sem banco…"

"A gente já conversou, Rafael. Você escolheu não ouvir. Escolheu um microfone no lugar de uma conversa. Então agora eu escolho o cartório." Ela guardou o celular. "Boa festa pra vocês."

Camila virou de costas, caminhou pelo mesmo corredor que tinha aberto pra ela minutos antes, passou pela mesa onde o cartão riscado continuava largado perto do arranjo de flores, e não olhou pra trás. Na saída do salão, uma funcionária do RH, ainda com o crachá pendurado, abriu a porta pra ela sem dizer nada, só com um aceno de cabeça que Camila entendeu perfeitamente.

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