Lúcia Devolta Pela Marquesa, a Imitadora de Vera Nunes

As luzes do Copacabana Palace tremiam contra os espelhos dourados do salão principal, enquanto o Rio mais alto — aquele que desfilava em festas beneficentes e almoços de caridade na Gávea — se reunia para o baile de aniversário da marquesa de São Clemente. Era uma noite de outubro quente, dessas que pedem seda leve e nada de mangas compridas. A orquesta tocava um bolero arrastado, casais rodavam no piso de mármore com cuidado ensaiado. Cada cumprimento era cálculo. Cada sorriso, uma pequena encenação. Mães mediam patrimônios pelo canto do olho, rapazes mediam alianças, moças brilhavam sob o escrutínio como se não soubessem que estavam sendo avaliadas.

Perto da escadaria de mármore, parcialmente escondida por um arranjo de palmeiras em vasos de latão, estava Vera Nunes. Chegara na hora certa, anunciada com a formalidade devida, num vestido de renda marfim que absorvia a luz das velas em vez de brilhar. Pérolas no pescoço, luvas impecáveis, postura de quem nunca errou um passo em quarenta anos de casada com Ricardo Nunes, dono da maior rede de concessionárias de carros importados do estado.

Ela tinha sido recebida com uma cortesia rápida demais, cuidadosa demais — como se falar perto dela exigisse algum tipo de manual de instruções. Várias senhoras se aproximaram, soltaram um elogio qualquer e se afastaram com alívio visível no rosto. Um espaço vazio tinha se formado ao redor dela, sem que ninguém parecesse responsável por ter criado aquilo. Vera aguentou sem deixar transparecer nada. Os dedos apertaram o leque uma vez, relaxaram de novo. Ela tinha aprendido, em quase quatro décadas de casamento, que compostura falava mais alto que qualquer escândalo. Naquela noite, ela ia falar essa língua com fluência.

Um burburinho começou perto da entrada. No início foi só postura mudando — ombros se endireitando, cabeças virando. Depois veio o silêncio. A orquestra tropeçou meio compasso antes de se recompor. Ricardo Nunes tinha chegado. Entrou com a confiança de um homem acostumado a ser admirado há muito tempo, blazer azul-marinho impecável, expressão de indiferença educada. Mas não vinha sozinho. No braço dele estava uma mulher que ninguém ali tinha visto antes — talvez uns trinta anos a menos que Vera, vestido de cetim rosa-claro, bochechas coradas de expectativa, um colar de rubis brilhando na altura da clavícula. Ela se inclinava para Ricardo com uma intimidade aberta demais, sorriso sem nenhuma guarda, perigosamente inconsciente do estrago que acabara de causar.

Os sussurros se quebraram feito vidro fino. "Quem é essa?" "Ele não teria coragem." "Será que é…"

Vera não se mexeu. Observou o marido parar logo depois da soleira, deixando o salão absorver por completo o quadro que ele vinha apresentar. Ele passou os olhos pela multidão com uma satisfação preguiçosa antes de falar, a voz carregando fácil pelo silêncio repentino.

"Deixem eu apresentar… a senhora Nunes."

As palavras não ecoaram de imediato. Uma convidada perto da orquestra deixou o leque cair. Um homem tossiu pra disfarçar um riso que não chegou a se formar direito. Os rostos se viraram devagar, inevitavelmente, em direção à escadaria, em direção à verdadeira senhora Nunes. Por um instante, o tempo pareceu se comportar de um jeito estranho. As conversas morreram na metade. Ricardo não olhou para Vera. Guiou a jovem para frente, parando para cumprimentar conhecidos que encaravam tempo demais antes de se lembrar das boas maneiras. A moça sorria graciosamente para desconhecidos, sem saber que cada gentileza que oferecia aprofundava o próprio ridículo. A satisfação de Ricardo era sutil, mas ninguém naquele salão deixou de notar.

Foi a marquesa — dona Ondina, anfitriã da festa e amiga de Vera desde os tempos de colégio interno em Petrópolis — quem se moveu primeiro. Atravessou o salão com a calma de quem já tinha decidido de que lado ficar antes mesmo de a cena terminar, parou ao lado de Vera e fez, lenta e deliberadamente, uma reverência. Não uma mera inclinação de cabeça — uma reverência completa, daquelas que se reservam para realeza, cabeça baixa, saia aberta em leque no chão de mármore.

"Senhora Nunes", disse ela, alto o bastante para que as primeiras filas ouvissem. "Que bom que a senhora veio."

O gesto cortou o ar como um corte de tesoura em tecido caro. Em segundos, outra convidada — a esposa de um desembargador — fez o mesmo. Depois mais duas. O círculo vazio que tinha se formado ao redor de Vera a noite inteira começou a se fechar, só que agora do lado dela, não do lado da garota de rosa. A jovem, ainda sorrindo, começou a perceber que algo tinha mudado, mas não entendia o quê. Ricardo também sentiu o chão se mover sob os pés — olhou em volta e viu que a plateia que ele tinha montado a cena para impressionar estava, uma a uma, virando as costas educadamente para a mulher no seu braço.

Vera não gritou. Não chorou. Caminhou até o centro do salão, onde o marido ainda segurava a mão da amante como um troféu, e falou num tom que só quem estava a três metros conseguia ouvir direito.

"Você escolheu bem a noite, Ricardo. Tinha testemunhas."

Ele tentou um sorriso, algo entre deboche e aviso. "Vera, não precisa fazer cena."

"Eu não vou fazer cena nenhuma." Ela abriu a bolsa de couro que trazia desde a chegada — não um acessório qualquer, mas a pasta com os documentos que o advogado dela, doutor Hélio Bastos, tinha preparado havia três semanas, assim que ela soube do apartamento na Barra que Ricardo tinha comprado em nome da moça. "Amanhã às dez, meu escritório de advocacia protocola o divórcio. Regime de comunhão parcial, trinta e um anos de casados. A rede de concessionárias foi fundada com o dinheiro que recebi de herança do meu pai em 1995 — isso está documentado, Ricardo, você mesmo assinou o contrato social. Metade é minha por direito, não por favor."

A sala, que já estava em silêncio, ficou mais silenciosa ainda.

"E já que estamos apresentando pessoas essa noite", continuou ela, virando-se ligeiramente para incluir a jovem no olhar, sem nenhuma hostilidade na voz, só cansaço educado, "deixa eu apresentar uma informação: a casa na Barra da Tijuca está em nome da empresa, não em nome dele. A partir de segunda-feira, essa empresa tem nova administração. A senhorita vai precisar achar outro endereço."

A jovem olhou para Ricardo, esperando que ele desmentisse. Ele não disse nada.

Vera fechou a bolsa, cumprimentou dona Ondina com um aceno breve e deixou o salão pela escadaria principal, sem pressa, os saltos ecoando no mármore enquanto a orquestra, sem saber muito bem o que fazer, recomeçava baixinho o bolero interrompido. Ninguém a seguiu. Ninguém precisou. O baile continuou, mas de um jeito diferente — os grupos se reformando ao redor do vazio que Ricardo, sozinho agora no centro do salão com uma mulher que mal conhecia o sobrenome dele direito, tinha deixado para trás.

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Lúcia Devolta Pela Marquesa, a Imitadora de Vera Nunes