Ricardo chegou à Rodoferroviária de Curitiba com o transportador balançando na mão esquerda, batendo de vez em quando contra a canela. Lá dentro, Mimosa se encolhia a cada solavanco, as garras arranhando o fundo plástico. Em oito anos de vida, aquela gata persa de pelo acinzentado nunca tinha saído do apartamento, exceto para as consultas no veterinário da esquina, duas quadras abaixo.
O terminal já fervilhava com o movimento da manhã. Malas de rodinha batendo no piso frio, o alto-falante anunciando partidas com aquele tom monótono de sempre, o cheiro de café passado vindo da cafeteria perto da plataforma 3. Pombos andavam displicentes pelo chão ainda úmido da limpeza. Ricardo encontrou um banco vazio, pousou o transportador ao lado e esticou as pernas cansadas. Faltavam uns quarenta minutos para o embarque. A espera era a parte mais difícil — os minutos se enchiam de qualquer coisa, menos do que a gente realmente queria pensar.
Foi até a máquina de café e comprou um copinho. Fraco, meio amargo. Bebeu de pé, ao lado do transportador, sentindo o calor subir pelas mãos, mesmo que o salão já estivesse abafado. O celular não vibrava. Nenhuma mensagem nova. Dentro da caixa plástica, Mimosa se moveu, as unhas raspando de novo no fundo.
De manhã, tudo parecia mais simples. Carla estava encostada na geladeira, com uma caneca de chá-mate nas mãos, as mangas do velho moletom cinza quase cobrindo os dedos — aquela peça que ela usava desde a faculdade e defendia até hoje, mesmo toda surrada, dizendo que esquentava mais que roupa nova. A chaleira ainda fazia aquele barulhinho na boca do fogão. Na cozinha, o cheiro de pão queimado persistia, e nem a janela aberta resolvia.
Ricardo arrumava as coisas no corredor. Documentos, carregador, uma muda de roupa na bolsa. Puxou o transportador de debaixo do guarda-roupa, coberto de poeira, sem uso há tempos. Ainda sentia no ar o cheiro de graxa de sapato — na noite anterior ele tinha passado horas lustrando os tênis, só para ocupar as mãos com alguma coisa.
Mimosa ficou sentada perto da mala, olhando ora para o dono, ora para a cozinha, como se entendesse o que estava acontecendo melhor que qualquer humano. Depois de um tempo, se aproximou, roçou o rosto no zíper, deixando sua marca ali, e voltou a se sentar ao lado.
Carla, sem levantar os olhos da caneca, perguntou baixinho:
— Você vai levar ela mesmo?
— É minha gata. — Ricardo respondeu seco.
— Não é só sua. — a voz dela saiu calma. — Ela morou com a gente esses anos todos.
Ricardo fechou a bolsa de viagem. Checou, por hábito, o bolso esquerdo do casaco — ainda com aquele rasgo de sempre. Na prateleira, duas chaves iguais. Pegou a sua.
— Ela vai sofrer na viagem. — Carla disse baixo.
— Vai ficar bem. — ele respondeu sem se virar.
O chá já estava frio, mas Carla continuava segurando a caneca com as duas mãos. Ricardo abriu a portinhola do transportador. Mimosa cheirou o ar lá dentro, olhou mais uma vez em volta — os olhos amarelos passeando pelo fogão, pela parede, parando nas costas de Carla. Só depois entrou, meio hesitante. O trinco fechou com um clique. Essa foi a última imagem que levou: o moletom cinza e os dedos finos apertando a caneca.
Agora, de volta à estação, Mimosa arranhava o fundo outra vez. Ricardo se abaixou perto do transportador. A gata estava encolhida, patas dobradas embaixo do corpo, respirando rápido — nada parecido com o jeito de respirar em casa. Um carrinho de bagagem passou roncando ao lado, e Mimosa se encolheu toda, as garras raspando com força no plástico. O som arranhou os dentes de quem ouvia.
Ricardo passou o dedo pela grade metálica, tocou o nariz da gata. Estava seco. Em casa era diferente — Mimosa sempre o recebia com o nariz frio e úmido, roçando de leve na palma da mão. Agora ela só se afastou, encolhendo-se ainda mais no canto.
Uma mulher com mochila de trilha sentou no banco ao lado, viu o transportador e sorriu.
— Mudança?
Ricardo só assentiu. Ela continuou falando qualquer coisa, mas ele já não escutava bem. Na cabeça, só as palavras de Carla voltavam: "ela vai sofrer na viagem". Como se ela já soubesse como tudo ia terminar.
Um pouco mais adiante, um homem de jaqueta cinza esfarelava pão pros pombos, que se amontoavam perto dos pés dele. Um até subiu no joelho. Ele continuava alimentando, tranquilo. Ricardo desviou o olhar.
O alto-falante anunciou o embarque da plataforma 5. Não era a dele — sairia da plataforma 3 em cerca de vinte minutos. Abriu os contatos, achou "Carla". A conversa estava vazia. Os dedos ficaram parados sobre o teclado. Queria escrever qualquer coisa. Não um pedido de desculpas, nem uma promessa de voltar. Só uma frase que explicasse por que estava levando embora a única criatura viva que ainda lembrava o cheiro daquela cozinha que fora dos dois. Nenhuma palavra veio. A tela apagou.
Ao lado, o copinho de café vazio e amassado. Mimosa soltou um miado fraco, quase inaudível — um som que Ricardo nunca tinha escutado dela antes, como ar escapando de um bichinho de pelúcia velho. Ele fechou os olhos, pousou a mão na parede do transportador. O plástico estava morno. Mesmo assim, a gata não se aproximou.
O ônibus já estava na plataforma, as portas abertas, esperando os passageiros. A atendente conferia as passagens de um casal de idosos. Ricardo parou um pouco afastado. Um vento frio passava pela plataforma, cheirando a óleo diesel e metal umedecido. Pousou o transportador no chão, se agachou, abriu a tampa de cima. Colocou a mão dentro. Mimosa se encolheu ainda mais no fundo. Tentou acariciá-la — a gata virou o rosto, encostando a testa na parede plástica.
Oito anos, o mundo dela se resumia àquele apartamento. O parapeito entre a cortina e os vasos de samambaia. Ela conhecia cada rangido do piso, cada apito da chaleira, cada estalo da fechadura. E aquele mundo pequeno bastava pra ela. Agora Ricardo a carregava pela cidade inteira, dentro de uma caixa apertada, só porque ele tinha medo de chegar sozinho num apartamento novo.
Na noite anterior, Mimosa tinha dormido no colo dele, ronronando alto enquanto ele procurava anúncios de aluguel. Quente, pesada. Com aquele peso familiar, parecia que dava pra morar em qualquer lugar. Agora a mesma gata tremia e nem reconhecia a mão dele.
E veio o pensamento, simples, mas que gelou as palmas das mãos na hora: ele não estava levando a Mimosa por ela. Estava levando porque não queria chegar sozinho. Queria ouvir uma respiração por perto. Colocar ração de manhã. Não admitir pra si mesmo que aquele caminho tinha sido escolha dele.
Ricardo tirou a mão de dentro, lentamente. Se levantou. Carla estava ali, a poucos passos. Respirava com dificuldade — devia ter corrido o caminho todo. Uma lágrima fina escorria pelo rosto. Fios de cabelo colados na pele. Ela não pediu pra ele ficar. Não disse nada. Só se aproximou, se agachou perto do transportador e estendeu a mão até a tela metálica.
Passou um segundo. Depois outro. Ela não apressou nada, só esperou. Mimosa levantou a cabeça. Virou lentamente. Bateu a cauda de leve na parede do transportador. Depois se aproximou e tocou o nariz nos dedos de Carla. A tela cedeu um pouco com a pressão. A gata começou a ronronar alto, como se toda a tensão tivesse desaparecido de uma vez. Carla acariciava através das grades metálicas, e Mimosa virava a orelha pra ela — aquela orelha com uma pontinha cortada, que Ricardo tinha cuidado meses atrás, depois de uma briga de rua.
A atendente avisou, em voz alta, que quem não ia embarcar precisava desocupar a plataforma. Ricardo olhava os dedos finos de Carla. A gata que não se escondia mais. O nariz úmido encostado na mão dela, confiante.
— Fica com ela.
Carla ergueu os olhos. Olhou direto pra ele.
— Tem certeza?
— Tenho. Certeza absoluta.
Ricardo pegou a bolsa, virou de frente pro ônibus, e não olhou pra trás de novo. A atendente falava alguma coisa, conferindo a passagem. Ele entregou o documento quase sem pensar e entrou. Porque sabia: se olhasse agora, ia pesar ainda mais. Lá atrás ficava uma mulher que não tinha ido até lá por ele.
Dentro do ônibus, o cheiro de estofado e de algo antigo, quase esquecido. Ricardo pôs a bolsa no bagageiro, sentou perto da janela. Ia viajar sozinho. Do lado de fora, a plataforma já estava vazia — só os pombos continuando a andar devagar pelo concreto molhado.
O ônibus deu um solavanco, começou a ganhar velocidade. Ricardo meteu a mão no bolso esquerdo do casaco, por hábito. No fundo, os dedos encontraram um tufo pequeno de pelo cinza. Atrás dele, alguém falava ao telefone. No meio de frases que não fazia questão de entender, uma palavra chegou nítida:
— Saudade…
A rodoviária foi ficando atrás. Depois as casas. Depois as árvores da BR-277. E na frente se abriu um campo vazio, tão quieto e deserto quanto o apartamento pra onde Ricardo agora viajava.
Três semanas depois, veio um envelope pelo correio — sem remetente, só o nome dele escrito à mão. Dentro, uma foto impressa: Mimosa deitada no sofá velho, ao lado de um cobertor novo, e um bilhete curto de Carla dizendo que tinha trocado o nome dela no cadastro da clínica, que agora era só dela, oficialmente, nos papéis e em tudo o mais. Ricardo leu duas vezes, dobrou o papel, guardou na gaveta da cômoda nova, ao lado das chaves do apartamento que ainda cheirava a tinta fresca. Não respondeu. Também não precisava.












