Rogério tinha certeza de ter deixado a filha parada ali, perto do mastro da bandeira, exatamente no lugar onde a escola de Juiz de Fora organizava a fila do primeiro dia de aula. Cinco minutos. Ele tinha ido só até a cantina comprar uma água, porque Beatriz reclamou de sede bem na hora em que o sinal tocou. Voltou e não achou a filha em lugar nenhum.
— Não pode ser — repetia, girando sobre os próprios pés no meio do pátio lotado. — Ela estava aqui.
Entre centenas de crianças de uniforme azul-marinho, encontrar uma única menina de sete anos virou impossível. Rogério avistou a professora, uma mulher jovem de cabelo preso, tentando organizar os alunos do segundo ano em fileiras, e foi direto até ela, quase gritando.
— Minha filha desapareceu! Beatriz, ela estuda na sua turma. Cadê ela?
A professora, Camila, levou um susto e não reconheceu o nome.
— Desculpe, qual é o nome? Eu tenho vinte e oito alunos e esse é meu primeiro dia dando aula pra essa turma.
— Beatriz. Cabelo escuro, usa laço branco grande. A senhora não lembra?
— Sinceramente, não. Cada pai trouxe o filho até mim pessoalmente essa manhã. O senhor não trouxe. Agora me diga: por que deixou uma criança de sete anos sozinha num pátio com mais de trezentas pessoas?
Rogério sentiu o rosto esquentar.
— Fui comprar água, dois minutos, não mais que isso. A senhora é a professora, devia estar de olho nas crianças.
Camila respirou fundo e apertou a prancheta contra o peito. Era o primeiro dia dela como professora titular, depois de dois anos substituindo em escolas do interior de Minas, e aquilo já parecia um pesadelo antes mesmo de a aula começar.
— Calma. Me descreve ela de novo. O que ela estava vestindo?
Ele gaguejou. Tinha ajudado a filha a prender o laço de manhã, arrumado a gola da camisa, até brigou com ela pra não sujar a meia branca — e agora, sob pressão, quase não conseguia lembrar de nada.
— Ela tem os olhos castanhos, cabelo longo e escuro. E uma mochila amarela com estampa de patinhos. Ela adora bichos, foi ela mesma que escolheu.
— Isso já ajuda. Mochila amarela com patinho, ninguém mais tem uma dessas aqui.
Camila voltou correndo para a fileira da sua turma, contou as crianças de novo, checou laço por laço. Nenhuma delas era Beatriz, e nenhum colega tinha visto a mochila amarela. Pediu para a professora da turma vizinha ficar de olho nos alunos por um instante e voltou para Rogério.
— Ninguém da sala dela viu nada. Ela não pode ter entrado no prédio sem passar por mim. Então ela ainda está no terreno da escola. Vamos procurar juntos.
— Não seria melhor chamar a polícia?
— Vamos dar uma volta primeiro — disse Camila, as mãos ainda apertando a prancheta como se aquilo a ajudasse a pensar com mais clareza.
Os dois cruzaram a quadra de esportes, passaram pelo portão onde o segurança ficava de plantão, voltaram ao refeitório. Nada. Ninguém tinha visto a menina.
— Ela tem celular? — perguntou Camila, enquanto caminhavam para os fundos do colégio, o único canto que ainda não tinham revistado.
— Tem, só que ficou comigo. Não deu tempo de entregar pra ela hoje de manhã.
— Que pena.
— Só espero que não tenha acontecido nada com ela — disse Rogério, a voz falhando no meio da frase.
Camila não respondeu. Pensava que, naquele instante, não respondia só pelas crianças da sua turma, mas pela confiança de cada pai que tinha deixado o filho em suas mãos naquela manhã.
Enquanto os dois se apertavam atrás do prédio de educação física, Beatriz estava debaixo de uma mangueira enorme nos fundos da escola, conversando com um gatinho preso num galho alto, incapaz de descer.
— Vem, gatinho, pula. Eu pego você, juro — insistia ela, os braços abertos.
O bichano chegava a se arriscar, dava um passo na direção dela, mas o medo o fazia recuar outra vez, miando baixinho. Beatriz sentiu um nó na garganta de tanta pena. Foi então, correndo atrás de ajuda, que virou a esquina do prédio e deu de cara com o pai e a professora, os dois com cara de desespero.
— Filha! Onde você estava? Eu quase enlouqueci!
— Pai, briga comigo depois, tá? Agora eu preciso de ajuda.
— O que foi?
— Vem comigo.
Ela agarrou a mão do pai, puxou Camila pelo braço e levou os dois até os fundos do pátio, sem dar explicação nenhuma. Chegando perto da mangueira, apontou para cima.
— Olha, tem um gatinho ali. Pai, desce ele, por favor.
— Beatriz, você vai me contar como foi que você veio parar aqui? Eu te deixei esperando perto do mastro.
— Eu tava esperando você perto do portão, aí vi um cachorro correndo atrás desse gatinho. Fui correndo detrás deles. O gato subiu na árvore de medo e o cachorro ficou latindo pra ele. Eu enxotei o cachorro, mas não consigo tirar o gato de lá.
— Você enxotou um cachorro grande? — Camila arqueou as sobrancelhas, surpresa.
— Foi. Eu falei pra ele que meu pai ia chegar e se ele não fosse embora, meu pai ia resolver. E ele foi embora. Mas o gatinho continua lá, coitado. Pai, você desce ele? Ele tá com medo.
Rogério avaliou os ramos finos da mangueira e entendeu que, com seus noventa e cinco quilos, não ia muito longe naquele galho. Já a professora, magra e leve, talvez conseguisse.
— Por que estão olhando pra mim desse jeito? — perguntou Camila, desconfiada. — Eu não subo em árvore nenhuma. Nem alcanço esse galho.
— Eu te dou uma força — disse Rogério.
— Nem pensar.
— Por favorzinho — pediu Beatriz, segurando a mão da professora. — Olha como ele tá assustado. E se ele cair?
Camila olhou para cima. O gato miou de novo, como se entendesse que o assunto era ele.
— Está bem — cedeu, por fim. — Mas só se o senhor me segurar firme e não me deixar cair.
— Prometo que vai ficar tudo bem.
Ela subiu nos ombros de Rogério, que a ergueu sem esforço, e lá de cima, apoiada com uma mão no tronco, estendeu a outra na direção do bichano, sob os gritos de incentivo de pai e filha.
— Mais um pouquinho… quase lá.
O gato recuou, hesitou, e então, reunindo coragem, deu o passo decisivo.
— Conseguiu! Conseguiu! — Beatriz bateu palmas, pulando no lugar. — Você é demais, professora Camila! Pai, segura ela com força, não deixa cair.
Quando Camila pôs os pés no chão de novo, Beatriz já estava com os braços abertos esperando o gatinho, que logo ronronou, aconchegado no colo da menina.
— Pronto — disse Rogério, soltando o ar que tinha segurado a manhã inteira. — Graças a Deus está tudo bem. Mas você me deu um susto desses, filha, com esse seu desaparecimento misterioso.
— Desculpa, pai. Eu não queria te assustar. Só não conseguia deixar ele lá sozinho.
Rogério olhou para a filha e apenas sacudiu a cabeça, sem saber se devia brigar ou rir. Era exatamente por aquele coração enorme que ele amava Beatriz mais do que tudo na vida.
— A gente pode levar ele pra casa? — perguntou ela, apontando para o gato.
— Depois de uma apresentação dessas, acho difícil dizer não — respondeu o pai, rindo. — Fica de olho nele enquanto eu pego seu material na secretaria. E não se perca de novo, por favor, senão eu e a professora Camila vamos ter que procurar você outra vez.
Camila não conseguiu segurar o riso.
— Imagino a cara da sua mãe quando vocês chegarem em casa com esse bichinho.
— Eu não tenho mãe — disse Beatriz, os dedos parando de acariciar o gato por um instante.
— Desculpa, eu não sabia — Camila sentiu o rosto queimar de constrangimento.
— Tudo bem, não precisa se desculpar — disse Rogério. — Ela foi embora quando a Beatriz tinha dois anos. Foi morar em Portugal. Nunca mais tivemos notícia dela.
Por alguns segundos, ninguém falou nada no pátio dos fundos. Camila olhou para aquele homem grandalhão, de jeito meio desajeitado e olhos gentis, e para a menina pequena abraçada ao gato cinza, e sentiu algo apertar no peito.
— Pelo menos agora a gente tem o Félix — anunciou Beatriz, decidida, acariciando o animal.
— Já escolheu o nome? — Rogério perguntou, divertido.
— Claro. Bicho de estimação sem nome não dá, pai.
Depois daquele dia, foi Rogério quem passou a buscar Beatriz na escola, sempre pessoalmente. No começo trocava só duas frases com Camila no portão. Depois, as conversas foram ficando mais longas, até o pátio esvaziar por completo enquanto os dois falavam sobre as notas da menina, sobre livros, sobre o Félix, que tinha crescido e virado dono da casa. Sem perceber, foram deixando de falar só sobre a escola.
Numa sexta-feira de maio, Rogério esperou os alunos saírem e entrou na sala com um buquê de flores do campo, comprado na feira da Praça da Estação. Camila sorriu ao vê-lo, e depois ficou sem jeito quando notou o buquê.
— É pra você — disse ele, a voz saindo mais trêmula do que ele gostaria. — E eu queria te convidar pra jantar hoje. Eu e a Beatriz. A gente ia gostar muito se você jantasse com a gente.
Camila sentiu as orelhas esquentarem, mas pegou as flores. Cheiravam a mato, a casa, a uma espécie de esperança que ela não sabia nomear.
— Está bem — respondeu. — Eu aceito.
Foi a mesma resposta que deu um ano e meio depois, quando Rogério a pediu em casamento num domingo de tarde, sentados na varanda, com Félix dormindo no colo de Beatriz.
No cartório, no centro de Juiz de Fora, Beatriz não soltou a mão de Camila em nenhum momento e não conseguia parar de sorrir.
— Posso te chamar de mãe agora?
Os olhos de Camila se enevoaram.
— Se é isso que você quer, pode. Vai ser a palavra mais bonita que alguém já me disse.
Beatriz a abraçou com força. Rogério ficou ali, observando as duas, com um sorriso que não cabia no rosto. Quem diria que a vida dele e da filha ia dar essa volta, só porque um gatinho resolveu subir numa mangueira no dia errado?
Em casa, Félix esperava os três na janela, deitado ao sol, como se também soubesse que, a partir daquele dia, a família estava completa.












