Hoje de manhã fui ao abrigo municipal de Osasco buscar um pitbull de treze anos. Chamei ele de Duque, porque o nome que estava na ficha nem valia a pena repetir. Um cachorro velho, calado, com aquele jeito de quem já parou de esperar que alguém aparecesse justo por ele.
A moça da recepção me avisou antes de eu entrar no canil: "Esse aí ninguém quer, viu. As pessoas sempre pedem os filhotes." Falou meio sem graça, como se pedisse desculpa por um troço que não era culpa dela. No corredor tinha um rádio ligado baixinho, tocando alguma coisa de sertanejo, e o cheiro de desinfetante misturado com ração molhada. Passei por umas dez jaulas até achar ele, deitado bem no fundo, num canto onde a luz quase não chegava.
Os outros cachorros latiam, pulavam na grade, batiam o rabo no chão de cimento. Ele não. Ficou só olhando, com as orelhas meio caídas, esperando que eu fosse embora igual todo mundo.
Levei uns vinte minutos assinando papel, pagando a taxa de castração e vacina — cento e vinte reais, mais barato do que eu imaginava. A funcionária colocou uma coleira velha nele, meio gasta, e falou que era a única que tinham no tamanho dele.
Quando saímos e entrei no carro com ele no banco de trás, fiquei esperando alguma reação. Pensei que ele ia ficar agitado, olhar pela janela, quem sabe até abanar o rabo. Mas ele só sentou do meu lado e ficou me olhando. Um olhar tão fixo, tão demorado, que apertou alguma coisa no meu peito. Tinha cansaço ali, desconfiança, e uma pergunta que ele não conseguia fazer em voz alta: será que é verdade? Será que eu vou mesmo pra casa?
Ele não sabia o que vinha depois. Talvez tivesse medo de acreditar cedo demais.
Coloquei a mão nas costas dele. Ele não se afastou. Também não veio se esfregar em mim pedindo carinho, não fez a festa que os cachorros costumam fazer. Só ficou ali, parado, como se precisasse de um tempo pra entender que dessa vez ninguém ia devolver ele pra jaula.
No caminho até em casa, na Marginal Tietê parada de trânsito de sexta-feira, ele mal se mexeu. E eu fiquei pensando o tempo todo em quanto tempo ele esperou. Quantas vezes ouviu passos no corredor, viu gente nova chegando, e ficou sempre no mesmo canto, vendo outro cachorro ser escolhido no lugar dele. Cachorro de treze anos quase nunca é o primeiro que alguém aponta.
Cheguei em casa, abri o portão, e ele desceu do carro devagar, com aquele jeito de quem sente dor no quadril mas não reclama. Deixei ele cheirar o quintal, o pé de goiaba, a casinha velha que eu tinha comprado sem saber ainda quem ia morar nela. Ele fez o giro todo, devagar, e voltou pra perto de mim.
À noite, botei a cama nova dele do lado do sofá. Ele deitou, mas ficou de olho aberto, vigiando a porta, feito quem ainda desconfia que alguém vai chegar pra levar ele embora. Fiquei sentado no chão perto dele até tarde, sem forçar nada, só fazendo companhia.
Levou três dias pra ele comer direito. Levou uma semana pra ele deitar de barriga pra cima. E foi só no décimo dia, quando eu voltei do mercado com as sacolas, que ele levantou correndo — devagar pro jeito dele, mas correndo — e esfregou a cabeça na minha perna com tanta força que quase derrubei tudo no chão da cozinha.
Não sei quanto tempo a gente ainda vai ter junto. Ele é velho, tem a pata direita meio capenga e o veterinário já avisou que o coração dele não é mais dos fortes. Mas uma coisa eu sei: o resto da vida dele, ele não vai passar esperando. Agora ele tem casa, tem cama quentinha, tem tigela com nome escrito, e tem gente que não passa reto por ele.
Hoje ele é importante pra alguém. Isso já é o bastante.












