Sete Cachorros e um Segredo: a Vizinha que Cuida da Casa dos Almeida em Petrópolis

Trabalho como dogsitter há nove anos aqui em Petrópolis, no bairro Valparaíso, e cuido da casa dos Almeida sempre que a família viaja. Foi assim que acabei conhecendo os bastidores de uma família que, vista de fora, parece perfeita demais para ser verdade.

A dona Renata Almeida tem 44 anos, é fisioterapeuta e dá aulas de pilates num estúdio pequeno perto da Praça da Liberdade. O marido, Otávio Cerqueira, é dono de uma construtora de médio porte, tem 58 anos e já teve um casamento anterior, do qual ficou uma filha adulta, a Bianca. Juntos, Renata e Otávio criam sete crianças — seis nasceram dela, e a caçula, a pequena Íris, veio por barriga de aluguel, depois de dois abortos espontâneos que a Renata enfrentou e nunca escondeu de ninguém, nem da vizinhança.

Reparei nisso há uns três anos, quando fui buscar as chaves de casa porque eles iam para a praia em Búzios no feriado de Corpus Christi. A Renata estava sentada na varanda dos fundos, com o celular na mão, respondendo comentário por comentário embaixo de um vídeo dela fazendo agachamento no jardim, de legging vermelha, suando igual qualquer um de nós. Tinha gente perguntando como é que uma mulher de sete filhos tinha aquela forma física. Ela riu, virou pra mim e falou: "Se soubessem quantas vezes eu já chorei no banheiro depois de amamentar, não iam nem perguntar isso."

Eu não me meto na vida dos patrões, isso é regra minha desde que comecei nesse trabalho. Mas dá pra reparar em coisa. Tem uma cadeira de plástico na cozinha, bem na porta que dá pro quintal, cheia de arranhão — foi o cachorro mais velho, o Beethoven, um vira-lata que a família adotou faltando quinze minutos pro abrigo fechar as portas, há uns seis anos. Ele já não anda tão bem das pernas, mas ainda late quando o portão de ferro range. É esse rangido que sempre me avisa quando alguém chega em casa, mais do que qualquer campainha.

O casal se conheceu de um jeito meio inesperado, foi a própria Renata quem me contou, numa tarde em que ela estava dobrando roupa e eu esperava a hora de levar os cachorros pro veterinário. Foi num restaurante em Teresópolis, ela dando aula de ioga particular pra um grupo de amigas, e o Otávio, sentado numa mesa ali perto, não parou de olhar. No fim ele se levantou, foi até ela e disse que precisava se apresentar. Tinha vinte e cinco anos de diferença entre os dois. Um ano depois, já estavam casados, numa cerimônia pequena numa chácara em Itaipava.

O que pouca gente sabe — porque isso não sai em revista — é o tanto que essa casa mudou depois do processo que o Otávio enfrentou, lá em 2021, quando um acidente numa obra da construtora dele deixou um funcionário gravemente ferido. Foram meses de investigação, repórteres rondando o portão, a Renata tendo que explicar pras crianças por que tinha gente tirando foto da casa deles. Fiquei sabendo por alto, porque nessa época eu levava os cães pra passear de manhã bem cedo, antes do movimento, justamente pra evitar câmera.

Foi numa dessas manhãs, com o Beethoven mancando na coleira e a filhotinha golden puxando pro lado errado, que encontrei a Bianca — a filha mais velha do Otávio, do primeiro casamento — sentada no muro baixo da esquina, fumando escondido. Ela tinha vinte e seis anos, trabalhava numa imobiliária no centro, e não morava mais lá, mas aparecia direto. Falou pouco, só que "minha madrasta é mais forte do que qualquer um imagina", e apagou o cigarro na sola do tênis antes de entrar em casa.

Devo ter uns oito meses sem ir lá, porque eles contrataram uma pessoa fixa pra tomar conta dos animais. Mas fui chamada de novo semana passada, porque a funcionária nova pediu demissão de repente e eles iam viajar pro casamento de um sobrinho em Búzios. Cheguei de manhã, o sol batendo naquele jeito que só bate em setembro no Rio, com cheiro de café passado vindo da cozinha e a TV ligada baixinho num programa de fofoca — coincidentemente falando de outra família famosa. A Renata estava na sala, de calça de moletom, cabelo preso, sem maquiagem nenhuma, bem diferente da mulher do vídeo com a legging vermelha. Ela me entregou um envelope pardo, meio amassado.

"Isso é pro veterinário, caso a Íris precise da vacina enquanto a gente tá fora", falou, ocupada procurando a chave reserva numa gaveta cheia de elástico de cabelo e recibo de farmácia.

Não perguntei nada. Não é meu papel perguntar. Só reparei que dentro do envelope, além da carteirinha da cachorra, tinha uma cópia de um documento com o nome da construtora do Otávio e um monte de assinatura — parecia coisa de sociedade, de divisão de cota. A Renata percebeu que eu vi, fechou o envelope de novo e falou baixo, quase pra ela mesma: "Depois dessa viagem eu resolvo isso."

Voltaram no domingo à noite. Fiquei sabendo porque o Beethoven começou a latir feito louco às nove horas, o portão rangendo do jeito que só range quando é carro grande entrando. Fui lá devolver a chave na segunda de manhã e a casa estava diferente — não tinha nada quebrado, nem grito, nada de cena. Só a Renata sentada na mesa da cozinha com uma advogada, uma mulher de terno cinza que eu nunca tinha visto, e os dois documentos abertos: um era a escritura da casa, outro tinha o timbre de um cartório de Petrópolis mesmo.

Ela me chamou pra assinar como testemunha de uma coisa qualquer relacionada ao seguro dos cachorros — só isso que me cabia entender, e só isso que eu quis entender. Mas antes de eu sair, ouvi ela falar pro Otávio, que tinha acabado de chegar e ficou parado na porta da cozinha com a mala ainda na mão:

"A parte da construtora que estava no meu nome, resolvi transferir de volta pra Bianca. Trinta por cento, do jeito que devia ser desde o início. Já assinei hoje de manhã, com a doutora Fernanda."

Otávio não disse nada por um segundo. Largou a mala no chão e puxou a cadeira pra sentar.

"Você não precisava fazer isso agora."

"Eu sei", ela respondeu, fechando a pasta e alinhando as duas folhas com a borda da mesa, uma sobre a outra, como quem termina de verdade um assunto. "Mas eu não ia mais segurar uma coisa que nunca foi minha."

Peguei a coleira do Beethoven, que tinha vindo esfregar o focinho na minha perna, e saí pela porta lateral, do jeito que sempre saio, sem me despedir demais. No portão, olhei pra trás uma vez só: a Bianca tinha acabado de chegar, parada na calçada com o capacete da moto debaixo do braço, encarando a porta de entrada como quem ainda não acredita no que vai encontrar.

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