Eu dirigia caminhões havia trinta e dois anos quando conheci aquele garoto pela primeira vez. Chamo-me Osvaldo Ferraz, tenho sessenta e sete anos, e conto essa história porque preciso tirá-la do peito — nem que seja só pra mim mesmo, numa tarde de domingo, com o rádio ligado baixinho no programa de sertanejo que sempre ouço enquanto tomo meu cafezinho.
Foi em 2011, perto do trevo de Caraguatatuba, litoral de São Paulo. Eu parava sempre naquele semáforo antes da subida da serra, porque o motor do meu Scania vinha esquentando e eu preferia dar uma folga pra ele ali. Foi nessa parada que vi o menino pela primeira vez: um garoto magrinho, uns dez anos, andando entre os carros com um maço de flores na mão, o sol de janeiro cozinhando o asfalto.
Chamava-se Juninho. Fiquei sabendo o nome dele numa das tardes em que parei pra comprar um raminho — não porque eu precisasse de flor nenhuma, mas porque aquele menino correndo entre os carros me tirava o sono. Baixei o vidro, perguntei quanto era, e ele respondeu com uma vozinha educada, quase um pedido de desculpas por estar ali cobrando.
— Cinco reais, moço. É pra minha mãe, ela vende na feira, mas as pernas dela andam ruins.
Não resisti. Perguntei por que ele arriscava a vida daquele jeito, correndo entre ônibus e carreta.
— Minha família não tem dinheiro, seu moço. Eu juntando um trocado, quem sabe eu volto pra escola ano que vem.
Aquilo me apertou o peito. Eu tinha netos da idade dele brincando de bola no quintal, em segurança, enquanto esse menino se equilibrava entre veículos a oitenta quilômetros por hora. Falei o que qualquer avô diria, com a boca cheia de boa intenção:
— Rapaz, isso aqui é loucura. Um motorista distraído, uma frenagem errada… sua vida vale mais que qualquer diploma. Tanta gente que não estudou e se deu bem por aí. Larga essa estrada, menino, antes que ela te leve.
Falei aquilo e segui viagem. Não pensei duas vezes — achei que tinha feito a coisa certa, plantado uma semente de bom senso na cabeça de uma criança. Rodei o Brasil inteiro nos anos seguintes, levando carga de soja, de eletrodoméstico, de tudo quanto é coisa, e o rosto daquele garoto foi sumindo na poeira da estrada, como tanta gente que a gente cruza e nunca mais vê.
Catorze anos se passaram. Em 2025, já aposentado, com a coluna reclamando de tanto volante e os joelhos avisando quando ia chover, eu ainda gostava de dar uma volta pela orla de Ubatuba, onde me mudei depois que minha esposa faleceu. Foi numa dessas voltas, perto do terminal rodoviário, que um rapaz se aproximou de mim.
Ele devia ter uns vinte e quatro anos, a roupa surrada, as mãos ásperas de quem dorme ao relento. Segurava um copo plástico amassado.
— Moço, o senhor… o senhor tem um trocado aí?
Olhei pra ele com aquele misto de pena e reprovação que a gente sente diante de tanta gente jovem perdida por aí.
— Rapaz, você é novo ainda. Por que não foi atrás de estudar, de trabalhar direito, de construir alguma coisa?
Ele baixou a cabeça.
— Meus pais não tinham condição de me botar na escola, seu moço.
Aquilo me irritou — ou melhor, me deu aquela vontade de dar um sermão, como se eu tivesse todas as respostas do mundo.
— Não bota a culpa nos seus pais, rapaz. Tem gente pobre que se vira, trabalha, junta um dinheirinho, corre atrás. Você devia ter feito o mesmo.
Foi nesse instante que reparei no jeito dele segurar o copo — com as duas mãos, os dedos dobrados de um lado só, exatamente como o menino que segurava o maço de flores catorze anos antes. E a voz. Aquela voz educada, meio pedinte, que eu não tinha esquecido, mesmo sem saber que guardava.
— O senhor não se lembra de mim? — ele falou, e um arrepio me correu pelo braço. — O senhor foi quem me disse pra largar as flores. Lá na BR, perto de Caraguá.
Fiquei parado feito poste. As pernas travadas, o copo de café que eu carregava esfriando na mão. Ele continuou, sem raiva na voz, só cansaço:
— Eu larguei tudo por causa do que o senhor falou. Fiquei rodando, fazendo bico, sem terminar nem o fundamental. Minha mãe morreu, meu pai bebeu até não aguentar mais o fígado. E eu fiquei aqui, sem nada.
Não tive o que responder. O silêncio pesou entre a gente, cortado só pelo apito de um ônibus manobrando no terminal e pelo cheiro de maresia misturado com óleo diesel que sempre marca aquela rodoviária.
Fui pra casa naquela tarde com o estômago embrulhado. Passei a noite virando de um lado pro outro, pensando em quantos "conselhos" desses eu já tinha dado na vida — pra sobrinho, pra filho de vizinho, pra qualquer moleque que cruzasse meu caminho com um sonho torto demais pro meu gosto.
No dia seguinte, voltei ao terminal. Levei uma pasta de plástico com os papéis que eu tinha separado durante a madrugada: o comprovante de abertura de uma poupança no nome dele, no valor de três mil e duzentos reais — quase tudo que eu tinha guardado da venda do meu caminhão antigo — e o encaminhamento que um vizinho meu, coordenador do CIEE de Ubatuba, tinha me arrumado por telefone às sete da manhã, pra vaga de auxiliar de almoxarifado com estudo pago à noite pelo Senai.
Encontrei o Juninho sentado no mesmo banco, olhando pro mar sem ver nada. Sentei do lado dele e pus a pasta no colo dos dois.
— Não vou te pedir desculpa com palavra bonita, porque palavra bonita foi o que te derrubou da primeira vez — falei. — Isso aqui é uma conta aberta no seu nome, com endereço da pensão da Dona Marisa, que já topou te dar teto por três meses enquanto você se ajeita. E isso é uma vaga de trabalho com curso incluso. Você decide o que faz com isso. Eu só não quero mais falar nada — quero é ver você fazendo.
Ele olhou pra pasta, depois pra mim, e não disse muita coisa. Só perguntou, baixinho, se era sério mesmo.
Era. E foi.












