Eu estava sentada no banco de trás de um Uber, com o ponto da cesárea ainda ardendo a cada buraco da Avenida Brasil, quando percebi que tinha esquecido a chave de casa na bolsa da maternidade. Não fazia diferença. Eu não ia voltar para aquela casa.
Cinco dias antes eu tinha tido o Theo. Parto de emergência, cesárea, três horas de bloco cirúrgico no Hospital e Maternidade São Luiz, em Itaim Bibi. E cinco dias depois, Rogério, meu marido, me entregou uma nota de cinquenta reais dobrada na mão e disse que isso cobria o Uber até em casa.
Vou contar do começo, porque quem só vê o final não entende o tamanho da coisa.
Eu me chamo Carina, tenho trinta e dois anos, trabalho com contabilidade numa empresa de médio porte em São Paulo. Rogério é gerente comercial numa concessionária. Nos conhecemos há seis anos, casamos há três. O carro que ficou parado na vaga do hospital — um Jeep Compass preto, zero quilômetro — foi presente do meu pai no casamento. Documento no meu nome. Isso vai importar depois.
A gravidez foi difícil desde o sexto mês: pressão alta, inchaço nas pernas, duas internações para observação. Dona Marisa, minha sogra, nunca apareceu uma vez sequer no hospital nessas internações. Mandava mensagem perguntando "e aí, já nasceu?" como se eu estivesse atrasando um pedido.
No dia do parto, ela chegou puxando Rogério pelo braço para fora do quarto de recuperação, dizendo que ele precisava "tomar um café, respirar, aquilo tudo é muito tenso pra ele". Eu estava com a barriga cortada e pontos grampeados, segurando meu filho sozinha, enquanto o pai dele ia tomar café com a mãe.
No dia da alta, achei que ia melhorar. Estava errada.
Rogério chegou no quarto com a bolsa do Theo já arrumada e falou, sem olhar muito para mim:
— Ó, separei cinquenta reais pra você pedir um Uber. Minha mãe e minha irmã vieram de Campinas, prometi levar elas pra almoçar naquele japonês da Vila Olímpia antes que elas voltem.
Eu ri. De verdade, ri, porque pensei que fosse brincadeira.
— Rogério, eu fiz cesárea. Mal consigo ficar em pé direito.
— Ah, para. A Patrícia, minha irmã, tava andando igual gente normal com três dias de parto normal. Você vai ficar bem.
— Normal não é cesárea.
— Carina, já prometi pra minha mãe.
E foi embora. Peguei o berço portátil, a bolsa, o Theo dormindo enrolado no cueiro, e desci sozinha pelo corredor da maternidade até a portaria, com um corte de doze centímetros gritando a cada passo.
Lá fora, vi o Compass preto saindo da vaga de visitantes. Dona Marisa no banco do carona, rindo. Patrícia atrás. Rogério dirigindo, sem nem olhar para o lado onde eu estava, parada na calçada com o filho dele no colo.
Chamei o Uber. Esperei vinte minutos sentada num banco da entrada, suando frio, com a ferida latejando.
O motorista, um senhor de uns sessenta anos, perguntou se eu estava bem assim que entrei no carro. Falei que sim. Ele olhou pelo retrovisor de novo, mas não insistiu.
Na Rebouças, parado num sinal, vi o Compass duas faixas à frente. Pelo vidro, dava pra ver Rogério rindo de alguma coisa que Patrícia tinha dito. Nenhum deles virou a cabeça. Nenhum deles sabia — ou se importava — que o filho deles estava três carros atrás, num banco de bebê improvisado às pressas dentro de um Uber.
Foi nesse sinal vermelho que alguma coisa dentro de mim parou de doer de tristeza e começou a ficar fria.
Não chorei. Peguei o celular e liguei para meu pai.
— Pai — falei baixo, pra não acordar o Theo. — O Rogério me mandou de Uber pra casa, cinco dias depois da cesárea, porque ele tinha prometido almoço pra mãe dele. Eu vou separar dele. E não tem volta dessa vez.
Meu pai, o Nestor, ficou um segundo em silêncio. Quando falou, a voz saiu baixa, sem gritar, do jeito que ele fica quando está realmente furioso.
— Me manda o endereço de onde você tá agora. Você e meu nieto vêm pra minha casa hoje.
Fui direto para a casa dele, no Brooklin. Nem passei na casa que dividia com Rogério.
Meu pai não fez discurso. Preparou o quarto de hóspedes, pediu pra minha mãe esquentar canja, e só me perguntou uma coisa:
— O carro é seu, né? Documento no seu nome?
— É.
— Então amanhã você vai buscar ele.
No dia seguinte, com o Theo no colo da minha mãe, fui com meu pai até a casa. Rogério estava saindo pra trabalhar quando chegamos. Ficou parado na porta, viu o carro do meu pai estacionando, e já começou a se explicar antes de alguém falar qualquer coisa.
— Carina, foi só um almoço, você tá fazendo drama…
— Me dá a chave do Compass.
— Quê?
— A chave. O carro é meu. Documento no meu nome, financiamento pago com dinheiro que meu pai deu de presente pra mim, não pra você. Você andou de Uber cinco dias depois que eu tive cesárea. Agora é minha vez de andar no meu carro.
Ele travou. Olhou para o meu pai, que só ficou parado, com as mãos nos bolsos, sem dizer uma palavra — a presença dele já dizia tudo que precisava.
Rogério tentou ligar pra dona Marisa na hora, do lado de fora de casa, pedindo ajuda. Ela não atendeu. Ligou de novo. Nada.
Larguei o assunto da briga e fui direto ao ponto prático: entrei em casa, peguei meus documentos, a certidão de nascimento do Theo, minha carteira de trabalho, e as chaves do Compass que estavam no gancho da cozinha, onde sempre ficaram.
Duas semanas depois, dei entrada no divórcio. Pedi guarda do Theo e deixei registrado, com recibo, que o veículo era bem particular anterior ao casamento — documentação e nota fiscal em meu nome, de antes mesmo da data do casório. O advogado disse que não teria nem discussão.
Rogério me ligou um mês depois, perguntando se dava pra "conversar, reconsiderar". Eu estava no sofá da casa nova, um apartamento que aluguei no Ipiranga com o que sobrou da minha reserva, o Theo mamando no meu colo.
— Não tem o que reconsiderar, Rogério. Você teve a chance de ficar comigo naquele dia. Escolheu o almoço.
Desliguei. Coloquei o celular na mesinha, ao lado da chave do Compass — minha, só minha — e fiquei olhando meu filho dormir, sem precisar da ajuda de ninguém pra isso.
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